'Onda azul' varreu o país de ponta a ponta, inclusive em antigos redutos republicanos
Os democratas retomaram o controle de ambas as casas do Congresso dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato de terça-feira 3, segundo projeções da Associated Press. As eleições de meio de mandato canalizaram a frustração dos americanos com a alta dos preços, a guerra no Irã e as suspeitas de corrupção no governo Donald Trump, levando a derrotas republicanas nos principais estados-chave, inclusive em antigos redutos.
No Senado, os republicanos detinham uma maioria de 53 a 47 antes das chamadas midterms, e os democratas precisavam de um ganho líquido de quatro cadeiras para assumir o controle. Até o início da manhã desta quarta-feira, 4, as projeções mostravam uma virada de ao menos sete assentos, levando os democratas a uma maioria parcial de 54 a 44 antes mesmo das apurações terminarem.
Confira os estados-chave que contribuíram para a chamada “onda azul” nos Estados Unidos.
Texas
Um histórico reduto republicano, o estado foi considerado um “swing state” (estado pendular) neste ano. Lá, o democrata James Talarico, um parlamentar estadual e seminarista evangélico, derrotou Mike Rogers, aliado de Trump, por 55% a 43% dos votos, segundo projeções.
Talarico foi o primeiro democrata eleito senador pelo Texas em 38 anos. O seminarista fez de sua fé o motor de críticas severas às políticas anti-imigração, pregou a “política do amor” e popularizou o mantra que marcou sua campanha por todo o estado: “A verdadeira divisão nos Estados Unidos não é entre esquerda e direita, mas entre os de cima e os de baixo”, disparou comício após comício, mirando os bilionários.
Kansas
Pela primeira vez em 94 anos, o estado tradicionalmente republicano elegeu um senador democrata. Adam Hamilton derrotou o senador Roger Marshal por 51% a 46% dos votos, indicam as projeções.
Hamilton, um pastor metodista que lidera a maior igreja da religião no estado e concorreu pela primeira vez a um cargo eletivo, defendeu durante a campanha o fim da polarização política em Washington.
“Isso não é uma questão de republicanos ou democratas. É uma questão de decência humana”, afirmou o candidato.
Em 2024, Trump havia vencido a corrida presidencial no Kansas com uma vantagem de 16 sobre a democrata Kamala Harris
Iowa
Com 51% a 46% dos votos, Josh Turek conquistou a vaga da republicana Ashley Hinson e levou, na madrugada desta quarta, os democratas à maioria do Senado, com 51 cadeiras.
Nascido com espinha bífida, Turek usa cadeira de rodas e ganhou duas medalhas de ouro paralímpicas no basquete em cadeira de rodas. Ele viralizou nos últimos dias com vídeos jogando basquete com o ex-presidente Barack Obama, e baseou a campanha em bandeiras como o combate à corrupção e o alto preço dos alimentos e combustíveis. O candidato foi o primeiro democrata eleito senador no estado desde 2008.
Ohio
O estado votou no presidente Donald Trump nas três últimas eleições presidenciais, atraindo seus eleitores brancos da classe trabalhadora.
Em uma virada democrata, Sherrod Brown levou a melhor contra o republicano Jon Husted no Senado. Além disso, o partido conquistou o governo do estado: Amy Acton derrotou o republicano Vivek Ramaswamy, segundo projeções, tornando-se a primeira mulher eleita governadora de Ohio.
Os eleitores de Ohio foram particularmente afetados pelas políticas impopulares de Trump, as quais, de modo geral, influenciaram as midterms a favor dos democratas.
O estado com forte base agrícola assistiu com irritação os preços dos fertilizantes dispararem devido à guerra no Irã; o tarifaço do presidente americano também não cumpriu a promessa de revitalizar a indústria local Ohio faz parte do chamado “cinturão da ferrugem”, que foi o maior coração industrial do país até os anos 1970, quando começou um forte declínio econômico na região. Além disso, as deportações em massa promovidas pelo governo Trump também não se traduziram em geração de empregos.
Carolina do Sul
No leste do país, o estado tem tradição conservadora e republicana, mas a candidata democrata Annie Andrews conseguiu derrotar a adversária Darline Graham na disputa pelo Senado.
Irmã do senador Lindsay Graham, falecido em julho, Darline não conseguiu traduzir a popularidade do sobrenome em votos.
Michigan
Abdul El-Sayed, o jovem médico que faz parte da ala mais progressista do Partido Democrata, derrotou o ex-congressista republicano Mike Rogers para tornar-se o primeiro muçulmano no Senado dos Estados Unidos. Embora o Michigan estivesse sob controle democrata (o senador Gary Peters, que ocupa o cargo desde 2015, anunciou sua aposentadoria), o estado era considerado um swing state.
Apesar da democrata Haley Stevens, que foi derrotada nas primárias de seu partido por El-Sayed, ter declarado apoio a Rogers em uma reviravolta surpreendente, a força do médico se traduziu nas urnas. Sua principal proposta é o “Medicare for All”, ou seja, a expansão para todos os americanos do sistema de saúde atualmente voltado a idosos e pessoas com deficiência.
Maine
O democrata Troy Jackson frustrou a tentativa de reeleição da senadora republicana Susan Collins, com 54% a 46% dos votos, segundo projeções.
A disputa foi marcada por turbulências logo no início, depois que o então candidato democrata, Graham Platner, retirou sua candidatura na sequência de uma série de controvérsias que culminaram em uma acusação de agressão sexual e estupro, a qual ele negou.
No entanto, Jackson conseguiu apresentar-se como a alternativa da classe trabalhadora às três décadas de Collins em Washington, argumentando que a reputação pragmática da republicana mascara um histórico de votações que, no fim das contas, beneficiou Trump.
Fonte: veja.abril.com.br