O 'índice do salto alto' surgiu em 2011 a partir de uma análise de consumo da IBM e tenta relacionar tendências de calçados ao desempenho da economia
Saltos mais altos e chamativos ganham popularidade entre as consumidoras em períodos de crise econômica? A ideia aparentemente aleatória está no centro do chamado High Heel Index (índice do salto alto, em português), uma curiosa teoria criada em 2011 pelo então estrategista da IBM Trevor Davis. Especialista em produtos de consumo, Davis levantou a hipótese de que, diante de dificuldades financeiras, as mulheres tenderiam a apostar inicialmente em sapatos com saltos maiores, sendo a busca por glamour uma forma de escapismo. Se a recessão se prolongar, porém, a preferência poderia migrar para modelos mais discretos e confortáveis.
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Embora seja uma maneira inusitada de observar a relação entre moda, consumo e comportamento, o High Heel Index não é considerado um indicador econômico oficial nem tem comprovação científica. Na época, a IBM divulgou um estudo baseado no monitoramento de bilhões de publicações em redes sociais e outras fontes digitais para identificar mudanças nas preferências dos consumidores.
Uma década mais tarde, em 2021, Davis tornou a falar sobre o indicador ao The Guardian. Segundo ele, a equipe identificava menções a alturas específicas de saltos ou expressões que pudessem ser associadas a determinadas medidas e cruzava os dados com indicadores de desempenho econômico. Concluíram que, quando a economia começava a piorar, os saltos tendiam a subir inicialmente. Em recessões mais longas, entretanto, a tendência se invertia. A análise apontou, na época, uma tendência de queda na altura dos saltos, interpretada como possível sinal de um período prolongado de austeridade.
A teoria conversa com outra bastante conhecida no universo da moda: o Hemline Index, ou índice da barra da saia. Atribuída ao economista George Taylor, na década de 1920, a ideia sustenta que as saias tendem a ficar mais curtas em períodos de prosperidade e mais compridas em momentos de crise. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Erasmus de Roterdã, na Holanda, analisou registros de moda publicados entre 1921 e 2009 e não encontrou evidências de uma relação consistente que permitisse usar o comprimento das saias como indicador econômico.
A associação entre glamour e escapismo em tempos difíceis também encontra ecos nos anos 1930: durante a Grande Depressão, calçados usados em ocasiões especiais incorporavam referências geométricas do Art Déco, recortes elaborados e novos materiais. A estética difundida pelo cinema de Hollywood ajudava a alimentar o desejo por sofisticação em meio às dificuldades cotidianas.
Como se sabe, a moda é cíclica: tendências vêm e vão e, embora muitas vezes reflitam o contexto sociopolítico e os comportamentos de cada época, nem sempre são facilmente explicáveis. Na era das redes sociais, com a circulação acelerada de conteúdos e a influência cada vez maior dos criadores digitais sobre a publicidade e os hábitos de consumo, identificar as razões por trás da popularidade de determinado item ou estilo tornou-se ainda mais complexo.
Ao mesmo tempo, as trends modernas sugerem uma narrativa diferente do High Heel Index: com a ascensão do trabalho remoto no pós-pandemia e uma maior valorização da saúde e do conforto, calçados baixos como sapatilhas, mocassins, chinelos e saltos baixos do tipo kitten heels ganharam protagonismo. Fato é, porém, que sapatos extravagantes estão de volta às passarelas e aos tapetes vermelhos em 2026 e já conquistam adeptos também fora desse circuito, como mostrou uma reportagem recente de VEJA. São modelos inusitados, como o sapato sem sola da Chanel usado pela atriz Margaret Qualley em uma première, que desafiam as convenções e transformam o calçado em um astro inescapável da moda atual.
Fonte: veja.abril.com.br