Depois de desmontar apostas na vitória de Flávio, bancos e gestoras projetam juros elevados, investimento estagnado e crescimento inferior a 1% em 2027
A Faria Lima parece não encontrar limites para o pessimismo desde a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de semanas apostando na vitória de Flávio Bolsonaro e em um cenário de valorização da bolsa, queda do dólar e redução dos juros, bancos e gestores passaram a desenhar um futuro bastante diferente para a economia brasileira. Nas projeções mais pessimistas, o investimento produtivo pode praticamente estagnar em 2027, a inflação voltar a superar 5% e o crescimento econômico ficar abaixo de 1%.
A guinada começou pelas carteiras de investimentos. O Citigroup abandonou suas posições otimistas em ações brasileiras e encerrou a aposta na valorização do real. A BCA Research rebaixou as recomendações para ações e títulos brasileiros. O Morgan Stanley trabalha com a possibilidade de perdas de 20% a 30% nas ações, enquanto o BTG Pactual projetou uma queda de 17% do Ibovespa em relação ao patamar anterior à eleição. O receio comum é que a continuidade das incertezas fiscais mantenha os juros elevados por mais tempo.
Mas o pessimismo já começa a ultrapassar as mesas de operações. André Matos, CEO da MA7 Capital, estima que o investimento em máquinas, equipamentos e construção possa crescer entre zero e 1% em 2027, caso o dólar e os juros permaneçam nos níveis registrados nesta semana. A inflação também sofreria os efeitos da desvalorização cambial. É o pior cenário possível: economia fraca e inflação alta ao mesmo tempo, afirma o executivo, que considera possível um crescimento do PIB inferior a 1% no ano que vem.
André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital, também enxerga um quadro difícil. Em suas simulações, a persistência dos juros elevados pode reduzir o crescimento do investimento privado entre dois e quatro pontos percentuais em relação a um cenário de estabilidade, retirando de 0,3 a 0,6 ponto percentual da expansão do PIB. A desvalorização do real, por sua vez, poderia acrescentar de 0,3 a 0,7 ponto à inflação acumulada até 2028.
O ambiente de cautela alcança também os investimentos em startups. Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest, chama atenção para a distância entre as perspectivas de crescimento do Brasil e do restante do mundo. Enquanto o FMI projeta expansão global de 3,4% em 2027, a previsão brasileira no Focus anterior à eleição era de apenas 1,31%. A capacidade de produzir mais com os recursos disponíveis será decisiva para sustentar o crescimento brasileiro, afirma Patrus. No venture capital, diz ele, a prioridade deve ser encontrar empresas capazes de entregar eficiência mensurável e crescer com disciplina de capital. Já Letícia Moschioni, sócia da Finscale, chama atenção para a necessidade de preservar o caixa das companhias. Em uma simulação, uma empresa com faturamento anual de 100 milhões de reais poderia liberar 2,74 milhões de reais em capital de giro simplesmente reduzindo em dez dias o prazo médio de recebimento de suas vendas.
A mudança de perspectiva é ainda mais expressiva quando comparada às expectativas que prevaleciam antes das urnas. Em carta publicada em outubro, a Genoa Capital considerava a vitória de Flávio Bolsonaro seu cenário amplamente majoritário e trabalhava com a possibilidade de inflação entre 4% e 4,5% em 2027, além de Selic próxima de 11% no encerramento do ano. Essas estimativas estavam associadas à expectativa de valorização do real e melhora da política fiscal.
Nem todo o pessimismo, contudo, nasceu com a eleição. A Kinea já projetava, no início de outubro, crescimento de apenas 1% para o PIB de 2027, inflação de 4,7% e Selic de 12,5%. O que mudou desde domingo foi a intensidade da reprecificação dos riscos. A duração da turbulência, reconhecem os próprios gestores, dependerá principalmente das medidas fiscais e da composição da equipe econômica. Por enquanto, a Faria Lima já substituiu parte das apostas otimistas por cenários de crise antes mesmo de conhecer os próximos passos do governo.
Fonte: veja.abril.com.br