Estudo aponta matriz elétrica renovável como vantagem para atrair infraestrutura de IA, mas avanço depende de investimentos e conexões à rede
O consumo mundial de eletricidade dos data centers pode quase dobrar até 2030, impulsionado pela expansão da inteligência artificial. A demanda deve passar de 485 terawatts-hora (TWh) em 2025 para 950 TWh ao fim da década, segundo projeção da Agência Internacional de Energia (AIE). A corrida por abastecimento abre uma oportunidade para o Brasil: usar sua matriz elétrica majoritariamente renovável para atrair empresas e investimentos em infraestrutura digital.
Essa é uma das conclusões do relatório 10 Energy Megatrends, produzido pelo Energy Summit em parceria com a Deloitte, com lançamento nesta quarta-feira, 28. O estudo reúne dez tendências para o setor energético e aponta a disponibilidade de eletricidade confiável e de baixa emissão como um fator cada vez mais relevante na escolha dos locais que receberão novos centros de processamento de dados.
Os data centers abrigam servidores que armazenam informações e executam serviços digitais, da computação em nuvem ao treinamento e funcionamento de modelos de inteligência artificial. Além de alimentar os equipamentos, a eletricidade mantém os sistemas de refrigeração necessários para evitar o superaquecimento das instalações.
Com o avanço da IA, a capacidade de fornecer energia de forma contínua ganha peso nas decisões de investimento. Segundo o relatório, a espera por conexão à rede elétrica pode chegar a cinco a sete anos em mercados dos Estados Unidos e da Europa. As dificuldades estimulam empresas de tecnologia a buscar contratos de longo prazo e fontes de geração dedicadas ao abastecimento de suas operações.
Para o Brasil, o estudo identifica três vantagens: uma matriz elétrica com participação de renováveis superior a 85%, a capacidade das hidrelétricas de ajustar a produção e a interligação entre diferentes regiões pelo Sistema Interligado Nacional (SIN). A combinação pode favorecer a instalação de centros de processamento interessados em conciliar disponibilidade de energia e menores emissões.
O potencial, porém, depende de infraestrutura. O relatório aponta a necessidade de acelerar a conexão de grandes consumidores, ampliar investimentos no sistema elétrico e dar previsibilidade regulatória aos projetos. A existência de geração renovável, por si só, não garante que a energia esteja disponível no local e no prazo exigidos pelas empresas.
Há também uma exigência crescente quanto à origem da eletricidade. Segundo o estudo, empresas passam a buscar o abastecimento por fontes livres de carbono em cada hora de operação, elevando o padrão em relação à compensação do consumo por certificados anuais. Nesse modelo, importa assegurar o fornecimento mesmo quando não há sol ou quando a produção eólica diminui.
A disputa cria oportunidades para geradoras e empresas de infraestrutura, além dos próprios operadores de data centers. Contratos de fornecimento de longo prazo, subestações dedicadas e sistemas de resfriamento mais eficientes passam a integrar os projetos de expansão digital.
O relatório cita a Scala Data Centers como exemplo brasileiro dessa integração. No Campus Tamboré, em São Paulo, a empresa combina infraestrutura elétrica dedicada, fornecimento renovável e soluções de refrigeração para atender instalações com elevada demanda de processamento.
A relação entre energia e inteligência artificial também funciona no sentido inverso. O estudo aponta que algoritmos podem melhorar as previsões de geração solar e eólica, antecipar condições de operação e ajudar a equilibrar oferta e consumo. Para o Brasil, a oportunidade envolve tanto abastecer a expansão da economia digital quanto aplicar a tecnologia para melhorar a eficiência de seu próprio sistema elétrico.
Fonte: veja.abril.com.br