Índia conseguiria repor apenas uma fração das exportações americanas
O Brasil escapou de uma crise imediata de abastecimento de diesel com o recuo de Donald Trump da ameaça de restringir as exportações americanas, mas o episódio expôs uma vulnerabilidade que continua praticamente intacta: não existe hoje outro fornecedor capaz de substituir rapidamente o volume entregue pelos Estados Unidos.
A dimensão do problema aparece nas contas da S&P Global. Os Estados Unidos exportam aproximadamente 1,5 milhão de barris de diesel por dia para o mercado mundial. A Índia, apontada inclusive pela presidente da Petrobras, Magda Chambriard, como uma das alternativas ao produto americano, conseguiria acrescentar apenas entre 200 mil e 300 mil barris diários à oferta.
Na prática, portanto, mesmo no melhor cenário a capacidade adicional indiana cobriria apenas 20% do volume americano. Sem esse volume, o balanço não fecha, afirmou recentemente Felipe Perez, diretor de downstream para a América Latina da S&P Global.
A situação brasileira é mais delicada porque a concentração cresceu rapidamente. Em setembro, 81% do diesel importado pelo país veio dos Estados Unidos. A S&P afirma que o Brasil dispõe hoje de pouco espaço para diversificar as compras: a oferta do Golfo Pérsico continua prejudicada pelas dificuldades nas rotas marítimas e a Rússia também restringiu seus embarques.
Há ainda um problema de relógio. Uma carga americana leva normalmente entre uma e duas semanas para chegar à América Latina. Uma carga asiática demora perto de um mês. A estimativa apresentada pela S&P em setembro era de estoques brasileiros equivalentes a aproximadamente vinte dias de consumo.
O risco imediato diminuiu na sexta-feira, quando os integrantes do G7 concordaram em liberar 100 milhões de barris de petróleo e derivados das reservas de emergência ao longo de quatro meses. Uma parcela relevante do diesel será colocada no mercado já nos primeiros vinte dias. Pouco depois, Trump descartou o bloqueio das exportações americanas.
O efeito começou a chegar às contas brasileiras. Dados da Abicom mostram que a diferença entre o preço doméstico e a paridade de importação do diesel nos principais polos caiu de R$ 2,97 por litro no domingo para R$ 2,60 nesta segunda-feira. Nos polos da Petrobras, recuou de R$ 3,24 para R$ 2,87. Foram 37 centavos de alívio em apenas um dia.
Ainda assim, a distância continua enorme. Isso significa que, apesar da melhora internacional, permanece fechada a janela econômica para que importadores tragam volumes adicionais em condições competitivas com o combustível vendido pelas refinarias brasileiras.
O acordo do G7, portanto, resolveu o primeiro problema impediu, ao menos por enquanto, que Trump fechasse a principal torneira brasileira , mas não o segundo: se essa torneira for novamente ameaçada, o Brasil ainda não tem de onde retirar, no mesmo prazo, o volume de que precisa.
Eu gosto especialmente desse último contraste. E tem um detalhe importante para blindar a matéria: eu não escreveria que o G7 garantiu o abastecimento brasileiro. O compromisso formal de não restringir exportações vale entre os países do próprio G7; o que protegeu o Brasil foi a declaração separada de Trump de que não faria a proibição das exportações.
Fonte: veja.abril.com.br