Em entrevista a VEJA, o escritor francês reflete sobre seus livros confessionais, rejeita o rótulo de autoficção e aborda arrependimentos pessoais
O autor francês Emmanuel Carrère esteve no Brasil recentemente, e passou por São Paulo e pelo Rio de Janeiro cumprindo uma agenda com eventos, debates e sessões de autógrafos dedicados a Colcoz (Alfaguara), seu livro mais recente. A obra reconstrói quatro gerações de sua família, da emigração após a Revolução Russa de 1917 até a Guerra na Ucrânia, tendo como fio condutor a morte dos pais do escritor, cuja cena de abertura é o funeral da mãe, a historiadora Hélène Carrère dEncausse.
Aos 67 anos, o autor de O Adversário, Limonov e Ioga, Carrère é um paradoxo ambulante da literatura contemporânea. Exerce, com obsessão e talento raros, uma escrita de si repleta de detalhes íntimos, familiares e confessionais exatamente o que o mercado e os estudiosos chamam de autoficção , mas rejeita o rótulo com veemência. Prefere chamar seus livros de romances não ficcionais, nos quais o eu funciona como autoridade narrativa, não como protagonista blindado pela ficção.
Essa tensão entre o que ele faz e o que diz fazer atravessa a conversa que teve com VEJA durante sua passagem pelo Brasil. Não coloco subtítulos nos meus livros há 25 anos. Não sou muito adepto desse tipo de classificação, disse. Minutos depois, porém, reconheceu o compromisso com a verdade que sustenta o livro: Em Colcoz não há ficção, disse. A frase contradiz o que ele próprio escreveu na obra, quando admitiu que usou algumas licenças poéticas ao longo do livro. Quem conta um conto, aumenta um ponto; diz o ditado popular que bem poderia ser uma síntese da autoficção.

Na conversa, ele também revisitou o episódio mais espinhoso de sua trajetória, a publicação de Um Romance Russo (2007), que expôs o ciúme possessivo pela então companheira e o colaboracionismo do avô materno durante a Ocupação nazista revelação que o afastou da mãe por anos. No caso particular desse livro, eu me arrependo, disse. A entrevista passou ainda pela sorte, ou azar, de Carrère ter estado em lugares decisivos em momentos históricos testemunhou o tsunami no Sri Lanka, em 2004, e estava em Moscou quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em 2022.
Criado entre a elite intelectual francesa, formado em Sciences Po (Institut dÉtudes Politiques de Paris, uma das universidades mais prestigiadas do mundo nas áreas de ciências sociais), filho de uma acadêmica imortal da Academia Francesa, Carrère não escapa das críticas sobre seu lugar de privilégio, levantadas até por sua atual companheira. A seguir, a conversa completa com um dos escritores contemporâneos mais lidos e premiados.
Boa parte de seus livros é muito pessoal. O último, Colcoz, é especialmente pessoal, você narra a morte dos seus pais e a história da sua família. Como se sente escrevendo sobre essas questões? Isso traz sofrimento ou alívio? Esse livro em particular eu não sofri nada para escrever, muito pelo contrário. É um livro que foi escrito de um jeito bem feliz, o que é paradoxal, porque é um livro de luto. Foi realmente escrito nos dois anos que se seguiram à morte dos meus pais. E tenho a impressão de que foi um luto no qual havia tristeza, mas também muita doçura. Então não foi doloroso, não foi difícil, não foi conflituoso escrevê-lo. Foi escrito de um jeito bastante alegre, e é por isso que sou tão apegado a ele.
No livro O Reino, você fala da sua conversão ao catolicismo e, depois, do seu afastamento da fé. Em Colcoz, lida com a morte. Essa experiência anterior com o sagrado mudou de alguma forma a sua visão sobre a morte? O relato em O Reino é uma experiência de conversão muito radical, dogmática. Ela está muito distante de mim hoje. Mas, apesar disso, por mais que eu não me defina de forma alguma como crente, continuo muito apegado ao Evangelho e às palavras de Cristo. Acho que não é preciso ser crente para se servir, na vida, das palavras de Cristo, que certamente são as mais subversivas já pronunciadas. Agora, não tenho a impressão de precisar do conforto da fé diante da morte nem diante da morte dos outros, nem diante da minha própria, isso eu não posso saber, veremos. Mas, por enquanto, ela não cumpre de forma alguma essa função para mim.
O senhor se considera um autor de autoficção, ou prefere o conceito de Annie Ernaux, de autossociobiografia? Não coloco subtítulos nos meus livros há 25 anos. Não sou muito adepto desse tipo de classificação. Acho admirável o trabalho de Annie Ernaux, mas pouco me importa se isso se chama autossociobiografia. Acho apenas que é um grande livro, e que chamar isso de autossociobiografia é redutor. Eu escrevo livros. Tudo o que se pode dizer é que não são romances no sentido de que um romance relata acontecimentos e personagens imaginários; em compensação, meus livros recorrem a todas as técnicas do romance, a todos os recursos do romance, e são feitos para serem lidos como romances.
Mas mesmo sendo romances, deixa claro quais são ficcionais e quais não são… Sim, em Colcoz não há ficção. O que você diz [deixar claro para os leitores] vale inteiramente para O Reino, porque ali tento contar a história dos primeiros cristãos a partir dos documentos da época de que dispomos. Quando conto os acontecimentos, tento deixar claro ao leitor qual é o estatuto do que estou contando. Será que estou contando algo absolutamente comprovado, sobre o qual os historiadores concordam? Será que estou contando algo duvidoso, mas provável, possível? Será que estou contando algo que é pura imaginação minha? Acho que tenho todo o direito de fazer isso, prefiro dizer ao leitor o que é o quê. Não é uma obrigação, mas prefiro fazer assim. Prefiro que o leitor conheça sozinho aquilo que está lendo.
Em Um Romance Russo, o senhor expõe a ligação de seu avô com o nazismo e revela um ciúme doentio em relação à sua companheira da época. Esse tipo de sinceridade afetou sua vida pessoal. Como lidou com as consequências? No caso particular desse livro, eu me arrependo. Acho que realmente cruzei uma linha que não se deve cruzar machuquei tanto minha mãe quanto minha companheira da época. Fiz isso, não posso mudar, mas não gostaria de fazer de novo.

Em seus livros, em vários momentos, o senhor exalta a brilhante trajetória da sua mãe historiadora respeitada, influente, membro da Academia Francesa. É uma admiração genuína, mas também é conflituosa em alguns momentos. Em suas sessões de terapia, o tema complexo de Édipo já veio à tona? Sim, claro, muitas vezes. Depois de décadas e décadas, escrevi este livro, que mostra uma relação bastante pacífica com ela. Mas foi tarde. Não tarde demais, mas tarde.
Gostaria de entrar para a Academia Francesa, como sua mãe fez? Não. Sou muito pretensioso pretensioso demais para desejar esse tipo de honra.
O senhor estava em lugares em momentos especiais. Estava no Sri Lanka durante o tsunami, estava em Moscou no dia em que a guerra começou. Considera isso sorte ou azar? Tento evitar o pensamento mágico. Acho que as coisas acontecem, e eu faço o que posso com elas.
Por que acha que sua obra desperta tanta atenção no mundo todo, sendo boa parte dela tão centrada em você, na sua história, nos seus pensamentos? Há uma frase de Montaigne que diz que todo homem carrega em si toda a condição humana. Penso que, contando uma história pessoal, podemos fazer dela algo universal, justamente se a contamos bem. Se tentarmos contar a verdade sobre nós, isso irá além da verdade. Disso eu estou convencido.
Temos aqui no Brasil uma escritora chamada Conceição Evaristo, que criou o conceito de escrevivência, unindo as palavras escrever e viver. Para ela, a escrevivência é o ato de transformar a experiência de vida, a memória e a ancestralidade em literatura. Em que medida esse conceito se aproxima do seu próprio trabalho? Não conheço a obra dela, devo confessar. Mas o que você diz me atrai muito. Isso dialoga enormemente com meu trabalho. Escrevi, aliás, um livro em particular chamado Outras Vidas que Não a Minha, que acho que corresponde bastante a isso são pessoas que não são famosas, pessoas da vida cotidiana, comum, que no fundo me confiaram as histórias de suas vidas, e eu as contei. A pedido delas, aliás. Acho que isso é relativamente próximo, e isso me deixa ainda mais curioso para ler o que essa autora.
Em um trecho de Colcoz, sua companheira Charline diz que lhe falta a consciência de ser privilegiado. Em que medida sua vida confortável lhe abriu portas? Com certeza eu tenho consciência de ter crescido, de ter tido acesso, desde muito cedo, à leitura, aos livros, antes de tudo. Não posso me apresentar como um trânsfuga de classe, como se costuma dizer hoje. As provações que pude viver são de outra natureza não foram sociais ou econômicas, foram antes psíquicas. Tenho tendência a ter problemas psíquicos, digamos assim. É com isso que tenho um pouco que batalhar.
Seus livros pessoais são frequentemente comparados à obra do norueguês Karl Ove Knausgård. Quais são as semelhanças e diferenças entre o seu trabalho e o dele, especialmente a série Minha Luta? Sou fã de Knausgård, e o admiro muito. Há uma semelhança óbvia, pois ele tenta dar forma à própria vida através da escrita, transformando-a. Mas talvez, tecnicamente, façamos algo bem diferente. Acho que, se fossem filmes, os planos do Knausgård seriam planos muito longos, e o meu trabalho seria muito mais editado. Eu trabalho com planos pequenos.

Seus livros revelam um grande interesse pessoal por seus antepassados russos. Qual sua opinião sobre o governo Putin e a Guerra na Ucrânia? Ainda falo um russo muito ruim, infelizmente. Mas sim, mantenho o interesse. Hoje é mais difícil ter uma relação pacífica e positiva com a Rússia, que mostra um rosto realmente terrível. Não me sinto mais tão próximo da Rússia. Há outro problema; hoje é bem difícil ir à Rússia por causa das sanções. Tenho ido bastante à Ucrânia, o que também é uma forma em nível bem pequeno de me posicionar ao lado deles, de dizer que estou com os ucranianos. Tento fazer o que posso, como escrever reportagens, rodar um filme, etc. Eu realmente apoio a causa dos ucranianos, sim.
Hoje, no Brasil, na França, na Alemanha e em outras democracias no mundo, vemos a ascensão da extrema direita, que tem propostas contrárias à imigração, isolacionistas, que defendem um conceito alternativo de liberdade de expressão. Teme que algo aconteça na França? Acho que estamos realmente em perigo. Daqui a alguns meses, ninguém tem ideia do que vai acontecer nas próximas eleições, mas há boas razões para termos medo, sim.
Fonte: veja.abril.com.br