Anúncios políticos com IA ganharam impulso nos EUA e geram duelo entre republicanos e democratas
À medida que se aproximam as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, a inteligência artificial (IA) ganha espaço na campanha, e com ela, a desinformação também aumenta. Chamado de slopaganda, o fenômeno pode ser visto tanto em republicanos quanto em democratas, mesmo que os apoiadores do presidente americano Donald Trump sejam os que mais investem na tecnologia.
Em um desses anúncios, Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado pelo estado do Michigan, aparece segurando cartas de um jogo de tabuleiro nas quais se lê “Morte aos Estados Unidos” e “Celebre o 11 de Setembro”, data do atentado contra as Torres Gêmeas, em Nova York. “A destruição de Israel e do Ocidente não é apenas um jogo para eles”, afirma um narrador, antes de acrescentar: “É uma missão”.
O candidato, que é muçulmano e filho de um egípcio, também aparece em uma foto de família, gerada por inteligência artificial, ao lado de quatro mulheres cobertas da cabeça aos pés por véus. Uma organização ligada a Ted Cruz, senador republicano pelo Texas, é a responsável pelo vídeo, que traz um aviso informando que o material foi “criado, total ou parcialmente, com o auxílio de inteligência artificial”.
Caminho perigoso
No entanto, este último caso é uma raridade, segundo os pesquisadores, que alertam que a maioria dos anúncios criados com IA não inclui esse rótulo, o que contribui para a propagação de desinformação. O Wesleyan Media Project, que monitora os gastos com publicidade em campanhas eleitorais nos Estados Unidos, identificou até agora 220 anúncios políticos gerados por IA. Um número que, segundo os próprios pesquisadores, é, na verdade, muito maior.
Quase 81% dos 220 anúncios foram financiados por candidatos ou organizações ligadas aos republicanos, 12% por democratas e o restante por candidatos ou grupos independentes. O projeto estima ainda que a veiculação desses anúncios custou mais de 137 milhões de dólares (753,4 milhões de reais), enquanto, em 2024, o gasto com anúncios gerados por IA foi de apenas 50 mil dólares (274 mil reais).
Apenas 27% dos anúncios mencionam o uso de IA, afirma Erika Franklin Fowler, codiretora do Wesleyan Media Project. Não existe nenhuma regulamentação em nível federal que obrigue a inclusão desse tipo de advertência, embora alguns estados tenham limitado o uso dessa tecnologia nas campanhas eleitorais. Jon Ossoff, senador democrata pela Geórgia, considerou, no mês passado, que era “profundamente preocupante” observar o uso crescente desse tipo de conteúdo nesta campanha.
Ossoff, que busca a reeleição em novembro, solicitou a retirada de um anúncio criado com IA, embora não esteja rotulado no vídeo, no qual ele aparece em um salão de beleza e é acusado de “maquiar” seu relatório de prestação de contas. Por trás do anúncio está o grupo Senate Leadership Fund, que apoia os candidatos republicanos ao Senado.
O uso de IA em anúncios de campanha não é bem visto entre os cidadãos. Uma pesquisa realizada recentemente para a Fundação AAPC aponta que 73% dos entrevistados descreveram o uso de IA como “inaceitável”. Alguns pesquisadores minimizam o impacto destes anúncios nos resultados eleitorais.
A ‘slopaganda’ é “provavelmente mais eficaz na mobilização de eleitores ou na arrecadação de fundos do que na influência na eleição de um candidato”, afirma em um relatório recente o Centro de Política Tecnológica da Universidade de Nova York. O relatório também menciona as “limitações” destes anúncios em captar a atenção, “particularmente à medida que nos tornamos cada vez mais sobrecarregados pela confusão gerada pela IA”.
(com AFP)
Fonte: veja.abril.com.br