Canal de WhatsApp comandado pelo deputado federal, foi fator crucial para o presidente ganhar mais de 10 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno
Uma das faces mais marcantes da virada inédita que levou Lula à reeleição no último domingo, 25, é o deputado federal André Janones (Rede-MG). O parlamentar vestiu o uniforme de general de um exército digital de militantes cuja força extrapolou as fronteiras da interação virtual e manteve um canal de retroalimentação com as mobilizações populares nas ruas organizadas por movimentos estudantis em apoio ao líder petista. Foi esse um dos principais fatores para que, entre o primeiro e o segundo turno, o candidato vitorioso ganhasse impressionantes 10,4 milhões de votos, com reduções históricas das abstenções e dos votos brancos e nulos.
Já faz muitos anos desde que, para identificar quais sinais presentes nas redes sociais serviriam para produzir votos nas urnas, o CEO da Quaest Consultoria, Felipe Nunes, desenvolveu o Índice de Popularidade Digital (IPD). Construído a partir de 175 variáveis, o algoritmo por trás dele mede a fama, o engajamento, a mobilização, a valência e o interesse provocados por candidatos em sete plataformas digitais Facebook, Instagram, X (antigo Twitter), TikTok, Wikipédia, Google e YouTube.
Quanto maior a nota para cada dimensão, mais cresce o índice geral. Os dados produzidos pela ferramenta ajudam a explicar a importância da guerrilha digital comandada por Janones. No dia do primeiro turno, Flávio Bolsonaro marcava 80 pontos no IPD, contra 70,7 de Lula. Nas urnas, o senador chegou à frente, com uma vantagem de 2,2 milhões de votos.
Nos quatro dias seguintes, quando o general recebeu carta branca para comandar a estratégia do petista nas redes e turbinar a distribuição de missões no canal de WhatsApp Exército do Lula, a popularidade digital do presidente saltou 12,6 pontos, para 83,3, ultrapassando o rival, cujo índice somava 80,4 pontos àquela altura.
Depois daquela virada, Lula não perdeu mais a dianteira para o Zero Um na medição da Quaest, e chegou à véspera do segundo turno com 82,7 pontos, contra 76,2 do candidato do PL, que acabaria derrotado na eleição presidencial por uma margem de 4,4 milhões de votos.
Para Felipe Nunes, o general do exército digital teve um papel fundamental no resultado da eleição ao assumir a coordenação da mobilização de eleitores da esquerda que, segundo o cientista político, deixou-se coordenar pela primeira vez no segundo turno de 2026 como fruto do desespero que a dianteira de Flávio na rodada inicial havia despertado. O vale-tudo de Lula nos gastos públicos melhorou a avaliação do governo, neutralizando críticas dirigidas principalmente ao custo de vida, e o medo da volta da família Bolsonaro transformou-se no principal argumento de Janones.
A mobilização de rua da esquerda aconteceu simultaneamente nas redes, especialmente pelo engajamento coordenado pelo Janones, afirma o CEO da Quaest. Até ali, esse campo se movimentava de forma dispersa, entre diferentes lideranças. Nunca tinha, portanto, conseguido a atuação coordenada nas redes observada na campanha vitoriosa de Jair Bolsonaro em 2018, em que o núcleo digital do capitão reformado tomou conta da pauta nas plataformas. Nesse universo, quem controla os temas das interações consegue a atenção dos usuários. Em um mundo hiperconectado por um sem-número de estímulos ininterruptos, nada é mais caro e nem mais difícil de conseguir do que a atenção das pessoas, ressalta Nunes.
Fonte: veja.abril.com.br