Novas restrições prometidas pelo presidente após polêmicas na campanha eleitoral podem aprofundar conflito de interesses com Donald Trump e os EUA
A primeira proposta citada no discurso de vitória do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva foi a regulação das redes sociais, que, segundo ele, foram usadas para tentar interferir no processo eleitoral.
“Foi uma eleição em que vencemos a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las”, declarou. “Nós não podemos ter empresas monstruosas de grandes, ganhando milhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país, e tentando direcionar o resultado eleitoral. ”
Embora nenhuma nova medida tenha sido anunciada por enquanto, a declaração dá uma dimensão institucional à disputa que já vinha acontecendo durante a campanha e que pode ser mais um ponto de atrito com o governo de Donald Trump nos Estados Unidos.
O alvo mais evidente é a Meta, empresa trilionária dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, que esteve no centro de uma série de reclamações da campanha petista sobre o alcance de publicações e o funcionamento de ferramentas de inteligência artificial. A equipe de Lula acusou a empresa de impor restrições que prejudicariam o presidente e favoreceriam seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL).
O caso foi parar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinou que a empresa garantisse tratamento isonômico aos candidatos na distribuição de conteúdo sob pena de multa de 500. 000 reais por infração. A própria companhia admitiu que havia diferenças no tratamento das publicações de cada candidato, mas atribuiu os casos a falhas técnicas e negou que tenha atuado para interferir no resultado eleitoral.
Tensão com os EUA
A discussão sobre regulação das redes sociais, no entanto, não se restringe às fronteiras nacionais. Em 2025, o que motivou as sanções dos Estados Unidos a autoridades brasileiras, como o ministro do STF Alexandre de Moraes, não foi só o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas a acusação de censura e violação à liberdade de expressão o ministro havia ordenado a remoção de publicações e a restrição de contas em diversas plataformas.

Há também uma relação de proximidade de Trump, inclusive ideológica, com os magnatas donos das big techs, como Mark Zuckerberg (dono da Meta) e Elon Musk (dono do X). Uma regulação mais rigorosa das redes sociais no Brasil pode, portanto, ser interpretada em Washington como mais um ponto de disputa. Além das sanções a autoridades, o governo Donald Trump também impôs uma sobretaxa de 25% sobre a importação de produtos brasileiros, citando “práticas comerciais desleais”. Alguns dos motivos apontados pelos americanos foram o Pix, o acesso ao mercado de etanol, o combate à pirataria e ao desmatamento.
Ao comprar essa briga, Lula pode transformar uma promessa de política doméstica em um novo teste para a relação com os Estados Unidos.
Fonte: veja.abril.com.br