Diretriz americana mostra que hormônios e remédios modernos aliviam ondas de calor. Mas por que muitas pacientes ainda não recebem o tratamento?
São 3 da tarde, a reunião ainda não acabou e, sem aviso, uma onda de calor sobe do peito para o pescoço e explode no rosto. O suor brota, o coração dispara. Dois minutos depois, passa. Até a próxima. À noite, o lençol fica encharcado e o sono vira pedaços. Milhões de brasileiras conhecem a cena e muitas ouvem que é coisa da idade ou que é frescura
Não basta. Recentemente, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, referência mundial em saúde da mulher, publicou uma nova diretriz para tratar os sintomas vasomotores as ondas de calor e o suor noturno. O recado é claro: existe tratamento eficaz, e ele deve ser oferecido.
O termostato do cérebro
O climatério é a fase de transição em que os ovários vão reduzindo sua atividade até a última menstruação a menopausa propriamente dita, confirmada após 12 meses sem sangramento. Com a queda do estrogênio, o hipotálamo, região do cérebro que funciona como um termostato, se desregula. Um grupo de neurônios passa a liberar em excesso uma substância chamada neurocinina B, e o corpo começa a reagir a mínimas variações de temperatura como se estivesse superaquecido: dilata os vasos da pele e dispara o suor para se resfriar. É o fogacho.
Cada episódio dura, poucos minutos e pode vir com calafrios, ansiedade e palpitações. Entre cinco e nove em cada dez mulheres passam por isso em algum grau. Calor, sono ruim e humor alterado andam juntos: quem acorda encharcada três vezes por noite chega ao dia seguinte exausta e irritada.
O pico se dá perto da última menstruação, por volta dos 50 anos. Mas os sintomas podem começar mais de uma década antes e persistir por dez anos ou mais depois. Simplesmente esperar passar pode significar anos de noites mal dormidas e prejuízo no trabalho.
O que diz a nova diretriz
A terapia hormonal continua no topo, com recomendação forte. Estrogênio associado a um progestagênio, para proteger o útero de quem ainda o tem é o tratamento mais eficaz para o calorão e para o sono prejudicado por ele. Nos estudos, reduz a frequência dos fogachos em cerca de 57% em relação ao placebo. As versões aplicadas na pele, como adesivos e géis, aparecem entre as mais eficazes e, segundo estudos observacionais, parecem trazer menor risco de trombose do que os comprimidos.
A janela de tempo importa: a recomendação é iniciar antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a menopausa, quando o saldo entre benefícios e riscos é mais favorável. A decisão é compartilhada e considera histórico de câncer de mama, trombose, infarto, AVC e doenças do fígado que podem contraindicar o hormônio.
Hormônio: o medo que ficou maior que o risco
Boa parte do pavor da reposição vem de um grande estudo americano do início dos anos 2000, o WomensHealth Initiative. Os riscos existem, mas precisam ser vistos em números absolutos. Com estrogênio e progestagênio por cerca de cinco anos e meio, o risco de derrame subiu 39% o que representa 5 casos a mais a cada mil mulheres. O de trombose dobrou: 10 casos a mais por mil. O de câncer de mama subiu 27%: 5 casos a mais por mil. Detalhe crucial e relevante: dois terços das participantes tinham 60 anos ou mais. Entre 50 e 59 anos, o risco cardiovascular absoluto é muito baixo. Em 2025, a agência americana de medicamentos (FDA) retirou das bulas dos hormônios os alertas em destaque sobre doença cardiovascular, câncer de mama e demência.
Para quem não pode ou não quer hormônio
A grande novidade: a diretriz dá recomendação forte a uma nova classe de remédios, os antagonistas da neurocinina, que agem direto no termostato desregulado. O primeiro deles, o fezolinetanto, foi aprovado pela Anvisa em junho deste ano com o nome comercial Veoza. Em comparações indiretas, reduziu a frequência dos fogachos de forma semelhante à terapia hormonal, com efeito percebido já nos primeiros dias. Exige exames de fígado antes e durante os primeiros meses de uso, por causa de casos raros de lesão hepática. Um segundo, o elinzanetanto, que também melhora o sono, é aprovado nos Estados Unidos, mas ainda não no Brasil.
Alguns antidepressivos, como paroxetina, escitalopram e venlafaxina, também receberam recomendação forte, com a vantagem de ajudar no humor. A gabapentinafica como alternativa quando as demais opções falham. Terapia cognitivo-comportamental, acupuntura, meditação e exercício entram como apoio.
E o que não funciona? A diretriz aponta que soja, isoflavonas e fitoterápicos. Não há evidência de eficácia nem de segurança.
Perguntas para levar à consulta com o ginecologista
Calorão que atrapalha a vida merece consulta. Chegue preparada e familiares podem (e devem) dar esse empurrão:
Meus sintomas justificam tratamento?
Posso usar hormônio? Se não, por quê?
Adesivo ou gel seria melhor para mim do que comprimido?
Se hormônio não for opção, qual alternativa sem hormônio serve para o meu caso?
Quando vamos reavaliar o tratamento?
Se ouvir apenas é normal, vai passar, insista ou busque uma segunda opinião. Sofrer calada não faz parte do tratamento.
Fonte: veja.abril.com.br