Produção desafia a celeridade do mercado de animações e aposta em uma trama sofisticada, de duração longa e encantadora
Uma garota passeia com o irmãozinho quando um bando de corvos sequestra o menino e voa com ele rumo a uma floresta sombria. Ela, então, parte em seu encalço, descobrindo um mundo mágico, com seres encantados e perigos diversos. Assim começa a aventura da protagonista Prue no filme O Bosque Selvagem (Wildwood, Estados Unidos/ Reino Unido/ Canadá, 2026), em cartaz nos cinemas. Baseado no livro infantojuvenil do músico americano Colin Meloy, o roteiro da produção é singelo e envolvente já seu visual é nada menos que deslumbrante e inovador.
Feita em stop-motion em que bonecos e cenários reais são movidos, quadro a quadro, para a criação das cenas , a novidade do incensado estúdio Laika, especialista na técnica, custou 100 milhões de dólares e conta com duas horas e dez minutos de duração. É a maior e mais cara animação do estilo. Os bastidores da produção são hercúleos: foram dezesseis anos de desenvolvimento, 233 marionetes, 132 cenários feitos a mão e mais de 1000 profissionais envolvidos. Nosso time é formado por um grupo excepcional de pessoas, afirma o diretor Travis Knight, também CEO da Laika, nome por trás de sucessos como Coraline (2009) e Kubo e as Cordas Mágicas (2016). Temos especialistas em tecnologia, artesãos, cientistas e pessoas com mentes brilhantes, quase como as da Nasa. São, principalmente, pessoas com muita paciência: para ter cinco segundos de filme, era necessário uma semana de trabalho.

Em tempos de agilidade desenfreada tanto narrativa, com filmes ávidos por prender a atenção de um público hiperconectado, quanto na necessidade de fazer mais com menos e cada vez mais rápido , o stop-motion se impõe como uma arte de resistência. Enquanto os estúdios de animação que lideram o mercado, Pixar e DreamWorks, lançam de dois a três filmes por ano, a Laika fez apenas seis animações em seus 21 anos de existência. O stop-motion não é a maneira mais óbvia ou fácil de fazer um filme, mas é a que melhor transmite significado, entende Knight. Para ele, todo processo de criação deixa marcas em uma obra artística. São milhares de decisões criativas que formam um acúmulo de gestos de amor, de dedicação e de esforço que se refletem no filme. O cineasta e empresário é, também, um ávido crítico do uso de inteligência artificial no cinema. A tecnologia não é útil quando toma o lugar do artista, afirma.
Seguindo a lógica de que a pressa é inimiga da perfeição, o estúdio vem aprimorando técnicas e ferramentas para deixar o stop-motion mais elaborado e imersivo. O Bosque Selvagem se apresenta como o auge dessa lapidação: o burburinho no meio diz que, finalmente, a Laika deve conquistar seu primeiro Oscar no ano que vem. A paciência pode render muitos frutos.
Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019
Fonte: veja.abril.com.br