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Por que reduzir a maioridade penal não é uma boa ideia

Adolescentes são responsáveis por menos de 1% dos crimes cometidos no Brasil. Também reincidem menos que adultos no sistema prisional

De tempos em tempos, a redução da maioridade penal aparece como solução mágica para a violência no Brasil. Já escrevi sobre isso aqui na coluna e fiquei surpresa com a reação do público. A maioria dos leitores que se manifestou se mostrou favorável à medida não porque vá reduzir a criminalidade, mas por acreditar que essa é a forma de punir os adolescentes.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Brasil é um dos países que responsabiliza os adolescentes mais cedo, desde os 12 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê medidas socioeducativas, inclusive internação, com privação de liberdade. A internação pode alcançar três anos, com reavaliações periódicas e liberação compulsória aos 21 anos. Ou seja, ao contrário do que muitos imaginam, o adolescente já recebe punição, hoje, sim. A diferença é que no Sistema Socioeducativo eles não ficam junto com criminosos adultos e o foco é formação, educação e ressocialização.

ADOLESCENTES APRENDEM E MUDAM COM MAIS FACILIDADE

Adolescentes ainda não têm um cérebro plenamente desenvolvido, capaz de tomar decisões como adultos. Por isso, aprendem e mudam com mais facilidade. Segundo documento do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime no Brasil (UNODC), em parceria com o Unicef, essa plasticidade do cérebro pode ser aproveitada para apoiar processos de recuperação.

Além de ser o que se chama de uma escola do crime organizado, o sistema prisional brasileiro não tem produzido cidadãos e cidadãs melhores depois do sistema, diz, em entrevista à coluna, Lucas José Ramos Lopes, secretário executivo da Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes. O aumento da população carcerária não tem produzido redução dos crimes no Brasil. Então, por que que funcionaria com adolescentes?, questiona.

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Os dados mostram que adolescentes no Sistema Socioeducativo reincidem menos que adultos no sistema prisional. Entre os adultos, 4 em cada 10 voltam a praticar crimes, enquanto apenas 2 a cada 10 adolescentes que cometeram atos infracionais voltam ao sistema socioeducativo.

Paulo Afonso Garrido de Paula, procurador de Justiça e um dos redatores do ECA, define a proposta de redução como um atentado civilizatório. Afronta uma cláusula pétrea da Constituição Federal, tenta colocar no sistema prisional adolescentes que podem reverter o seu comportamento através do Sistema Socioeducativo e permite a convivência de adolescentes com criminosos de facções, diz o especialista à coluna.

É bom lembrar que facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) não nasceram nas ruas, mas sim dentro dos presídios. A redução da maioridade penal é boa para a economia do crime. Nos presídios, o adolescente é qualificado para o crime. Favorece uma situação de aprendiz da criminalidade, acrescenta o secretário executivo da Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes.

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ADULTOS SÃO OS PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS PELA VIOLÊNCIA

É falsa a impressão de que adolescentes são os principais responsáveis pela violência no país. Segundo o Instituto Sou da Paz, eles respondem por menos de 1% dos crimes cometidos no Brasil e por 0,5% dos homicídios e tentativas de homicídio.

Com 964.668 pessoas encarceradas, segundo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o sistema prisional brasileiro é o terceiro maior do mundo. E os números não param de crescer. De 2024 para 2025, houve um aumento de 5,6% no número de presos. Resultado: superlotação e déficit de quase 300 mil vagas, o equivalente a uma cidade como Guarujá (SP), Juazeiro (CE) ou Foz do Iguaçu (PR).

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Já o número de adolescentes privados de liberdade caiu mais da metade desde 2016, passando de 26,8 mil, em 2015, para 12,2, em 2025. Uma evidência de que a reincidência pelo socioeducativo é menor, avalia Lucas Lopes. Para Garrido de Paula, a redução da maioridade penal também aniquilaria os investimentos nesse sistema, um organismo próprio e especializado.

Roubo (29,1%) e tráfico de drogas (27,9%) são os atos infracionais mais cometidos por adolescentes. No caso do tráfico de drogas, o adolescente é vítima do crime organizado e do trabalho infantil, alerta o secretário executivo da Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes, que critica a ausência de propostas para enfrentar o aliciamento dos jovens pelas organizações criminosas e o não reconhecimento por parte do sistema judiciário do tráfico como uma das piores formas de trabalho infantil. Precisamos construir no Brasil uma agenda de prevenção e resposta ao aliciamento de crianças e adolescentes pelo crime organizado, avalia.

Em nota pública, em defesa das políticas de prevenção e erradicação do trabalho infantil, o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI) também se opôs à redução da maioridade penal. Investir no encarceramento em detrimento da educação, da prevenção da violência e da proteção social aprofunda as desigualdades, sobretudo para adolescentes negros e moradores de periferias, diz a nota.

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Hoje, 73,8% dos adolescentes que estão no Sistema Socioeducativo são negros e a imensa maioria deles vive em situação de vulnerabilidade social, é pobre e tem baixa escolaridade. Não estamos falando de qualquer adolescente. É uma população preta e parda. Uma proposta que tem mascarada uma origem racista, analisa Lucas Lopes.

ADOLESCENTES SÃO MAIS VÍTIMAS DO QUE AUTORES DE VIOLÊNCIA

Punir adolescente como adulto não é solução para diminuir a violência. Longe disso. Pode inclusive agravá-la. Em vez da redução da idade de responsabilidade penal, pode-se adotar, por exemplo, um aumento do tempo de internação nas infrações de extrema gravidade, sugere Garrido de Paula. Precisamos qualificar o debate sobre violência no Brasil, acrescenta Lucas Lopes.

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Segundo as evidências, menos armas circulando, repressão qualificada do crime, a partir de investigação e inteligência policial, investimento em áreas marginalizadas e em políticas sociais são fundamentais, assim como a implementação de um Sistema Único de Segurança Pública, como aconteceu na saúde, com responsabilidades, orçamentos e organização do sistema.

Contrariando a percepção da população, os adolescentes são hoje mais vítimas da violência do que autores. Entre 2021 e 2023, foram registradas 15.101 mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes de até 19 anos. Do total de vítimas, 91,6% têm entre 15 e 19 anos. Os dados são do último relatório publicado pelo Unicef sobre violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil. Este, sim, um número escandaloso que deveria indignar a todos e demandar ações e investimentos urgentes em proteção.

*Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.

 

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Fonte: veja.abril.com.br

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