No escuro do seu quarto, à meia-noite, à meia luz, equipamento chinês usa tecnologia dos carros autônomos para disparar laser contra os indesejados insetos
Faltava uma inteligência artificial que unisse todas as tribos, como fez o Norvana. Ok, essa ref da frase anterior talvez só seja plenamente compreendida por quem já foi heavy user do Twitter (na época que era legal), porém a novidade que vim contar é realmente capaz de unir grupos dissonantes.
Estou falando de uma IA chinesa que promete eliminar mosquitos usando raio laser. Você há de convir, leitor/leitora, que mesmo quem tem ojeriza a um ChatGPT ou a um Claude talvez se interesse em uma máquina que dá cabo dessas pragas urbanas com eficiência e, sejamos francos, um toque de crueldade à altura da irritação que o zumbido deles provoca.
Como funciona o aparelho que elimina mosquitos com IA
Trata-se do Laser Mosquito Air Defense System, aparelho desenvolvido pela empresa chinesa Photon Matrix, com tamanho próximo ao de um tijolo. No escuro do seu quarto, à meia-noite, à meia luz, o dispositivo identifica mosquitos em pleno voo e dispara um laser nas asas do dito cujo.
A engenhoca usa uma tecnologia também empregada em carros autônomos, o lidar, que mede distâncias por meio de pulsos de luz. Enquanto varre o espaço à sua frente, o sistema procura objetos com características compatíveis com as dos insetos. Quando encontra um alvo, manda laser no bicho.
Segundo a fabricante, o alcance chega a seis metros. A varredura cobre um ângulo de 90 graus em um plano, portanto o mosquito precisa atravessar essa área para ser detectado. Há critérios de tamanho e velocidade para selecionar os alvos, e o equipamento foi projetado especificamente para mosquitos, então moscas e baratas continuam fora de perigo.
Quais são os riscos do laser para pessoas e animais
A IA ajuda a reconhecer pessoas e animais para bloquear os disparos, enquanto outros sensores acrescentam camadas de proteção. O aparelho também identifica superfícies reflexivas, que poderiam desviar o feixe. Isso explica por que um produto com uma missão aparentemente tão simples precisa reunir tanta tecnologia. Ele tem de localizar um bichinho em movimento e, ao mesmo tempo, evitar que a perseguição coloque em risco quem estiver por perto.
Porque existe uma complicação nessa história, claro. O laser usado é de classe 4 e pode causar danos aos olhos. Para liberar o funcionamento, o comprador precisa acertar todas as questões de uma prova de segurança com 15 perguntas e cadastrar uma impressão digital ou uma senha.
O que acontece com os mosquitos atingidos pelo laser
Em uma demonstração recente na sede da empresa, em Changzhou, os insetos atingidos caíram e perderam a capacidade de voar. A morte, porém, pode demorar. Isso eu já achei mais pesado quando soube, e presumo que vá atrair manifestações (compreensíveis) de alguns grupos de defesa de direitos dos animais.
A fabricante oferece uma versão com laser azul, que produz um clarão visível no disparo, e outra com infravermelho, sem esse flash. A primeira é apresentada para ambientes externos, enquanto a segunda é indicada para espaços como quartos. Faz sentido, já que trocar o zumbido por um pequeno espetáculo de luzes na cabeceira poderia comprometer parte da vitória.
Quanto custa e quando chega o aparelho que mata mosquitos com IA
O preço, por enquanto, ainda é bem salgado: 1.000 dólares (cerca de 5.400 reais). Com esse dinheiro, daria para comprar cerca de 200 raquetes elétricas ou 264 latas de inseticida de 450 mililitros. Se você gastar uma lata por mês, são 22 anos desse orçamento. É uma quantia considerável para terceirizar a perseguição ao pernilongo. Mas, como costuma acontecer com inovações tech, é possível que o produto se barateie conforme ganha escala.
O que deve demorar para acontecer. A empresa ainda busca aprovações na China, na Europa e nos Estados Unidos e afirma ter recebido 5.000 pedidos. Na loja, estima o envio em até 120 dias após a confirmação do pagamento.
Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda
Fonte: veja.abril.com.br