Verão marcado por calor intenso, reflexo das mudanças climáticas, expôs artilharia e bombas na região montanhosa das Dolomitas
O Exército italiano revelou nesta terça-feira, 27, que 250 explosivos da Primeira Guerra Mundial foram encontrados durante o verão europeu devido ao derretimento acelerado de geleiras nas Dolomitas, região montanhosa no norte da Itália.
Entre os materiais recuperados e desativados estavam 18 projéteis de artilharia italianos de 75 mm e 37 projéteis de morteiro Thevetot, um dispositivo de fabricação francesa que também foi fornecido ao exército real italiano durante o conflito, que durou de 1914 a 1918. Os militares afirmaram que o estoque, que também conta com bombas de morteiro francesas, foi removido do local e neutralizado pela brigada alpina Julia.
Segundo Stefano Morosini, professor da Universidade de Bergamo e coordenador de projetos de patrimônio no Parque Nacional Stelvio, a descoberta desse tipo de material tem se tornado cada vez mais frequente.
Nos últimos anos, ao final de cada verão, esses artefatos perigosos emergem e, a cada ano, o número aumenta. Eles foram conservados pelo gelo por mais de 100 anos. Alguns já haviam explodido, mas muitos não, e agora quando reaparecem são muito, muito perigosos, afirmou o especialista ao jornal britânico The Guardian.
Aquecimento global
Essa não é a primeira vez que objetos ligados à Primeira Guerra são encontrados dessa forma. O derretimento do gelo, que se intensificou nos últimos anos devido ao aquecimento global, tem mostrado materiais que permaneceram escondidos por mais de um século.
Durante o verão, turistas e trilheiros relataram ter encontrado bombas, principalmente no Vale Primiero, no leste de Trentino. Em resposta, militares realizaram buscas na área e em outras regiões de altitude elevada, incluindo geleiras de Trentino-Alto Ádige, nas Dolomitas.
As autoridades locais orientam turistas a “nunca tocar em qualquer tipo de dispositivo explosivo que encontrarem, independentemente de onde esteja localizado” e a informar imediatamente a polícia sobre qualquer objeto suspeito.
Além de trazer à superfície objetos históricos e explosivos, o aquecimento das geleiras também tem aumentado os riscos para quem visita essas regiões. Especialistas alertam que as altas temperaturas registradas durante o verão estão dificultando o acesso seguro às montanhas. Em 2022, por exemplo, o desprendimento de uma grande massa de gelo em Marmolada provocou a morte de 11 pessoas.
A guerra branca
Os armamentos são da época da chamada guerra branca, conflito travado entre tropas italianas e austro-húngaras de 1915 a 1918, em regiões montanhosas marcadas por temperaturas extremamente baixas e condições adversas.
As batalhas se concentraram nas Dolomitas de Trentino-Alto Ádige e nos Alpes da Lombardia, causando mais de um milhão de mortes. Durante décadas, os vestígios do conflito permaneceram preservados sob a neve. A partir dos anos 1990, porém, o aumento das temperaturas começou a expor armas, trenós, cartas e diários.
Um dos exemplos mais marcantes ocorreu em 2015, quando um antigo quartel de madeira voltou a aparecer após o derretimento do gelo. A construção ficava dentro de uma caverna no alto do Monte Scorluzzo, a 3.095 metros de altitude, próximo ao Passo Stelvio.
O local havia sido fechado às pressas no fim da Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918. Na ocasião, soldados deixaram para trás grande parte de seus objetos pessoais. Dentro do abrigo, foram encontrados camas de palha, roupas, lanternas, jornais, cartões-postais, moedas e alimentos enlatados, todos em bom estado de conservação.
Para preservar a memória do conflito e reunir os objetos encontrados nas geleiras, está prevista a inauguração de um museu dedicado à guerra branca na cidade de Bormio, em junho de 2027.
Fonte: veja.abril.com.br