Após caso inédito, Justiça do Tennessee ainda decide se segue adiante com a execução em meio a apelos renovados pela abolição da pena de morte no país
Após sobreviver a duas doses de injeção letal, a americana Christa Pike, de 50 anos, está acordada, caminhando e, apesar da confusão mental, apresenta melhora no quadro clínico, informaram seus advogados nesta quinta-feira, 8. Condenada à pena de morte por assassinar uma colega em 1995, quando ambas tinham 18 anos, ela seria a primeira mulher executada no estado do Tennessee, nos Estados Unidos.
Após caso inédito, a Justiça ainda decide como prosseguir.
Um dos advogados de Christa, Randy Spivey, afirmou em entrevista à emissora britânica BBC que a mobilidade da cliente ainda é bastante limitada. “Ambos os braços e as mãos estão extremamente inchados, e não sabemos se ela recuperará alguma função nos braços”, disse ele.
A pedido da equipe de defesa, na quarta-feira 7 um tribunal ordenou que todas as provas relacionadas à execução fracassada fossem preservadas. Segundo Spivey, o material poderia servir de base para um futuro processo contra o estado do Tennessee.
O defensor, que estava na câmara de execução, classificou o procedimento, conduzido na semana passada, como “cruel e torturante”. Segundo ele, sete agulhas foram inseridas somente no braço esquerdo de Pike, “uma das quais parecia estar dobrada quando foi retirada de sua pele”.
Apelos pelo fim da pena de morte
O caso provocou críticas ao sistema de execução do Tennessee e reacendeu o debate sobre a pena de morte nos Estados Unidos.
Frank Strada, então responsável pelo sistema penitenciário estadual, deixou o cargo após o episódio — a equipe de defesa afirmou que esta foi a quinta execução mal sucedida ocorrida sob sua gestão em dois estados. Após o incidente envolvendo Pike, o governador do Tennessee, Bill Lee, suspendeu por lá todas as execuções restantes previstas para 2026.
Importantes especialistas no tema nos Estados Unidos avaliaram que a falha no procedimento representou uma violação tão grave da proibição de “punição cruel e incomum”, prevista pela Consituição americana, que todas as execuções judiciais precisariam ser paralisadas. Entre eles está Sandra Babcock, professora de direito na Universidade Cornell e consultora jurídica da equipe de Pike, que classificou o incidente como “inimaginavelmente bárbaro”.
“É preciso comutar a sentença de morte de Christa Pike por prisão perpétua”, defendeu ela em entrevista ao jornal britânico The Guardian.
Paradoxalmente, os pedidos por uma nova pausa nacional vêm justamente num momento de ápice a pressão para realizar execuções. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem instando reiteradamente os estados adeptos da pena capital e o Departamento de Justiça federal a acelerar os procedimentos, e suas ordens estão surtindo efeito. No ano passado, o país registrou o maior número de execuções em 16 anos: 47, distribuídas por 12 estados.
O crime
Pike foi condenada à morte pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos, em 1995. As duas eram colegas no programa Knoxville Job Corps. Segundo os promotores, Pike suspeitava que Slemmer estivesse interessada em seu namorado, Tadaryl Shipp, que tinha 17 anos à época.
De acordo com a acusação, Pike e Shipp levaram Slemmer para uma área arborizada próxima ao campus agrícola da Universidade do Tennessee, onde a jovem foi torturada e morta. Pike nunca negou participação no crime. Shipp foi condenado por homicídio em primeiro grau, em 1997, e recebeu prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional.
Ao longo dos anos, Pike foi diagnosticada com transtorno bipolar e transtorno de estresse pós-traumático. A defesa também apresentou relatos de que ela sofreu abusos durante a infância, incluindo estupros e agressões físicas.
O caso de grande repercussão chegou a ser contestado por especialistas em direitos humanos devido à idade de Pike na época do crime, ao seu histórico como vítima de abuso e a potenciais doenças mentais não tratadas. Na era moderna da pena de morte, após 1976, o Tennessee nunca executou alguém que tivesse apenas 18 anos na época do delito.
Pike passou quase três décadas no corredor da morte, muitas delas em confinamento solitário. A equipe jurídica continua pedindo ao governador do Tennessee que transforme sua pena em prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
Fonte: veja.abril.com.br