Aos 76 anos, atriz é a convidada do programa semanal da coluna GENTE
Em apresentações especiais no Teatro Fashion Mall, no Rio, com o musical Charles Aznavour Um Romance Inventado, Sylvia Bandeira, 76 anos, construiu uma trajetória marcada pela elegância nos palcos e na televisão brasileira. Na TV Globo, ganhou destaque como protagonista da novela Um Sonho a Mais (1985), e participou de produções como Roda de Fogo, Bebê a Bordo e Lua Cheia de Amor. Também marcou presença em novelas como Zazá e Suave Veneno, além de conquistar o público na Record com trabalhos como o remake de A Escrava Isaura. No cinema, sua atuação como Cotinha em Bar Esperança, o Último que Fecha (1983), de Hugo Carvana, rendeu-lhe o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Gramado. No teatro, momento expressivo foi sua interpretação da lendária atriz Marlene Dietrich, reafirmando carreira que atravessa diferentes linguagens artísticas. Convidada do programa semanal da coluna GENTE (disponível no canal VEJA+ no Youtube, no streaming da TV Samsung Plus, LG, TCL e Roku), Sylvia fala das voltas ao mundo com o pai diplomata, comenta sobre os aprendizados na carreira, por que não gosta de falar de etarismo e recorda de episódios de assédio sofridos ainda jovem.
(A coluna GENTE também está no Instagram. Siga o perfil @veja.gente)
AMOR NOS PALCOS. Fiquei pensando como vários cantores já tiveram contadas suas histórias e ninguém nunca falou do Charles Nabor, que esteve no mundo inteiro, inclusive no Brasil e que eu conheci no Rio de Janeiro. Tem músicas espetaculares, que todo mundo conhece. Quem assiste à peça sai assim: ali teve, né?. Porque eu saí numa capa de revista com ele e fui encontrá-lo algum tempo depois no avião. Aquela menina jovem que eu era, quando o vi, achei que lembrava que tinha passado uma noite conversando comigo. Aí fiz assim: bonjour Charles e ele olhou para mim e disse bonjour. Nada mais.
LIDANDO COM A FAMA. Durante muito tempo até hoje, dependendo da forma como a pessoa me cumprimenta, digo: Será que conheço? Ou é algum fã?. Sou sempre simpática, porque acho que nessa profissão é imperdoável o ator que se sinta (além do que é). Uma hora você está lá em cima, outra hora não. E não cumprimentar com o devido respeito e o reconhecimento que essa pessoa, às vezes, simples, vem encantada te dizer algo, é um horror. A gentileza é fundamental.
SUSTO COM STALKER. Já tive por causa de uma novela e, por incrível que pareça, não foi nem homem. Sem nenhum preconceito uma fanática começou a saber todos os lugares onde eu andava, foi uma coisa bem assustadora, porque minha caçula era bebê. Era (novela) Um sonho a mais. Foi a primeira novela em que eu era a protagonista. E aí teve uma moça, que quebrava todos os meus galhos, que chamou alguém para dar um susto nela para parar de me seguir. Porque eu várias vezes, sendo simpática, disse assim: não sou essa pessoa que você imagina, não tem nada a ver com as personagens, sou uma peste. Mas não adiantava.
ETARISMO. Não quero entrar nessa do etarismo, porque escutei muitas colegas, aliás, mulheres que acho jovens, dizerem ai, não sou mais chamada, já estou com 50 anos. Trabalho você sempre vai encontrar. Se a televisão vai te chamar ou não, há sempre trabalhos e personagens a fazer, independentemente da idade. Não dá para ficar se desculpando. Continuo fazendo teatro, fiz um filme esse ano no qual sou protagonista Uma intimidade estranha, do Marcos Oliveira. Não tenho parado, tenho sempre planos de fazer outras coisas, peças que me estimulem.
DECEPÇÃO PROFISSIONAL. Em Selva de Pedra, fui convidada pelo Walter Avancini para fazer um papel. E era um puta papel, muito importante. O que é que acontece? Estava nervosa, era ele me dirigindo, mas eu estava bem. E fazia amante. Em algum momento, Daniel Filho me chama e diz: não vamos poder continuar com você. Você não tem a vulgaridade que a personagem precisa. Aí virei e pensei: acabei de ganhar um Kikito de melhor atriz coadjuvante com Bar Esperança em que faço um strip-tease completo. Aí ele: preciso de alguém que nem Maria Zilda. Ela vai fazer esse papel. Descobri depois que foi uma guerra de poder entre o Daniel e o Walter, que não estaria para me acompanhar nas cenas. O que aprendi com isso? Que talvez não estivesse preparada para ser mais o que eu sou hoje como atriz. Não tinha essa experiência.
CASAMENTO COM JÔ SOARES. Jô foi super importante pelo lado do humor, pelo momento em que eu estava, pelo lado de cumplicidade, havia uma bela cumplicidade entre a gente, foi importante ver o preconceito em todos os sentidos, né? E ele ensinou que aquela gordura que as pessoas apontavam não tinha a menor importância. Isso para mim, numa família que tinha, sobretudo do meu lado paterno, tias e avó rígidas a seguir um certo padrão de magreza, ele arrebentou, quebrou com isso. Foi um cara mega importante. Foi uma relação que não durou, porque eu queria outros caminhos na minha vida e era jovem.
ASSÉDIO NA TV. Eu tinha um lado ingênuo, sim. Tentava achar que podia não ser aquilo que estava acontecendo, mas tinha uma hora que não tinha como. Era simplesmente mostrar que não é não. Tentava passar por cima daquela situação, me enganar que talvez a pessoa tivesse apenas sendo simpática, mas não estava sendo simpática. Era assédio. Tipo, convidando (para sair) de uma forma que não era legal e que não teria porquê convidar, entende? O convite de trabalhos que também não foram o que eram para ser… Estou falando muito jovem, aí demorava um pouco para perceber que aquilo era situação errada. Acho que esse movimento hoje cada vez é mais difícil isso acontecer, porque a mulher está mais consciente. Se isso aconteceu na Globo? Também. Não me machucou, mas se você quiser, me prejudicou. Porque não topar às vezes é uma coisa que prejudica algumas mulheres, ainda mais se é uma sedução que quis ser outra coisa.
Captação de imagens e edição: Leo Lemos / Sobre o programa semanal da coluna GENTE. Quando: vai ao ar toda segunda-feira. Onde assistir: No canal da VEJA+ no Youtube; Samsung TV Plus (canal 2075), LG Channels (canal 126), TCL Channel (canal 10031) e Roku (canal 221).
Fonte: veja.abril.com.br