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A melhor ginástica para o cérebro

Escritora lança manifesto que desnuda o que só a leitura é capaz de fazer por nós

É o prazer solitário por excelência. É o passaporte para outros tempos, mundos e sonhos. É o manancial mais perene do conhecimento. É uma ginástica cerebral. Ou, como diz Irene Vallejo, é “um Big Bang luminoso no santuário das nossas mentes.”

Ler é tudo isso – e mais um tanto. E, numa era em que os livros perderam espaço com a onipresença das telas, a escritora espanhola parte para uma defesa racional e apaixonada desses “escudos da memória”, “aliados da concentração” e remédios que contribuem para a “cura de traumas”.

Manifesto pela Leitura, recém-publicado pela editora Dublinense, é uma curta, intensa e tocante oração em prol dessa arte que nos acompanha há alguns milênios. E que segue única – única em sua forma de ativar os neurônios, única em sua forma de salvar nossa espécie.

Capa de livro vermelha com título MANIFESTO PELA LEITURA e nome da autora IRENE VALLEJO em preto. No centro, uma imagem em preto e branco de um livro aberto com duas mãos virando uma página
Manifesto pela Leitura, de Irene Vallejo, tradução de Julia Dantas, Editora Dublinense, 80 páginasCapa: Dublinense/Reprodução
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Com a palavra, Irene Vallejo.

O que só os livros têm a nos oferecer? Desde os seus primórdios, o livro tem sido um escudo da memória. Tudo seria devorado pelo esquecimento, mais cedo ou mais tarde, se não construíssemos diques contra essa maré voraz. Talvez os diques mais resilientes tenham sido os próprios livros, por mais frágeis que sejam. Sem eles, ficaríamos órfãos das palavras que nos definem e dos caminhos para a democratização do conhecimento. Nos livros, nossas melhores ideias, as memórias do passado, as rebeldias de nossos ancestrais, sua criatividade e a marca da beleza viajaram através do espaço e do tempo: são uma herança preciosa.

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Qual é o maior inimigo dos livros hoje? Desde o princípio, eles têm inimigos: a censura, o elitismo e a indiferença. Com um livro em mãos, dominamos o tempo, internalizando o que queremos assimilar e não o que nos é imposto como publicidade ou propaganda. Nesta era acelerada, os livros emergem como aliados para recuperar a concentração, a reflexão serena e o pensamento independente. Portanto, a leitura pode ser um ato de resistência em uma época vigiada e invadida por flashes nervosos que nos atordoam.

Em seu manifesto pela leitura, você sublinha que ler é uma ginástica para a saúde mental. Por quê? Ler é uma forma de autocuidado. Um estudo de 2009, realizado por pesquisadores da Universidade de Sussex, na Inglaterra, revelou que ler por apenas seis minutos antes de dormir reduz o estresse em até 68%, de forma mais eficaz do que a maioria das outras atividades. Ler também estimula a criatividade e a imaginação, dando asas às áreas do cérebro onde se encontra o “freio da ansiedade” a área que desativa a resposta de emergência. Além disso, neurologistas estão descobrindo que a leitura está entre os melhores exercícios possíveis para manter o cérebro e as habilidades mentais em forma. Eles a recomendam para a reabilitação do comprometimento cognitivo e como estratégia preventiva contra o Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas.

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E é uma atividade acessível, além de tudo, não? Os livros oferecem uma academia acessível e barata para a inteligência em todas as idades e, só por isso, seria aconselhável incluí-los na educação desde a primeira infância e mantê-los ao longo da vida. A leitura é a ebulição dos nossos neurônios, um Big Bang luminoso no santuário das nossas mentes. Investimentos públicos em bibliotecas e programas de educação infantil, concebidos para fomentar o amor pelo aprendizado ao longo da vida, contribuem para a saúde mental e reduzem a incidência de demência na população.

Ler também tem efeitos terapêuticos? A leitura pode contribuir inclusive para a cura de traumas. A antropóloga Michèle Petit analisou como ela pode nos ajudar a enfrentar desafios coletivos. A leitura tem sido uma ferramenta valiosa para a reconstrução em diferentes regiões do mundo devastadas pela violência, crises econômicas terríveis, êxodos populacionais ou desastres naturais. Petit estudou inúmeras iniciativas em prisões, em bairros problemáticos e em programas de reabilitação para crianças-soldados e adolescentes que viveram nas ruas, e o resultado é sempre revelador: os destinatários dessas experiências de leitura descobrem nos livros a possibilidade de estabelecer uma relação com o mundo que não seja meramente de predação, dominação ou utilidade. A leitura também pode curar feridas coletivas, o trauma de uma comunidade.

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Se pudesse dar um conselho a alguém que quer começar a ler mais livros ou retomar o hábito, qual seria? Acredito que os benefícios da leitura surgem quando a abordamos com curiosidade, mente aberta e desejo de apreciá-la. Se a lemos por obrigação, por força ou sem liberdade, ela não rende frutos. Nunca devemos nos preocupar com a quantidade de livros que lemos: não é uma competição. Participar de um clube do livro pode ser uma ótima maneira de reacender o entusiasmo pela leitura e, ao mesmo tempo, encontrar aliados, um círculo de pessoas com interesses em comum. Também vale reler um livro que te marcou profundamente. Pergunte a amigos ou familiares sobre o livro favorito deles e mergulhe na leitura. Leia em voz alta para crianças, pois a literatura infantil é repleta de humor e inteligência, e abre portas para conversas e confidências com os pequenos. Em resumo, encontre maneiras de usar a leitura para se conectar com os outros.

E você, lê quanto gostaria de ler? Desde que me tornei mãe, aprendi a aproveitar cada momento livre. Entre uma tarefa e outra, leio enquanto meu filho dorme, no ônibus ou na fila do supermercado. Meus rituais diários começam com uma história para dormir lida em voz alta, com todo o meu talento de jogral para contar histórias, seguida por uma longa e envolvente sessão de leitura antes de dormir. Sacrifico o sono, e é por isso que exibo olheiras permanentes, como nobres distintivos de leitora.

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Agora lhe proponho um desafio: quais os três livros que levaria para uma ilha deserta? Como Chesterton escreveu, o livro essencial seria um manual de construção de barcos, para que eu pudesse escapar da ilha deserta e encontrar uma biblioteca decente. Além disso, quando se encontra um livro realmente bom, quer-se ter alguém por perto para discuti-lo, interrompendo constantemente a pessoa para ler em voz alta as passagens que nos cativaram. Mas, se eu não tiver escolha a não ser sucumbir àquela ilha miserável, levaria uma enciclopédia. Na infância, quando tinha mais tempo, adorava saltar de uma palavra para outra, me perder no labirinto de curiosidades, observar os mapas e as ilustrações botânicas. E os atlas, que eu podia explorar com a ponta do dedo. Mas também levaria clássicos: as obras completas de Clarice Lispector, os contos de Julio Ramón Ribeyro e Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Embora confesse ser uma leitora promíscua e voraz sempre tenho muitos autores em mãos , reler meus livros mais queridos é um dos maiores prazeres da vida.

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Fonte: veja.abril.com.br

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