Próximo a petistas de alto escalão, Walfrido Warde teria sido articulador de uma até hoje não muito bem explicada reunião entre o banqueiro e o presidente
É comum renomados advogados construírem pontes com autoridades e usá-las quando necessário para defender o interesse de clientes. Alguns fazem isso de maneira legítima, às claras, valendo-se de argumentos técnicos. Outros preferem trilhar caminhos menos convencionais, baseando-se na rede de relações. Há ainda quem reúna capacidade para combinar as duas táticas. Daniel Vorcaro, o dono do extinto Banco Master, recorria a esse tipo especial de profissional para obter vantagens, alavancar seus negócios e ampliar sua rede de influência. Em sua folha de pagamento, havia consultores e advogados que faturavam alto para garimpar informações de valor e abrir as portas dos gabinetes mais inacessíveis de Brasília. Mensagens encontradas no celular do banqueiro mostram que o advogado Walfrido Warde era um requisitado prestador desse tipo de serviço. Próximo a petistas de alto escalão, o advogado intermediou contatos e contratos com autoridades em busca de uma saída para a crise que o banco atravessava e também teria sido o articulador de uma até hoje não muito bem explicada reunião, que aconteceu no Palácio do Planalto, entre o banqueiro e o presidente da República.
As mensagens a que VEJA teve acesso revelam que, entre 2023 e 2025, Vorcaro conseguiu encaminhar demandas de interesse do Master no Ministério da Justiça e na Advocacia-Geral da União. O banqueiro também construiu uma teia de relações junto ao entorno do presidente que, a certa altura, o fez acreditar que tinha em mãos o que seria uma chave para a reeleição de Lula. Os diálogos mostram que Warde e Vorcaro agiam em sintonia e foram bem-sucedidos em várias incursões. O advogado usava a amizade com assessores e pessoas próximas ao presidente da República para tentar evitar a insolvência do banco. Impressiona o extraordinário acesso que ele demonstrava ter ao gabinete presidencial, a assessores palacianos, a ministros e ao próprio mandatário. Se verdadeira, essa relação excepcional teria resultado em uma insólita tentativa do próprio Lula de evitar a liquidação do Master na reta final do processo. Quando Warde percebeu que os planos não estavam dando certo e a falência parecia inevitável, as mensagens indicam que ele mandou avisar o presidente que, se nenhuma providência fosse tomada, eles iriam quebrar tudo.
Durante mais de um ano, Warde coordenou ações para convencer o governo a estender a mão ao banqueiro. O Master tinha uma bilionária carteira de precatórios e dependia de decisões políticas e judiciais para receber os pagamentos. No início de 2024, Warde pergunta a Vorcaro se poderia marcar um encontro entre ele e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Pode, responde o banqueiro. Não se sabe o que foi conversado no encontro, mas, meses depois, o ex-ministro foi contratado como consultor do banco por 14 milhões de reais. Na mesma mensagem, o banqueiro cita o nome de José Amílcar Machado. O que precisa?, pergunta o advogado. Os dois fazem uma chamada de voz na qual Vorcaro, provavelmente, explica o que precisava. Warde garantiu que resolveria. O desembargador José Amílcar Machado, presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, havia suspendido o pagamento de 18 bilhões de reais de precatórios devidos a usinas de açúcar e álcool.
Cuidadosos, o advogado e o banqueiro não entravam em detalhes nas conversas que mantinham pelo aplicativo de mensagens. As partes mais sensíveis eram tratadas pessoalmente. Em abril de 2024, o Master patrocinou um fórum jurídico na Inglaterra e convidou uma extensa lista de autoridades. Vou conseguir tua audiência com o PR, promete o advogado, na sequência. A audiência só ocorreria nove meses depois.
Antes disso, Warde e o banqueiro se encontraram em Londres. Vorcaro estava no George Club, participando da famosa degustação de uísque com um grupo seleto de autoridades da República. Vem aqui. É importante. Todos os ministros aqui. Bem íntimo. Degustação Macalan. Corre, ordenou o banqueiro. De volta ao Brasil, já em setembro, Warde conta que se reuniu com Lula e tinha uma coisa muito importante para relatar. Você falou de mim?, pergunta Vorcaro. Claro, responde o advogado. Mais alguns dias depois, há um diálogo curioso entre a dupla. Você toparia ser AGU, perguntou o banqueiro. Claro, respondeu Warde. Dias depois, numa nova conversa, Vorcaro encaminha ao parceiro uma mensagem enigmática: Estou com uma chave pra garantir reeleição.

O encontro com Lula, como se sabe, aconteceu no dia 4 de dezembro. Abra o teu coração. Fale, ainda que elegantemente, mal do cara que quer te comprar, recomendou Warde. É a bala de prata, lembrou. Estavam presentes, além do banqueiro e do presidente, entre outros, o ex-ministro Guido Mantega, o CEO do Master, Augusto Lima, e o futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Soube que foi muito bom, escreveu Warde depois de encerrada a reunião. Me dizem que vcs são muito extravagantes, acrescentou. E fez piada: Isso porque ele não sabe das quengas. Logo depois, sugerindo que teria falado com alguém do Palácio, o advogado diz que iria à casa do banqueiro para dar um feedback da conversa com o homem.
Nos registros do Planalto consta que Warde esteve oito vezes no Palácio. A última visita teria sido em abril de 2024. Nas mensagens, porém, o advogado dá a entender que esteve outras vezes na sede do governo. No dia 22 de maio de 2024, ele escreve a Vorcaro informando que acabara de sair da sala do presidente: Ele me perguntou o teu e-mail, disse. Os encontros teriam continuado em 2025. Em 22 de janeiro, Warde conta que esteve com o PR. Ele perguntou se você estava bem e mais tranquilo e agradeceu mais uma vez o whisky, relatou o advogado. O cerco ao entorno do petista contava com outros personagens importantes. Warde perguntou a Vorcaro se podia marcar um almoço com Marco Aurélio Santana, o Marcola, chefe de gabinete do presidente Lula. E, sabe-se lá por quê, fez o seguinte elogio ao patrão: Você vai ser o homem mais rico do Brasil. Na sequência, informou que se encontraria com o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, apresentado como tutor de Gabriel Galípolo. Pensa que o próximo presidente do BC é pupilo do Belluzzo, ressaltou.
Belluzzo aparece nas mensagens como linha auxiliar das estratégias heterodoxas da dupla. No final de 2024, depois de um encontro com Warde, o professor ingressou com uma ação popular na Justiça que atendia aos interesses do Master. No celular de Vorcaro foi encontrado um comprovante de depósito bancário que sugere que Belluzzo recebeu 250000 reais pela colaboração. Warde, aliás, reclamou ao banqueiro de atraso nos pagamentos. Adiantei Belluzzo e Reinaldo, informou. Me ajuda por favor, implorou. O professor confirma que recebeu o dinheiro do advogado, mas garante que isso nada teve a ver com a ação na Justiça. O Vorcaro esteve aqui na minha casa, um pouco antes da intervenção extrajudicial, veio com um nheco-nheco, sugeriu que eu falasse com o Galípolo, mas eu disse que não faço lobby, diz o professor. O mesmo método foi usado na mesma época por outro conhecido colaborador do advogado do Master, o ministro Guilherme Boulos, atual chefe da Secretaria-Geral da Presidência. Warde e Boulos são amigos há décadas. Boulos impetrou uma ação no STF para limitar o pagamento de emendas parlamentares uma causa de grande interesse do governo.Eu tirei essa ação da cartola. Convenci o Boulos a ajuizar, confidencia o advogado. O banqueiro responde: Barba deve estar te amando. Barba é um dos apelidos do presidente Lula.
Se tudo que Warde escreveu encontrar amparo nos fatos, um diálogo ocorrido em março de 2025 pode criar embaraços ao presidente da República. O advogado encaminhou a Vorcaro uma mensagem recebida de um interlocutor. PR disse que topa receber o Vorcaro. Mas disse que dessa vez chamara tb o Jaques p participar (por causa do outro sócio), diz o texto. Jaques, provavelmente, é o senador Jaques Wagner (PT-BA), enrolado no escândalo do Master. Não há registro desse novo encontro. Em julho de 2025, Vorcaro tentava como última cartada vender o Master para o Banco de Brasília (BRB). A operação precisava de autorização do Banco Central. Galípolo acabou reunião agora. Inventou nova desculpa, reclamou o banqueiro. Esse cara é um merda. Avise o presidente amanhã e vamos para a guerra, respondeu Warde.
Através de um grupo denominado Amigos, na sequência Warde envia uma mensagem a Marcola. O Gabriel (Galípolo) não tem estofo pro cargo, diz. Avisa o chefe por favor. E ainda faz uma ameaça: Vai ser ruim irmão. Nós vamos quebrar tudo. E explica por quê: Ele pediu pra fazer a operação do BRB e está embarreirando. Temos prova de tudo. Marcola garantiu que a mensagem chegaria a Lula. No dia seguinte, Warde encaminha a Vorcaro a resposta que recebeu. O PR falou com o Guido ontem por telefone. Guido informou que está em Londres. PR disse que vai chamar assim que retornar. O Master foi liquidado três meses depois dessa mensagem, Vorcaro foi preso, Warde, que não quis se pronunciar a respeito da reportagem de VEJA, deixou a equipe de defesa do banqueiro no início do ano, quando o ex-cliente partiu para a tentativa de delação, e Marcola foi afastado do cargo depois de revelado que ele tinha contas pagas por uma lobista que fazia negócios com o filho do presidente.
Publicado em VEJA de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016
Fonte: veja.abril.com.br



