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A disputa para prefeita de Los Angeles nas Olimpíadas de 2028

Disputa entre a atual prefeita Karen Bass e a vereadora socialista Nithya Raman põe à prova o establishment democrata

Todos os olhos do mundo estão atentos às eleições que definirão quem vai ter maioria na Câmara e no Senado dos Estados Unidos, mas os eleitores de Los Angeles têm uma decisão mais urgente para fazer nesta terça-feira, 3 de novembro. Eles vão às urnas escolher quem será o novo prefeito, o que significa ungir a pessoa que vai comandar a cidade na preparação e durante as Olimpíadas de 2028.

A disputa acontece entre duas candidatas do mesmo partido, os Democratas. De um lado está a atual prefeita Karen Bass, de 73 anos, primeira mulher a comandar a segunda maior cidade dos Estados Unidos e preferida da cúpula do partido. Do outro, a vereadora Nithya Raman, de 45, filiada aos Socialistas Democráticos da América (DSA), que foi aliada de Bass até decidir enfrentá-la, horas antes do fim do prazo de inscrição.

As pesquisas mostram uma briga apertadíssima. A consulta mais recente, feita pela Universidade da Califórnia em Berkeley em parceria com o jornal Los Angeles Times, mostra 40% das intenções de voto para cada uma, e um grupo de 19% de indecisos.

Para a vencedora, a vitrine das Olimpíadas é uma faca de dois gumes. Todo prefeito gosta de visibilidade, mas a preparação para o evento está com obras atrasadas, orçamento estourado e o presidente Trump se recusa a liberar os recursos federais acordados por seu antecessor, o ex-presidente Biden.

As candidatas

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Karen Bass nasceu no sul de Los Angeles em 1953, fez campanha para Robert Kennedy aos 14 anos e fundou, em 1990, uma ONG para combater a epidemia de crack nos bairros negros. Comandou a Assembleia da Califórnia durante a crise de 2008, foi deputada federal por seis mandatos, presidiu a bancada negra do Congresso e esteve na lista de cotadas para vice de Joe Biden em 2020. Elegeu-se prefeita em 2022, derrotando o bilionário Rick Caruso. Seu mandato foi marcado pelo incêndio de Palisades, em janeiro de 2025, que começou quando ela estava em viagem oficial a Gana. Somado ao incêndio de Eaton, na vizinha Altadena, o desastre deixou ao menos 30 mortos e milhares de desabrigados. Bass defende o próprio governo citando a queda no número de moradores de rua e de homicídios. Ao Los Angeles Times, disse que, ganhe ou perca, esta será sua última eleição.

Mulher de pele morena e cabelos escuros, vestindo blazer verde, discursa em púlpito de madeira com microfone. Ao lado, placa de campanha amarela com NITHYA For LA MAYOR e uma placa de trânsito branca com seta curva para a direita e a palavra ONLY. Céu azul claro com nuvens e postes de energia ao fundo
Nithya Raman faz campanha em Palisades, área devastada por incêndios em 2025Justin Sullivan/Getty Images

Nithya Raman nasceu em Kerala, na Índia, em 1981, e chegou aos Estados Unidos aos 6 anos. Depois de se formar em Harvard, trabalhou com moradores de favelas em Nova Délhi e Chennai e estudou urbanismo antes de se mudar para Los Angeles, em 2013. Em 2020, tornou-se a primeira candidata apoiada pelo DSA (Socialistas Democráticos da América, na sigla em inglês) a conquistar uma cadeira na Câmara Municipal de Los Angeles, derrotando um vereador no cargo. Reeleita em 2024, construiu sua campanha em torno da crise de moradia, e promete trocar a liderança da polícia.

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A diferença de trajetórias virou munição na campanha. A equipe de Bass explora o fato de Raman morar em Los Angeles há apenas 13 anos. Se você quer comandar a cidade, deveria conhecer os momentos mais importantes da história de L.A., disse a prefeita ao Los Angeles Times. Raman responde que Los Angeles foi construída por gente que, como ela, chegou de fora em busca de uma vida melhor.

No primeiro turno, em junho, Bass teve 34,3% dos votos, Raman 29% e o ex-astro de reality show Spencer Pratt, republicano que perdeu a casa no incêndio de Palisades, 25,5%. Desde então, Raman chegou a abrir 11 pontos em setembro, mas Bass recuperou terreno e as duas aparecem empatadas.

O apoio de cada uma diz muito. Bass tem ao seu lado Kamala Harris, o governador Gavin Newsom, Nancy Pelosi, os dois senadores do estado, a federação sindical do condado, o sindicato dos policiais e a Câmara de Comércio. Raman é apoiada pelo DSA de Los Angeles, e por diversos sindicatos.

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Establishment contra socialistas

A eleição é vista em todo o país como mais um capítulo da briga interna do Partido Democrata. Em 2025, Zohran Mamdani, também filiado ao DSA, venceu a prefeitura de Nova York surfando na frustração com o custo de vida e com a cúpula do partido. Neste ano, as primárias democratas repetiram o roteiro em vários estados, com candidatos do establishment desafiados por nomes mais à esquerda dentro do partido. Se Raman vencer, será celebrada como a Mamdani da Costa Oeste, e as duas maiores cidades americanas passarão a ser governadas por filiados ao DSA.

No caso de Los Angeles, porém, a divisão é menos ideológica do que parece. Bass não é uma centrista, iniciou sua carreira política na militância comunitária e sempre esteve na ala mais progressista dos Democratas. O que a separa de Raman é sobretudo a posição de cada uma na estrutura do partido. Bass é a candidata da máquina, apoiada por praticamente toda a liderança democrata da Califórnia.

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Raman se apresenta como a candidata da mudança, apesar de ter sido da base de Bass na Câmara dos Vereadores até poucos meses atrás. Sua relação com os socialistas também é ambígua. O DSA de Los Angeles a censurou em 2024 por aceitar o apoio de um grupo democrata pró-Israel e não a apoiou no primeiro turno. A chancela só veio em setembro, mas com ressalvas devido a sua recusa em defender um boicote a Israel. Raman também se afastou da organização em temas de segurança pública, ao votar pelo aumento do orçamento da polícia. O site da campanha não menciona o socialismo, e, pressionada numa entrevista à CNN, Raman se definiu como capitalista e também socialista democrática.

Para a cúpula democrata, uma derrota de Bass seria mais um sinal de que o eleitorado do partido quer renovação, a dois anos da corrida presidencial de 2028. Para o DSA, uma vitória de Raman seria a prova de que o movimento sabe ganhar fora de Nova York, ainda que com uma candidata que mantém distância do rótulo.

A prefeita das Olimpíadas

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Los Angeles vai sediar os Jogos pela terceira vez, de 14 a 30 de julho de 2028. Em 1984, a cidade foi a primeira a organizar os Jogos com financiamento majoritariamente privado, e ainda fechar com lucro. A promessa do comitê organizador era repetir o feito.

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Estádio Olímpico de Los Angeles, legado de 1984Honda/Divulgação

O problema é que a organização está com problemas. Os atrasos se acumulam. O acordo que define quanto o comitê LA28 vai reembolsar a prefeitura por serviços como policiamento, trânsito e limpeza deveria estar pronto em outubro de 2025 e só foi aprovado pela Câmara Municipal em agosto deste ano. Os valores detalhados, local por local, só devem ser fechados em outubro de 2027. No transporte, o programa 28 by 28, que prometia 28 obras de metrô, ônibus e vias até os Jogos, tinha só 11 concluídas em junho. A prefeitura pediu ao Legislativo estadual 379 milhões de dólares para projetos de transporte e recebeu cerca de 20 milhões.

O governo federal tampouco ajuda. Depois de muita pressão para cumprir com o acordado quando da candidatura de Los Angeles a sediar os Jogos, Trump criou em 2025 uma força-tarefa da Casa Branca, presidida por ele mesmo, e a lei orçamentária aprovada naquele ano reservou 1 bilhão de dólares para segurança e planejamento. Mas não está claro quanto desse dinheiro chegará à prefeitura, nem quando. Até agora, nada. Trump também prometeu enviar recursos para obras de reconstrução de infraestrutura da cidade após os incêndios, mas não fez nada a respeito. Trump já disse também que fará o que for necessário para garantir a segurança dos Jogos, inclusive usar a Guarda Nacional ou os militares. Trump mandou a Guarda Nacional para Los Angeles em 2025, para operações contra imigrantes, a população se mostrou largamente contrária à medida.

As duas candidatas enxergam os Jogos de forma oposta. Bass é entusiasta e os trata como a chance de deixar um legado de transporte e oportunidades. Raman sempre disse que preferia não receber os Jogos na cidade, durante seu mandato de vereadora. Hoje, reconhece que precisa cumprir os compromissos, mas promete nomear um executivo financeiro para vigiar os custos nos primeiros 100 dias e fazer uma auditoria completa dos gastos do LA28. Há ainda um incômodo que a vencedora vai herdar. O presidente do LA28, Casey Wasserman, continua no cargo apesar dos pedidos de renúncia, inclusive de Bass, depois que seu nome apareceu nos arquivos do caso Epstein.

Para a vencedora, os Jogos podem ser a vitrine de um mandato ou a conta que ninguém quer pagar. Em 1984, o prefeito Tom Bradley saiu consagrado. Desta vez, quem assumir em dezembro terá menos de dois anos para entregar obras atrasadas com dinheiro que ainda não tem.

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Fonte: veja.abril.com.br

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