Precedente de deputado bolsonarista cassado por fake news paira como alerta constante para a campanha do petista
É como se fosse uma tropa sem general. É assim que a campanha do presidente Lula à reeleição quer agora enquadrar o grupo de WhatsApp Exército de Lula, coordenado pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) e que nos últimos dias virou alvo de uma disputa de decisões entre ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Depois de formalizar a inclusão do grupo, que hoje reúne mais de 5 milhões de inscritos, no registro de candidatura da chapa formada pelo petista e pelo vice Geraldo Alckmin, o presidente nacional do PT Edinho Silva anunciou que pediria judicialmente que o Exército de Lula não fosse mais associado a… Lula. Na sexta-feira, 16, o presidente do TSE Kassio Nunes Marques atendeu o pedido.
Desvincular o grupo do cabeça de chapa é estratégico para evitar nova dor de cabeça na justiça e mais importante o risco de o presidente ter se responder a processos futuros na Corte Eleitoral. Se o canal for responsabilizado em momentos posteriores por propagação de fake news, tema que, em tese, é passível de cassação, a sanção recairia sobre a coligação e, claro, sobre o presidente. “Não se trata de estrutura oficial de campanha (…) O administrador passou a usá-lo para manifestar apoio à candidatura presidencial, sem que a campanha tenha ingerência sobre o que nele é veiculado”, alegou a coligação do petista à Justiça Eleitoral.
O receio tem como pano de fundo uma decisão do TSE de 2021. Naquela época, o tribunal cassou o mandato do deputado estadual eleito Fernando Francischini, expoente do bolsonarismo, depois que o parlamentar gravou uma live com acusações infundadas contra a Justiça Eleitoral. No dia da eleição de 2018, ele foi às redes sociais anunciar que as urnas eletrônicas impediam o voto para Jair Bolsonaro no cargo de presidente.
Na verdade, os erros detectados na ocasião partiram dos próprios eleitores, que digitaram o número 17, utilizado por Bolsonaro, para o cargo de governador do Paraná, e não no momento que a urna abria espaço para a escolha do político que concorria à Presidência da República. Desde então, o caso Francischini é utilizado por ministros do TSE e campanhas mais precavidas para evitar riscos desnecessários.
O canal de WhatsApp Exército de Lula protagonizou a mais recente disputa de forças dentro do TSE e foi tirado de circulação pela primeira vez no último fim de semana por ordem do ministro Nunes Marques sobre a alegação de que era um difusor de fake news. Na sequência, foi devolvido à atividade pelo corregedor-eleitoral Ricardo Villas Boas Cueva, responsável por uma investigação eleitoral que, no limite, pode cassar o registro da candidatura do petista.
Tempos depois, o canal foi novamente suspenso por Nunes Marques e por fim autorizado mais uma vez pelo próprio chefe da Justiça Eleitoral após ele se registrar formalmente na Justiça Eleitoral. Uma coisa é você punir fake news, outra coisa é você impedir, coibir que a sociedade se organize por meio das redes sociais, afirmou Edinho Silva.
O vaivém de decisões conflitantes sobre o destino do grupo pró-Lula e discussões sobre o conteúdo das informações que o eleitor pode acessar se tornaram uma tônica na corrida presidencial de 2026. Com o desalento do eleitor para debates mais tradicionais, é na guerrilha digital que Lula e o senador Flávio Bolsonaro investem na reta final da disputa.
Em tese, a mobilização virtual ajuda a diminuir os índices de abstenção que a campanha lulista quer combater. A abstenção no primeiro turno, aliás, chegou a mais de 21%, o que representa mais de 33 milhões de brasileiros que simplesmente não compareceram às urnas no dia da votação.
Fonte: veja.abril.com.br