A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está completando 50 anos sem ter sido cancelada uma única vez. A edição comemorativa começa nesta quinta-feira (15) e vai até o dia 29 com a exibição de mais de 380 filmes de 93 países, além da visita do diretor americano James Gray, o produtor português Paulo Branco, o diretor indiano S. S. Rajamouli e o rapper e cineasta americano Boots Riley. O festival, criado em plena ditadura militar, recebeu muitos convidados ilustres em suas cinc

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está completando 50 anos sem ter sido cancelada uma única vez. A edição comemorativa começa nesta quinta-feira (15) e vai até o dia 29 com a exibição de mais de 380 filmes de 93 países, além da visita do diretor americano James Gray, o produtor português Paulo Branco, o diretor indiano S. S. Rajamouli e o rapper e cineasta americano Boots Riley. O festival, criado em plena ditadura militar, recebeu muitos convidados ilustres em suas cinco décadas. Wim Wenders, Pedro Almodóvar, Quentin Tarantino, Abbas Kiarostami, Francis Ford Coppola, Jafar Panahi e Manoel de Oliveira são alguns dos cineastas que vieram à capital paulista para apresentar seus filmes. 50º Mostra de Cinema é de celebração, mas futuro terá desafio após eleições, diz diretora De origem armênia e naturalizado brasileiro, o fundador Leon Cakoff (pseudônimo de Leon Chadarevian) nasceu em 1948. A família se refugiou no Brasil durante sua infância. Cakoff se tornou crítico de cinema e repórter, e passou a dirigir o departamento de cinema do MASP em 1974, onde organizava sessões no auditório. Em comemoração aos 30 anos do museu, Leon Cakoff fez a primeira Mostra Internacional de Cinema no ano de 1977. Em meio à repressão do AI-5 e a mão de ferro da censura, o evento trazia um gostinho de democracia para um povo que não podia escolher seus governantes. Mostra de Cinema de SP divulga filmes de 2026 com brasileiro que disputa Oscar, premiados em Cannes e visita de James Gray Com o lema "O público é o júri", eram os cinéfilos que decidiam quem vencia o prêmio do festival, por meio do voto. A ideia foi celebrada na imprensa, com anedotas dizendo que a Mostra era o único lugar do país em que era possível votar -- anos depois, seria criado também um júri especializado, mas os votos dos espectadores continuaram sendo computados até hoje para compor a premiação. Os 11 dias de exibição atraíram mais de 15 mil espectadores. Com 23 filmes, a programação reuniu títulos de 17 países, como Argentina, Canadá, China, França, Iugoslávia e Portugal. O historiador Emerson Dylan, que pesquisou os primeiros anos da Mostra em seu mestrado pela Universidade Federal de São Paulo, afirma que este também é um aspecto de resistência ao regime militar: a busca por trazer diferentes cinematografias que dificilmente chegariam ao mercado exibidor. "Já na primeira Mostra a gente tem exibição de filmes chineses, de países que não tinham relação institucional com o Brasil, como é o caso da Tchecoslováquia. E nos anos seguintes, uma grande aproximação de filmes cubanos e soviéticos. Um exibidor comercial do Brasil dificilmente conseguiria trazer. Primeiro, por conta do receio de os filmes serem pegos pela censura ou pela polícia política do país, mas principalmente pela questão comercial, sabendo que era possível não ter o retorno." Cakoff usava o respaldo internacional do MASP e contatos com as embaixadas para trazer os rolos dos filmes a partir das chamadas malas diplomáticas, que não eram violadas pelo governo até chegarem ao museu. Depois disso, ainda era preciso enfrentar a censura prévia. Com o passar dos anos e do crescimento da Mostra, que se tornou independente do MASP em sua 8ª edição, o crítico ainda teve grandes embates pela liberdade de exibir os filmes. Durante este mesmo ano de 1984, por exemplo, houve uma interrupção da programação por quatro dias por conta da censura. O historiador destaca o legado de Cakoff, que morreu no dia 14 de outubro de 2011, em decorrência de um melanoma. "Para mim, é uma das pessoas mais importantes e mais relevantes do cinema no Brasil. Não só na cidade de São Paulo, mas no país inteiro. A gente costuma pensar em agentes do cinema sempre lembrando muito da figura do diretor e do produtor, mas o Leon Cakoff ocupa um papel de destaque muitas vezes esquecido, que é o papel do exibidor cinematográfico. Leon Cakoff e Renata de Almeida na 34º Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Divulgação/ Aline Arruda/ Agencia Foto Amor de cinema, amor por cinema Nos anos 90, Leon conheceu a produtora e cineasta Renata de Almeida, com quem se casou e teve dois filhos. Além da parceria da vida, Renata também compartilhava com Leon a paixão pelas telonas. Ela dirigiu a Mostra junto ao marido durante duas décadas, e ambos realizaram filmes como "Volte Sempre, Abbas" (1999), "Bem-Vindo a São Paulo" (2004), e "Mundo Invisível (2011)", no âmbito do festival. Renata de Almeida e Leon Cakoff ainda compartilharam uma distribuidora e tiveram um projeto na televisão, em parceria com a Fundação Padre Anchieta, em que exibiam filmes da Mostra e traziam convidados. Com a editora Cosac Naify, lançaram uma coleção de livros sobre diretores de cinema, entre eles Pier Paolo Pasolini, Abbas Kiarostami, Yasujiro Ozu e Manoel de Oliveira. Um dos filhos do casal, Jonas de Almeida Chadarevian, atua hoje como um dos produtores executivos e integra a comissão de colaboradores para a seleção de filmes da Mostra. Graças a Renata, que encabeçou o evento após a morte de Cakoff, o festival chegou à 50ª edição. Nesses mais de 30 anos em que vem trabalhando para colocar a Mostra de pé, foram tantos marcos que a atual diretora decidiu escrever um livro. Ela lança neste mês Antes Que Eu Me Esqueça (Cosac), com suas memórias. "Eu fiz 60 anos, a Mostra está fazendo 50... Achei que era hora de uma reflexão. E eu quis escrever algo que ninguém mais pudesse. Por isso, apesar de o livro falar da Mostra, é ao mesmo tempo muito pessoal. Tem várias histórias de bastidores, de coisas que deram errado no processo, porque eu acho que é legal você ler algo que deu errado e que a pessoa continuou ou corrigiu, porque na vida tanta coisa dá errado. Tem coisas políticas, falo sobre a doença do Leon, o luto com a morte dele, e também a questão da maternidade e do trabalho." No livro, a diretora relembra histórias de encontros e criações de laços entre São Paulo e outros lugares do mundo, como na edição de 1992, quando o diretor americano Quentin Tarantino ("Kill Bill", "Django Livre", "Bastardos Inglórios", "Pulp Fiction") veio apresentar Cães de Aluguel. "As pessoas já sabiam um pouco do filme, mas ninguém tinha ideia, no momento, da dimensão que o Quentin tomaria. E ele andou por São Paulo, para cima e para baixo. Ele e a Maria de Medeiros ficaram muito amigos aqui, e depois ela atuou no 'Pulp Fiction'." Renata de Almeida e Francis Ford Copolla em cerimônia de premiação da Mostra na Cinemateca (2024). Mario Miranda Filho/Agência Foto Renata de Almeida, Maria de Medeiros e Quentin Tarantino na 16º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 1992. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo Rossy de Palma, Pedro Almodóvar, Marisa Paredes e Leon Cakoff em 1995. Divulgação/Mostra A 19º Mostra foi inesquecível: Pedro Almodóvar, Rossy de Palma, Marisa Paredes, Manoel de Oliveira, e Gabriel Figueroa. Além disso, Walter Salles, o diretor de Ainda Estou Aqui e responsável pelo primeiro e único Oscar do Brasil, estava participando do jaúri. "Não sei que conjunção astrológica teve aquele ano, e a gente nem tinha estrutura na 19º para tanta gente, porque esses nomes chamavam muito público. Na saída de um almoço, a Anne Parillaud, que é uma atriz francesa, me perguntou quem era aquele moço que estava trabalhando na produção da Mostra. Aí eu olho e está o Walter Salles colocando os convidados dentro do táxi e pedindo para o motorista levar para o Maksoud Plaza (risos)." Mas nem tudo são flores. Em sua primeira Mostra, em 1990, Renata já teve que lidar com uma crise após o confisco do Plano Collor. Depois, outras adversidades vieram, como o luto pela morte de Leon Cakoff, problemas com patrocinadores, e a pandemia, em que foi preciso cessar os encontros e realizar o evento virtualmente. Mesmo assim, a Mostra nunca parou. Formação de jovens cinéfilos e cineastas Escolher os filmes que vão compor a Mostra não é tarefa simples. Todo ano, mais de 1700 títulos são apreciados. Destes, entre 200 e 400 são selecionados por um grande equipe, com a liderança de Renata de Almeida. A curadoria leva em conta o zeitgeist, já que o cinema "reflete um pouco o estado do mundo" e traz questões que geram reflexão. Outro ponto importante é a "diversidade de maneiras de fazer cinema, de vários lugares do mundo", capaz de criar empatia com outras culturas e pessoas distantes, explica a diretora. "E claro que nós também temos aqueles filmes que todo mundo quer ver, que foram premiados nos festivais, ou que são mais pop. Mas sempre é preciso deixar um lugar para a história do cinema, porque tem uma nova geração que está chegando, e o público da Mostra é muito jovem, se renova todo ano. Isso me emociona, me surpreende." É o caso da cineasta e apresentadora Marina Person, que diz ter tido uma "escola" no evento que acontece todo outubro, que frequenta desde a adolescência. Ela dirigiu junto com Gustavo Moura o documentário Viva o Cinema! Uma História da Mostra de São Paulo, feito em quatro partes. A série conta em detalhes a trajetória da Mostra, acompanhando também como o cinema, o Brasil e o mundo sofreram mudanças ao longo dos anos. "O Leon Cakoff foi essa figura, como a gente descreve no documentário, muitas vezes quixotesca. Fazer a Mostra acontecer, mesmo com tantas adversidades, é fruto da obstinação do Leon, no início, e depois dessa grande parceira de vida dele, que é a Renata. Quando o Leon faleceu, muita gente duvidava que a Mostra continuasse a existir. Talvez porque eles não conhecessem o papel da Renata, porque, desde que ela começou a trabalhar no festival, ela sempre foi a estrutura." Marina tem uma relação estreita com a Mostra de Cinema. Ela lembra de sua primeira edição, em que tinha 14 anos e juntou as amigas para assistir "Vidas Sem Rumo", de Francis Ford Coppola. O principal motivo? A beleza do ator Matt Dillon. Além de a classificação etária ser acima da idade de sua irmã, a sessão estava lotada. Restou ao grupo assistir ao filme fora dos assentos do auditório do MASP, usando o encosto das laterais, o que não estragou a felicidade de ninguém. Além de fazer reportagens para a MTV ao longo dos anos, Marina Person também integrou o júri, apresentou edições e exibiu seu longa Califórnia no festival. Mesmo sendo filha de cineastas, ela afirma que a formação que recebeu ao frequentar a Mostra foi fundamental. Eu assistia seis filmes por dia. Às vezes, comia só um pão de queijo e ia. Eu realmente era muito rata de Mostra, e foi muito bom para mim, porque eu entendi que o cinema tinha muitas possibilidades, para além do cinema americano que chegava e ficava em cartaz aqui. Me abriu muito a cabeça nesse sentido, e até de entender que eu poderia ser cineasta e fazer filmes, porque as possibilidades eram inúmeras." 'Viva o Cinema! Uma História da Mostra de São Paulo', de Marina Person e Gustavo Rosa de Moura. Na foto, ela entrevista Serginho Groisman, apresentador da Mostra. Divulgação Assim como Marina Person, outros frequentadores se tornam assíduos da Mostra. É o caso de Emerson, que antes de se tornar pesquisador, era Mostreiro. Ele conta que começou assistindo aos filmes da Mostra pela TV Cultura na infância, passou a frequentar o festival na adolescência e continua dedicando o mês de outubro à experiêcia. Eu acho que nós, em São Paulo, somos muito agraciados pela existência desse evento. Apesar de ser um espectador que hoje pega poucos filmes, por conta da dinâmica de trabalho e do dia-a-dia, eu acompanho muita gente que vem de fora. Eu fiz um amigo na fila da Mostra que mora em Vitória da Conquista (BA), e todo ano ele tira férias em outubro para vir a São Paulo e assistir esses filmes. A 50ª edição Cartaz da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, assinado pelo cineasta James Gray. Divulgação Nesta 50º edição, que começa no dia 15 e vai até 29 de outubro, o diretor americano James Gray (Ad Astra, Armageddon Time, Era Uma Vez Em Nova York) apresenta seu filme Tigre de Papel, destaque em Cannes. Também virão a São Paulo o produtor português Paulo Branco, o diretor indiano S. S. Rajamouli e o rapper e cineasta americano Boots Riley. Confira a seleção de filmes e também a programação completa. Outras ações comemorativas são o lançamento do Acervo, que reúne 50 anos de história da Mostra e informações sobre mais de 12 mil filmes que passaram pelo festival, e a exposição Tempo e Movimento: Os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, no Solar Fábio Prado referência à frase dita pela artista plástica Tomie Ohtake quando apresentava a arte da 17ª Mostra: Para mim cinema é isso, tempo e movimento.
Fonte: cbn.globo.com