Juros elevados e enfraquecimento da demanda interna pressionam a atividade econômica, aponta a entidade; previsão para a indústria caiu de 2% para 1,3%
A indústria deve registrar a maior revisão negativa entre os setores produtivos. A CNI reduziu de 2% para 1,3% a expectativa de crescimento do segmento em 2026, mesmo com a previsão de expansão de 9,1% da indústria extrativa. O principal obstáculo é a indústria de transformação, cuja projeção passou de alta de 0,6%, estimada em julho, para queda de 0,7% neste ano.
Segundo a entidade, o segmento enfrenta uma combinação de demanda interna enfraquecida, juros elevados, condições financeiras mais desfavoráveis para empresas e famílias, aumento dos custos de produção e maior entrada de produtos importados. Já a construção civil teve sua expectativa de crescimento mantida em 1,5%, sustentada pela expansão do programa Minha Casa, Minha Vida e pelos investimentos em infraestrutura.
O setor de serviços também deve crescer menos do que o previsto. A projeção de avanço passou de 1,9% para 1,6%, em meio à estagnação do volume de serviços desde o fim de 2025 e à desaceleração do comércio varejista, sobretudo nas atividades mais dependentes de crédito. Na direção oposta, a agropecuária foi o único setor produtivo com revisão positiva: a estimativa de crescimento subiu de 1,8% para 2,5%, impulsionada pela melhora das perspectivas para a segunda safra de milho.
Quem está mais dependente de mercado interno está sendo muito afetado por conta da taxa de juros, diz Mario Sergio Telles, diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI.
Mercado de trabalho e contas públicas
Apesar da perda de ritmo da atividade econômica, o mercado de trabalho deve continuar sustentando parte da demanda. A CNI prevê crescimento de 1,2% da população ocupada em 2026 e redução da taxa de desemprego, de 5,3% atualmente para 5% no fim do ano. A massa de rendimento real, por sua vez, deve aumentar 4,6% em relação a 2025.
A política fiscal expansionista também deve contribuir para estimular a economia. As despesas federais devem crescer 4,6% acima da inflação, enquanto a receita líquida tem previsão de alta real de 5,9%. Mesmo com o aumento da arrecadação, a entidade estima déficit primário de 54,6 bilhões de reais, equivalente a 0,4% do PIB. Consideradas as exclusões de aproximadamente 67,3 bilhões de reais em precatórios e outras despesas para fins de cumprimento da meta fiscal, o resultado deve ser um superávit de 12,6 bilhões de reais, ou 0,1% do PIB.
A CNI também projeta aumento da dívida pública bruta, de 78,6% para 83,7% do PIB em apenas um ano. Telles avalia que a combinação de déficit primário e juros elevados continuará pressionando as contas públicas.
Inflação e juros
No cenário de preços, a entidade prevê aceleração da inflação até o fim do ano, após o alívio observado entre junho e agosto. A pressão deve vir dos alimentos, dos preços administrados, como energia e combustíveis, e dos serviços. Com isso, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deve encerrar 2026 com alta de 5,15%, ante 4,26% em 2025.
A expectativa da CNI é que o Banco Central reduza a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual em cada uma das duas reuniões restantes do ano, levando-a a 13,25% ao fim de dezembro. A entidade, contudo, considera possível uma flexibilização mais rápida da política monetária. Os juros reais projetados ainda estarão em torno de 9%, quase o dobro da taxa neutra estimada pela confederação, de 5%.
No mercado de crédito, as concessões totais devem crescer 5,15% em 2026. A expansão projetada é de 6,4% para as empresas e de 4% para as famílias, embora o ritmo de concessão de recursos deva diminuir no último quadrimestre do ano.
Comércio exterior
A CNI também prevê aumento do superávit comercial brasileiro em 2026. As exportações devem alcançar 386,7 bilhões de dólares, alta de 10,3% em relação ao ano passado, impulsionadas principalmente pelos preços das commodities e pelo desempenho da indústria extrativa.
As importações, por sua vez, devem somar 309,4 bilhões de dólares, crescimento de 6,4% na comparação anual, com destaque para combustíveis, lubrificantes e bens de consumo, como automóveis. Nesse cenário, a balança comercial deve registrar superávit de 77,3 bilhões de dólares, quase 30% superior ao resultado de 2025.
Fonte: veja.abril.com.br