
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito para um quarto mandato após reverter a desvantagem do primeiro turno e superar o favoritismo de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo. Para analisar os fatores que definiram a disputa, o Jornal da CBN reuniu os comentaristas Vera Magalhães, Malu Gaspar e Lauro Jardim, em conversa mediada pelos âncoras Mílton Jung e Cássia Godoy. Após derrota, Flávio Bolsonaro aposta em contestação O ministro do STF, Cristiano Zanin, determinou a extensão da votação até as 19h em todo o país. Apesar da medida, dados do TSE compilados pelo g1 mostram que 35.521 votos foram registrados após as 17h, número inferior à vantagem de cerca de 4,4 milhões de votos de Lula. Mesmo assim, Flávio Bolsonaro contestou o desfecho da disputa. Para Malu, os números demonstram que os votos registrados após o horário regular não seriam suficientes para alterar o resultado. A comentarista, no entanto, criticou a atuação da Justiça Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal (STF). "Isso significa que o Flávio Bolsonaro tem razão? Não, ele não tem razão, mas essa atuação atabalhoada e desastrada, primeiro do TSE, depois do Zanin, vai dar um certo combustível para a oposição passar os próximos dias causando esse tipo de conflito." Segundo Vera, a eleição foi resultado de uma combinação entre a força eleitoral de Lula e o voto contrário ao projeto político representado por Flávio Bolsonaro. "O discurso do senador Flávio Bolsonaro, ali, depois da derrota, é um discurso patético e um discurso com viés golpista, que joga por terra qualquer tentativa marqueteira de mostrá-lo como Bolsonaro moderado ao longo da campanha. Uma máscara que, aliás, foi caindo no segundo turno e que, ao meu ver, ajuda a explicar o resultado da eleição, que é um misto de vitória do Lula com uma reação ao bolsonarismo. Houve um voto, ali, do antibolsonarismo de chegada." Lauro também considerou que a iniciativa de Flávio de contestar o resultado teria caráter predominantemente político. Para o comentarista, a medida serviria para justificar a derrota e manter mobilizada parte da base bolsonarista. "É um recurso político, com zero chance de ser aceito ou de ir em frente. A eleição não tem o menor sentido de ser anulada. De novo: a campanha do Flávio precisa justificar, de alguma maneira, a derrota. Vai agarrar isso como uma oportunidade para manter algum tipo de mobilização dos bolsonaristas." Mobilização digital e engajamento nas ruas Malu Gaspar ressalta a mudança no comportamento do eleitorado entre o primeiro e o segundo turno, com maior engajamento nas ruas e nas redes sociais. "A gente tem que reconhecer que a mobilização digital da campanha do Lula fez diferença, primeiro, para manter a militância na rua, para botar um gás nessa militância, que ficou mobilizada direto, mesmo apesar dos prognósticos dos institutos de pesquisa." Lauro Jardim, por sua vez, avaliou que a mobilização representou uma retomada da presença da esquerda nas ruas, especialmente entre os jovens, mas lembrou que esse apoio também trará cobranças ao presidente reeleito. "Isso tem um preço, isso tem um custo para o Lula. As cobranças vão começar cedo para ele, as cobranças também dos jovens, porque ele deve muito a esses jovens que balançaram as ruas. Mas esses jovens vão cobrar do Lula." Desafios do novo mandato Malu Gaspar avaliou que Lula terá de equilibrar a pressão por uma agenda mais à esquerda com a necessidade de ajuste fiscal e de apoio no Congresso, de maioria direitista. O presidente também precisará reconstruir sua base parlamentar diante do enfraquecimento do Centrão e das pressões sobre o STF. "Eu estou curiosa para saber como é que o presidente Lula vai equilibrar isso, porque ele precisa fazer uma guinada para a moderação, e ele precisa construir uma nova base, que não está muito fácil de ver como ele vai fazer isso à primeira vista." Para Lauro, o presidente terá de sinalizar quais medidas pretende adotar para equilibrar as contas públicas. O mercado financeiro espera medidas de contenção de gastos, enquanto setores da esquerda cobram o aprofundamento de reformas sociais. "O mercado financeiro quer uma mudança para que o Lula seja mais, na visão deles, mais responsável fiscalmente, que faça cortes. Essa é a mudança que o mercado financeiro quer. Já a mudança, por exemplo, que os jovens querem, ou que segmentos mais à esquerda desejam, é um outro tipo de mudança: é que ele aprofunde algumas reformas que são mais à esquerda." Vera ressaltou que Lula precisará rever propostas de campanha diante da nova composição política e das dificuldades para construir alianças no Congresso. Entre os desafios também estão a definição da equipe ministerial e a escolha de um novo ministro para o STF. A comentarista também apontou disputas internas no PT por cargos estratégicos. "Primeiro, tem que fazer as medidas anunciadas na eleição caberem no orçamento do ano que vem. Eu acho que o mais urgente é isso. Tem muita coisa que foi anunciada, muita coisa que a gente nem sabe se vai ter realmente continuidade." O futuro da direita e do bolsonarismo Para Vera Magalhães, a derrota de Flávio Bolsonaro impõe à direita o desafio de se distanciar do bolsonarismo e de pautas antidemocráticas. "Acho que o Brasil deixou claro que está muito à direita, tem um eleitorado à direita, mas que precisa entender que a democracia é um bem acima de tudo e que, portanto, precisa se descolar de ideias que têm tendência golpista, viés, ali, antidemocrático." Lauro Jardim destacou que Flávio Bolsonaro perderá a imunidade parlamentar a partir de 2027, quando ficará sem mandato, em um momento em que é investigado em dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal. O comentarista também apontou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como uma figura importante para o futuro da direita. "Flávio Bolsonaro vai ficar, pela primeira vez, sem mandato desde 2003, quando virou deputado estadual no Rio de Janeiro. Portanto, ele vai perder a imunidade parlamentar justamente no momento em que, no Supremo, correm dois inquéritos em que é investigado. " Ouça a análise completa dos comentaristas:
Fonte: cbn.globo.com