Aos 36 anos, Miguel Vázquez transformou um negócio familiar em um dos maiores bancos do país
Apaixonado por carros esportivos, competições de triatlo e velocidade, o empresário paraguaio Miguel Vázquez, de 36 anos, tinha planos ambiciosos.
Queria criar o primeiro unicórnio do Paraguai, nome dado a startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, e levar uma empresa de seu país à Bolsa de Nova York.
Em vez disso, acabou preso nesta semana, após o colapso do Ueno Bank, instituição financeira que ajudou a transformar em um dos maiores bancos paraguaios.
O banqueiro millennial, integrante da geração nascida entre o início dos anos 1980 e meados dos anos 1990, cultivava uma imagem associada ao universo das empresas de tecnologia.
A sede do Ueno, em Assunção, era apelidada de The Matrix e lembrava os escritórios de grandes companhias do Vale do Silício, nos Estados Unidos.
O edifício tinha paredes de vidro, madeira polida, plantas suspensas e obras de arte indígena. Nas salas de reunião, tabuleiros de xadrez faziam parte da decoração. Na ala reservada aos executivos, chefs particulares e mordomos serviam as refeições, segundo relato publicado pela Bloomberg.
O estilo extravagante acompanhava os interesses pessoais do empresário. Vázquez participava de provas de Ironman, modalidade de triatlo de longa distância, e de competições automobilísticas. Também colecionava carros esportivos de luxo, de acordo com uma pessoa próxima ouvida pela agência.
A paixão pelas pistas aparecia em sua maneira de administrar os negócios. Em declarações divulgadas pelo próprio banco, o empresário costumava associar a competição empresarial à velocidade e às corridas.
Herdeiro de uma família de empresários
Filho único, Vázquez cresceu em uma família com negócios em diferentes setores da economia paraguaia.
Seu avô materno era proprietário de uma concessionária Mercedes-Benz. A avó paterna vendia alimentos em uma banca de mercado, onde seu pai começou a oferecer pequenos empréstimos a consumidores sem acesso ao sistema bancário tradicional.
A atividade deu origem à Credicentro, empresa de crédito que se tornaria a base do futuro Ueno Bank.
Em uma entrevista concedida em 2024, Vázquez reconheceu que sua trajetória estava ligada à fortuna e à experiência acumuladas pela família. Descreveu-se mais como herdeiro de uma terceira geração de empresários do que como empreendedor que havia começado do zero.
Ainda adolescente, ajudava o pai a formalizar contratos de empréstimo. Em 2014, assumiu a direção da empresa familiar, segundo informações de seu perfil profissional.
Sua formação acadêmica, entretanto, não seguiu o caminho tradicional dos executivos do setor financeiro.
Vázquez começou a cursar uma universidade privada em Assunção, mas não concluiu a graduação. Posteriormente, estudou finanças no Incae, escola de negócios da Costa Rica, também sem obter diploma.
Em uma entrevista de 2024, contou que chegou a discutir com um professor sobre direitos trabalhistas. Segundo seu relato, questionou a ênfase dada aos direitos dos empregados e defendeu que trabalhadores também deveriam assumir responsabilidades perante os empresários.
Banco chegou a valer US$ 470 milhões
A transformação da Credicentro em Ueno Bank ocorreu em 2023, quando a instituição obteve autorização para operar como banco.
O nome Ueno faz referência à palavra espanhola bueno, que significa bom. A marca buscava transmitir uma imagem moderna e acessível, com forte presença digital e serviços voltados a consumidores que antes tinham pouco contato com instituições financeiras.
A expansão foi acelerada. Em menos de três anos, o banco alcançou cerca de 3 milhões de clientes, número equivalente a uma parcela expressiva da população paraguaia.
O crescimento também atraiu investidores estrangeiros. O OTP Bank, maior banco da Hungria, adquiriu participação de 10% na holding controladora do Ueno, operação que atribuiu ao grupo uma avaliação de aproximadamente US$ 470 milhões em junho deste ano.
Com base nessa avaliação, a participação de Vázquez chegou a ser estimada em até US$ 375 milhões, o equivalente a cerca de R$ 2 bilhões, dependendo da cotação do dólar.
O empresário também controlava o Grupo Vázquez, conglomerado com atividades que incluíam pecuária, comércio eletrônico e serviços financeiros.
Segundo o relatório anual do grupo, as empresas empregavam aproximadamente 6.000 pessoas e registraram receitas superiores a US$ 100 milhões em 2025. O número de participações empresariais passou de menos de dez em 2020 para 28 no fim do ano passado.
A ambição era ampliar ainda mais os negócios, até alcançar uma avaliação bilionária e acessar o mercado financeiro americano.
Patrocínio ao futebol aproximou banco dos brasileiros
Uma das estratégias de expansão da marca foi o investimento em publicidade e patrocínios esportivos.
Em 2025, o Ueno passou a patrocinar a seleção paraguaia de futebol, aproximando sua imagem de um dos maiores símbolos nacionais.
A relação ganhou repercussão no Brasil após a intervenção do banco.
O zagueiro Gustavo Gómez, capitão do Palmeiras e da seleção paraguaia, divulgou nas redes sociais um comunicado atribuído aos jogadores afirmando que eles também haviam sido afetados pelo bloqueio das contas.
Os atletas disseram compartilhar a indignação de milhares de famílias que perderam temporariamente o acesso às economias.
A situação mostrou que o alcance do banco ultrapassava os clientes tradicionais e envolvia também figuras de grande visibilidade pública.
Relação com presidente ampliou escândalo
O crescimento do Ueno foi acompanhado de uma aproximação com o poder político paraguaio.
O presidente Santiago Peña, eleito em 2023, havia investido entre 2019 e 2025 em uma das empresas de Vázquez, embora não diretamente no banco.
Durante seu governo, os depósitos de instituições públicas no Ueno cresceram rapidamente. Os valores passaram de menos de US$ 100 milhões no início de 2024 para mais de US$ 800 milhões, segundo informações publicadas pela Bloomberg.
Ao fim de setembro, a instituição concentrava aproximadamente 20% dos depósitos do governo mantidos no sistema bancário paraguaio.
Peña defendeu publicamente a escolha do banco para receber recursos públicos, argumentando que a instituição oferecia taxas de remuneração competitivas. O presidente nega irregularidades.
A crise também atingiu Carlos Carvallo, que presidia o Banco Central do Paraguai e havia trabalhado anteriormente na instituição ligada a Vázquez. Ele deixou o cargo após a intervenção.
O escândalo provocou uma crise política que levou Peña a apresentar sua renúncia e enfrentar um processo de impeachment. Até esta sexta-feira (6), ele permanecia no cargo, enquanto o Senado discutia sua situação.
De empresário milionário à prisão preventiva
A trajetória de Vázquez sofreu uma reviravolta em 2 de novembro, quando o Banco Central determinou a resolução do Ueno Bank após identificar problemas graves de solvência e irregularidades financeiras.
A intervenção ocorreu apenas oito meses depois de o banco captar US$ 350 milhões em títulos internacionais e poucos dias após anunciar um plano de reforço de capital de US$ 100 milhões.
O empresário se apresentou voluntariamente à polícia acompanhado de advogados e foi detido no âmbito das investigações sobre a situação financeira da instituição.
Nesta sexta-feira (6), foi transferido para o Centro Nacional de Prevenidos, na antiga penitenciária de Tacumbú, em Assunção, onde deverá cumprir prisão preventiva por determinação judicial.
A investigação envolve suspeitas de administração desleal, tentativa de fraude, irregularidades contábeis e operações financeiras relacionadas ao grupo controlador. As acusações ainda serão examinadas pela Justiça, e não há condenação definitiva.
O advogado Víctor Dante Gulino afirmou à imprensa local que ainda buscava esclarecimentos sobre as imputações apresentadas contra seu cliente.
A prisão representa um contraste com a imagem de sucesso que Vázquez construiu nos últimos anos. O empresário que pretendia transformar uma instituição financeira familiar no primeiro unicórnio do Paraguai agora enfrenta uma investigação criminal, enquanto milhões de clientes aguardam a recuperação de seus depósitos.
A sede luxuosa, os carros esportivos e os planos de chegar a Wall Street tornaram-se símbolos de uma ascensão empresarial tão rápida quanto a crise que atingiu o banco.
Fonte: veja.abril.com.br