No Centrão e no Partido Liberal já se conversa sobre o dilema da direita: seguir na fragmentação ou se aglutinar em torno de Tarcísio de Freitas
No domingo, eleitores contrários à permanência de Lula no poder por mais quatro anos deram 59,8 milhões de votos a Flávio Bolsonaro.
Foram superados pela maioria, dona de 64,2 milhões de votos, que pela segunda vez em quatro anos escolheu Lula para impedir o retorno de um Bolsonaro à presidência da República.
Três semanas antes, o eleitorado havia revestido a oposição com nova moldura no Congresso. Ampliou a bancada extremista agrupada no Partido Liberal de Flávio Bolsonaro e no seu satélite, o Novo, em cima dos partidos da direita moderada, aglomerados no Centrão. Eles perderam votos na Câmara e no Senado e, também, um pedaço do caixa cerca de 7% do volume de dinheiro recebido dos fundos eleitoral e partidário.
A simples perspectiva dessa autofagia já havia deixado Flávio Bolsonaro isolado durante a campanha. Contados os votos do primeiro turno, consolidou-se o racha da direita.
O Partido Liberal tornou pública a pretensão de comandar a renovação da direção da Câmara e do Senado em fevereiro. Ou seja, o PL quer decidir a pauta de votação nos plenários do Congresso.
Os partidos do Centrão reagiram. Na semana passada convidaram o deputado Hugo Motta (PP) a se candidatar à reeleição na presidência da Câmara. Ontem, o senador Davi Alcolumbre (União Brasil) anunciou ter votos suficientes para se reeleger no Senado.
A derrota de Flávio Bolsonaro, por expressiva diferença de 4,4 milhões de votos, amplia dúvidas sobre como a direita tende a se reorganizar no Congresso.
Líderes do Centrão e do Partido Liberal começaram a conversar sobre o dilema de 2027: seguir na fragmentação ou se aglutinar em torno de um líder da oposição com perspectiva de poder em 2030, como é o caso do governador paulista Tarcísio de Freitas, reeleito no primeiro turno pelo partido Republicanos.
Flávio Bolsonaro, aparentemente, não percebeu a gravidade dos danos autoinfligidos com a reação raivosa e ressentida ao fracasso imprevisto nas pesquisas. Ao negar a derrota, reivindicou anulação da eleição e cassação do vencedor. Surpreendeu aliados, que discordaram, reconheceram o fiasco nas urnas e o deixaram isolado dentro do próprio partido.
Alertado sobre a armadilha em que se metera, ele resolveu se autoproclamar líder da oposição. A tendência é a economia ruir, a inflação explodir, e o resto de liberdade de expressão, que ainda nos resta, ser encerrado nas redes sociais declarou, apresentando-se disposto a salvar a pátria: Para resistir ao caos, eu vou organizar a oposição.
O amadorismo, aparentemente, dificulta o entendimento de que liderança não se proclama, se exerce, como ensinou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Em menos de 24 horas depois de perder a eleição, Flávio Bolsonaro realizou uma proeza: conseguiu turvar sua principal conquista em 24 anos na política os 59,8 milhões de votos do último domingo.
Fonte: veja.abril.com.br