Bonitos, bem-falantes, de esquerda e com origem em países muçulmanos, são candidatos fortes a seguir passos da pioneira deputada Ilhan Omar
Quem sai de um país falido como a Somália e consegue sucesso nos Estados Unidos deveria beijar o solo americano, certo? Não é o que acontece com a deputada Ilhan Omar, filmada em diversas ocasiões dizendo que seu sonho é voltar para a Somália e que este país merece o primeiro lugar em seu coração e pelo qual faria tudo.
Talvez ela consiga realizar o sonho, de maneira controvertida. O governo de Donald Trump está empenhado em descobrir algum motivo para cassar a cidadania da deputada democrata. Há dois caminhos a seguir. Um é a complicada acusação de que ela se casou com o próprio irmão para facilitar a ida dele aos Estados Unidos. Segundo essa tese, Ilhan chegou a se divorciar do primeiro marido para conseguir o objetivo e, depois, voltou a se casar com ele (hoje, está casada com um terceiro, um americano branco, e tem um labrador chamado Teddy, indicando talvez que se acomodou com a pátria adotiva).
O outro caminho é comprovar que ela mentiu sobre a data de nascimento, diminuindo-a para permitir que, como menor, entrasse automaticamente no processo de cidadania do pai. É essa a via atualmente seguida pela investigação do Departamento de Justiça, uma óbvia concessão a Donald Trump, que vive falando mal de Ilhan. Mesmo quem não simpatiza com as ideias dela discorda do que parece uma perseguição política.
Ainda está por ser comprovado se Ilhan Omar, a primeira mulher a usar o hijab, o lenço muçulmano na cabeça, no Congresso, fraudou o sistema de imigração e se qualifica para ter a cidadania cassada. Mas um processo desse tipo seria escandaloso e, em última instância, prejudicial para o governo.
Se a suspeita não for comprovada, Trump corre o risco de continuar a ser vaiado por ela, como aconteceu no último discurso do Estado da Nação, o pronunciamento anual perante o Congresso. No próximo Congresso, ela também teria a bancada muçulmana reforçada por candidatos bem cotados na atual campanha. O mais conhecido deles é Abdul El-Sayed, médico de origem egípcia que pode se tornar senador pelo estado de Michigan.
NOVO FENÔMENO
Como Ilhan Omar, ele fala extraordinariamente bem, um sinal de sucesso de uma educação à americana. E tem bela aparência, provocando suspiros nas eleitoras brancas pela aura de masculinidade.
Nessa esfera, coincide com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, o homem que aos 34 anos comanda o coração mundial do capitalismo com uma cabeça de esquerda e um histórico exótico (é filho de indianos muçulmanos que imigraram para Uganda e, de lá, para os Estados Unidos).
O sucesso de Mamdani numa eleição majoritária é um guia para o novo fenômeno dos descendentes de imigrantes que execram o sistema onde conseguiram tanto sucesso e exaltam as virtudes do socialismo. Mesmo quando conhecem os desastres de esquerda, como no caso de Meilat Kiros, candidata a deputada pelo Colorado. Venho de uma longa geração de socialistas e radicais negros, diz a candidata, que nasceu na Etiópia e foi ainda bebê com os pais para os Estados Unidos.
A Etiópia sofreu na carne uma das piores experiências comunistas da história, entre 1974 e 1991. Além de uma vasta perseguição de rivais políticos chamada Terror Vermelho, a coletivização da agricultura provocou uma epidemia de fome de grandes proporções e até hoje o país continua miserável, com um PIB per capita em torno de mil dólares.
Os jovens políticos com origem em países como Uganda, Etiópia e Somália deveriam enriquecer o debate, diversificar o ambiente e, sim, ser um orgulho para a forma como a América acolhe os imigrantes e dá oportunidades impensáveis em tantos outros lugares. Não é o que acontece, mas o sistema pode provar que é mais forte e, no fim, absorver os críticos. Talvez o labrador de Ilhan Omar seja a prova disso. Quem tem um cachorro desses não pode achar que a vida no país adotivo seja tão ruim assim.
Fonte: veja.abril.com.br