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Mais de 30 milhões não votaram no 1º turno: qual o peso deles para Lula e Flávio?

A duas semanas do segundo turno da eleição presidencial, as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro têm um público claro na mira: os eleitores que não foram às urnas. A diferença entre os dois candidatos foi de cerca de 2,2 milhões de votos, enquanto mais de 33 milhões de eleitores não compareceram para votar no primeiro turno. Aos 75 anos, Liana Gurgel passou por diferentes fases da política brasileira. Ela faz questão de votar em toda eleição, mas não conseguiu comparecer no prime


A duas semanas do segundo turno da eleição presidencial, as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro têm um público claro na mira: os eleitores que não foram às urnas. A diferença entre os dois candidatos foi de cerca de 2,2 milhões de votos, enquanto mais de 33 milhões de eleitores não compareceram para votar no primeiro turno. Aos 75 anos, Liana Gurgel passou por diferentes fases da política brasileira. Ela faz questão de votar em toda eleição, mas não conseguiu comparecer no primeiro turno após um imprevisto. Para o dia 25, no entanto, Liana já faz planos para garantir o voto. 'Sempre votei. O problema é o seguinte: eu tenho uma mãe de 98 anos que fraturou o fêmur, então eu não consegui ninguém para ficar com ela no domingo da eleição. Por isso que eu não fui votar, mas já estou providenciando uma pessoa para poder ir votar no segundo turno. Eu acho que, agora, no segundo turno, todo mundo tem que ir lá e exercer a sua cidadania. É muito importante, meu filho, é muito importante, porque a gente já passou por muita coisa. Os ausentes somaram 21% do eleitorado no primeiro turno, a maior taxa registrada desde 1998. As abstenções têm crescido a cada eleição. Em 2006, há vinte anos, o índice era de 16%. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, a taxa mais alta de abstenção está no Sudeste, com 22,7%. Entre os estados, o Mato Grosso do Sul tem a maior, com 23,87%, e a menor está no Ceará, com 15,52%. Chama a atenção o caso de Rio Vermelho, cidade de Minas Gerais, onde quatro mil eleitores não foram às urnas. Poderia ser um número pequeno, se ele não representasse 40% dos 10 mil eleitores aptos a votar no município. O papel dos faltosos fica ainda mais evidente num Brasil cada vez mais polarizado, onde converter votos entre um candidato e outro se torna uma tarefa inglória para as campanhas. Ainda assim, o cientista político Fábio Vasconcellos, professor da UERJ, PUC-Rio e pesquisador do INCT Representação e Legitimidade Democrática da UFPR, ressalta que convencer os desalentados a participar do processo eleitoral também não é uma tarefa fácil. 'É historicamente sabido que, quanto menor a escolaridade e quanto menor a renda, você tem uma chance maior de abstenção. Por razões que podem ser de desinteresse, de custos de ir votar, de não participar absolutamente de nada do que acontece em termos de política eleitoral. Talvez você consiga transferir ou ajudar esse eleitor a incentivá-lo a ir votar. Mas não é em grande magnitude. Não espere um esvaziamento absoluto ou muito grande das abstenções, porque há eleitores com razões sólidas para não participar do processo. Eu me lembro que, em 2022, o segundo turno teve uma queda das abstenções, em torno de 600 mil votos, mas não foi suficiente para reverter o quadro' O músico João Victor Campelo, de 30 anos, mora no Rio de Janeiro, segundo estado com maior ausência de eleitores no primeiro turno. Para ele, a dificuldade é de transporte: o local de votação é em Nilópolis, na Baixada Fluminense, mas ele mora em Niterói, na Região Metropolitana, o que exige cerca de duas horas de viagem. 'A primeira vez que eu deixei de votar foi justamente agora. Nas outras eleições, eu conseguia ter mais acesso ao meu local de voto. Eu me mudei, e o meu título de eleitor permaneceu no outro local, então eu teria que pegar muitas conduções. Sinceramente, eu estava muito crente de que os resultados seriam um pouco diferentes nesse primeiro turno. E eu já estou me planejando para, no segundo turno, fazer esse esforço. Eu estou muito arrependido, inclusive, de não ter ido.' A movimentação para conquistar os ausentes é mais intensa na campanha do presidente Lula, que chegou em segundo lugar no primeiro turno. A equipe faz ajustes no tom dos discursos, busca novos caminhos no ambiente digital e mobiliza o eleitorado a trabalhar nas comunidades. Nas redes sociais, eleitores já oferecem até carona para vizinhos que moram longe dos colégios eleitorais. Flávio Bolsonaro, por outro lado, busca morder os percentuais conquistados pelos adversários derrotados: Augusto Cury, do Avante, Ronaldo Caiado, do PSD, Romeu Zema, do NOVO, e Renan Santos, do Missão. No entanto, para especialistas, a equipe deve estar atenta a outro cenário. O cientista político Paulo Baía explica que, com tantos governadores eleitos no primeiro turno, uma das estratégias da campanha bolsonarista é garantir que o eleitor se motive no dia 25 para voltar às urnas e dar o voto só para presidente: 'Ao perder a mobilização dos candidatos a deputado e dos candidatos a governador, você pode manter esse nível de abstenção ou pode até aumentá-lo um pouco. Então, essa é uma preocupação da campanha do Flávio também: ele não quer que o seu eleitor de primeiro turno deixe de votar no segundo. Nós pegamos sobretudo o caso de São Paulo, em que não há um segundo turno para governador. A campanha do Flávio está trabalhando contra a ideia do já ganhou.' Além dos que não compareceram, outros 5,9 milhões de eleitores que foram às urnas não escolheram nenhum dos candidatos à Presidência. Foram 2,3 milhões de votos em branco e 3,6 milhões de votos nulos. E vale o lembrete: não ter votado no primeiro turno não impede que o eleitor vá às urnas no dia 25. O direito ao voto segue garantido.

Fonte: cbn.globo.com

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