Vendas brasileiras ao mercado americano recuam, e mudanças nas tarifas dificultam o planejamento das empresas
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira, 3, colocam em disputa o controle do Congresso e o futuro da agenda de Donald Trump (Partido Republicano). Para o Brasil, quase dois anos de governo deixaram uma relação comercial marcada por novas tarifas e mudanças frequentes nas regras de acesso ao mercado americano. Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações brasileiras ao país caíram 6,5%, enquanto as vendas totais ao exterior cresceram 10,4%.
A relação comercial passou a ser condicionada por sucessivas mudanças nas tarifas, com efeitos distintos entre produtos e setores. Para os exportadores, o custo adicional de entrar nos Estados Unidos se somou à dificuldade de prever quais regras valeriam na negociação seguinte.
Os quase dois anos de Trump mostram que o protecionismo americano trouxe mais incertezas do que benefícios econômicos consistentes, afirma Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
O recuo começou em 2025, quando os embarques brasileiros ao país somaram US$ 37,7 bilhões, abaixo do recorde de US$ 40,4 bilhões registrado em 2024, antes do atual mandato. A trajetória, porém, não foi uniforme. Em setembro deste ano, as vendas avançaram 31,9% sobre o mesmo mês de 2025, para US$ 3,52 bilhões, uma recuperação que ainda não compensou as perdas acumuladas nos meses anteriores.
A queda de uma tarifa não encerrou as barreiras
A derrubada das tarifas baseadas em poderes econômicos emergenciais pela Suprema Corte americana, em fevereiro, não significou uma volta às condições anteriores ao governo Trump. Washington recorreu a outros instrumentos legais para manter sua política de proteção comercial.
Em julho, entraram em vigor duas medidas que atingiram produtos brasileiros. Uma estabeleceu sobretaxa de 25% após uma investigação específica sobre práticas comerciais do Brasil. A outra impôs adicional de 12,5%, sob a alegação americana de insuficiência dos mecanismos de combate ao trabalho forçado nas cadeias de fornecimento. Quando incidem sobre a mesma mercadoria, as duas cobranças somam 37,5%, além da tarifa ordinária de importação.
Máquinas e equipamentos, calçados, móveis e confecções estão entre os produtos sujeitos à combinação. Café, carnes, aeronaves e suco de laranja ficaram fora dessas sobretaxas. Há ainda regras setoriais próprias, aplicáveis a mercadorias como aço e alumínio. Por isso, a carga adicional depende da classificação de cada produto.
O governo americano justificou a investigação específica contra o Brasil com críticas a políticas de comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual e acesso ao mercado de etanol, entre outros pontos. O Brasil contestou as duas medidas na Organização Mundial do Comércio, com pedido de consultas distribuído aos membros em 30 de julho.
Um mercado que já favorecia os americanos
O curioso é que os Estados Unidos já vendem mais mercadorias para o Brasil do que compram de nós, afirma Thiago Secco, sócio da Friggi & Secco.
Entre janeiro e setembro, o saldo bilateral foi negativo para o Brasil em US$ 4,33 bilhões. A soma das exportações e importações, chamada corrente de comércio, caiu 6,8%, para US$ 59,26 bilhões. O enfraquecimento das trocas, portanto, atingiu os dois lados.
A tarifa é recolhida pelo importador nos Estados Unidos, mas seus efeitos podem ser distribuídos ao longo da cadeia. O comprador americano pode repassar o custo ao consumidor, exigir desconto do fornecedor brasileiro ou procurar uma alternativa em outro país. Para quem exporta, isso pode significar redução de margem ou perda de pedidos.
O contraste entre o desempenho das vendas aos Estados Unidos e o crescimento das exportações totais brasileiras também exige uma distinção. O avanço em outros destinos ajuda o resultado nacional, mas não garante compensação para cada empresa atingida. Um fabricante que perde um cliente americano precisa encontrar outro comprador, atender às exigências daquele mercado e negociar novas condições comerciais.
O efeito vai além das exportações
A política econômica americana também alcança o Brasil pelo mercado financeiro. A inflação dos Estados Unidos acumulou alta de 3,7% nos 12 meses até setembro. O Federal Reserve, banco central do país, elevou os juros naquele mês e manteve a taxa entre 3,75% e 4% ao ano na reunião de outubro.
O impacto indireto também pesa: juros americanos mais altos tornam o dinheiro mais caro no mundo todo e reduzem o apetite por países emergentes, o que pressiona o dólar e dificulta a queda da Selic aqui, afirma André Matos, CEO da MA7 Capital.
As contas públicas dos Estados Unidos acrescentam outra fonte de pressão. A dívida bruta ultrapassou US$ 40 trilhões, e o déficit do ano fiscal de 2026 ficou próximo de US$ 2 trilhões. Para financiar a diferença entre receitas e despesas, o Tesouro americano precisa recorrer à emissão de títulos.
Ao mesmo tempo, o crescimento da dívida americana mantém os juros de longo prazo pressionados, com consequências para o dólar e o custo do crédito mundial, afirma Lima.
Negociação produto a produto
O tratamento diferente entre mercadorias torna a negociação comercial mais específica. A retirada de um produto de determinada lista pode preservar contratos de um setor sem alterar a situação de outro. Da mesma forma, uma decisão judicial contra uma modalidade de tarifa não impede a adoção de novas barreiras com outro fundamento legal.
Para as empresas, o desafio envolve tanto o acesso ao mercado quanto a decisão de investir em capacidade produtiva para atendê-lo. Mudanças frequentes nas condições de entrada dificultam estimar preços, retorno e duração dos contratos.
A lição desse período é que o Brasil precisa diversificar mercados e negociar caso a caso, porque a política comercial americana mudou de forma duradoura e não deve voltar ao que era antes, afirma Matos.
Fonte: veja.abril.com.br