Olhar mordaz sobre as relações humanas continua a atravessar gerações
A inglesa Jane Austen tinha 35 anos quando conseguiu, enfim, publicar seu primeiro romance, Razão e Sensibilidade, em 1811. Por ser mulher, não era levada a sério pelos editores da época quem negociou a publicação foi um de seus irmãos. A família arcou com os custos e o risco financeiro da obra. Jane também não pôde assinar o livro, que saiu sob a misteriosa autoria de a lady (uma dama, em português). Na trama, duas irmãs diferentes entre si lidam com o amor e suas implicações econômicas com a morte do pai e sem direito patrimonial, já que a herança foi para o filho homem, elas precisam arranjar um casamento e garantir estabilidade financeira. A tiragem se esgotou e Jane, com a estreia bem-sucedida, continuou publicando. Seu nome, contudo, só foi revelado de forma póstuma: a autora morreu precocemente, aos 41 anos, em 1817. Lançou seis romances e deixou três livros inacabados. A vida breve não a impediu, contudo, de garantir um lugar entre os grandes da literatura mundial.

Longe de ser uma lembrança restrita aos compêndios do século XIX, seu universo literário se tornou combustível potente para o cinema e, mais recentemente, chegou ao streaming, com adaptações variadas filão que ganhou nova safra neste ano. Na quinta-feira 29, chega aos cinemas uma adorável adaptação de Razão e Sensibilidade, estrelada por Daisy Edgar-Jones e George MacKay. No dia 3 de dezembro, a Netflix lança a aguardada minissérie Orgulho e Preconceito um dos títulos mais famosos da autora, publicado em 1813. A produção traz Emma Corrin na pele da protagonista (a irascível Elizabeth Bennet) e Freya Mavor como a irmã Jane. Jack Lowden interpreta o charmoso Mr. Darcy, e Olivia Colman assume o papel da matriarca do clã.

Enxuta, mas rica, a obra da escritora deixou espaço para leituras paralelas. Na Inglaterra, a minissérie da BBC The Other Bennet Sister (A Outra Irmã Bennet, ainda sem data no Brasil), angariou elogios ao se debruçar sobre Mary (Ella Bruccoleri), a irmã ignorada de Elizabeth e o patinho feio da família. No Oscar deste ano, entre os indicados a melhor curta estava o satírico O Drama Menstrual de Jane Austen que tem um ótimo título em inglês: Jane Austens Period Drama, sendo period um trocadilho entre menstruação e drama de época roteiro que ironiza o tabu em torno do ciclo biológico feminino. Mesmo sendo versões livres, o olhar de mundo da autora se faz presente. São histórias sobre o amor romântico, mas com críticas sociais irônicas, analisa Adriana dos Santos Sales, doutora pela UFMG e especialista em Jane Austen.

A profusão de novas adaptações reflete um movimento que ganhou tração entre os anos 1990 e 2000, impulsionado por tendências de então: a forte onda de comédias românticas e mudanças na maneira como o cinema retratava suas protagonistas femininas andavam ao lado do boom de dramas de época. Um cenário feito sob medida para Jane Austen. São dessa época o belíssimo Razão e Sensibilidade (1995), que deu a Emma Thompson uma indicação ao Oscar de melhor atriz e uma vitória na categoria de roteiro. Também em 1995, o elogiado Persuasão, baseado no último romance concluído pela autora, explorou um dilema atemporal: o arrependimento por um amor abandonado em nome das convenções sociais. Naquele mesmo ano e em 1996, o livro Emma ganhou duas adaptações de propostas distintas, uma tradicional, com Gwyneth Paltrow na pele da personagem-título, e outra ambientada no presente, As Patricinhas de Beverly Hills, um sucesso incontornável até hoje, sobre um triângulo amoroso envolvendo duas amigas. Em 2001, O Diário de Bridget Jones brincou com a trama de Orgulho e Preconceito e, em 2005, uma versão fiel ao livro, estrelada por Keira Knightley e Matthew Macfadyen, se tornou o padrão-ouro das adaptações de clássicos.

Curiosamente, a leva atual tem raízes parecidas. Com discussões renovadas sobre o feminismo e uma maior presença de séries de época na TV, à la Bridgerton que, vejam só, bebe de Jane Austen , tramas ambientadas há mais de 200 anos voltaram a cativar o público. O fascínio carrega o apelo à nostalgia de um passado que não se viveu mas sob a ótica de heroínas à frente de seu tempo. Em Razão e Sensibilidade, por exemplo, a mocinha Elinor, mesmo apaixonada por Mr. Ferrars, respeita o compromisso dele com outra mulher e esconde seus sentimentos. Já sua irmã Marianne é o oposto e expressa tudo o que sente, humilhando-se por um pretendente mau-caráter. Sob a pena da autora, nenhuma das duas é exemplo absoluto de virtude ou de frivolidade. Diante de um mundo que lhes dá pouca liberdade, ambas administram como podem suas emoções, enquanto buscam formas de vencer as provações. As boas histórias sobre as relações humanas são eternas e a força persuasiva de Jane Austen se mantém intacta.
Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018
Fonte: veja.abril.com.br