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Queimaduras, terror psicológico e salários atrasados em data centers na Europa

Investigação revela realidade dos trabalhadores nos centros de desenvolvimento de infraestrutura de IA na Europa

Sandu Dumitrescu* olhou para o relógio. Ele estava terminando os últimos 15 minutos de seu turno em uma obra de data center do Google em Saint Ghislain, Bélgica, em março, quando recebeu uma ligação. Tinha acabado de realizar verificações elétricas nos ventiladores do hall quando seu gerente comunicou um pedido final: fazer dois testes rápidos antes de sair.

O funcionário de 34 anos já havia trabalhado quase 10 horas. No ambiente altamente pressurizado de GBL-6, o sexto data center Google em um vasto campus avaliado em 5 bilhões de euros, pedidos de última hora como esse eram normais.

“Eu não tinha escolha”, diz Sandu. “Pessoas foram demitidas por dizer não.” Ele acreditava que os supervisores no local, da empresa irlandesa Dornan Engineering, não aceitariam bem uma recusa. Como ele dependia de seu contrato semanal, e tinha esperanças de conseguir ligar para sua esposa e filho pequeno na Romênia naquela noite, decidiu executar o trabalho.

Era uma tarefa que ele havia feito muitas vezes antes e envolvia uma série de testes para medir a segurança e integridade da fiação elétrica. Era para ter levado cerca de uma hora. Sandu diz que o pedido lhe foi feito verbalmente, por um intermediário. Um traje protetor estava guardado em uma sala de equipamentos. Ir ao ocal para buscá-lo teria adicionado mais 15 minutos ao trabalho, diz ele, e havia pessoas esperando. Na pressa, Sandu decidiu não ir pegar o traje.

Na sala de tensão, Sandu diz que os gerentes confirmaram que as linhas haviam sido desenergizadas. Na primeira rodada, tudo correu conforme o planejado. Mas, no segundo teste, enquanto segurava uma pinça isolada, ele conectou os cabos. Mas desta vez, os cabos de energia estavam ligados.

A explosão foi imediata e catastrófica. Em milissegundos, 400 volts e 12 mil amperes atingiram o rosto de Sandu e atravessaram o lado direito de seu corpo. Um colega que estava embaixo da plataforma e presenciou o incidente contou à Investigate Europe ter “ouvido um barulho alto, muita fumaça e o visto [Sandu] gritando de dor”.

“Fiquei completamente cego”, relembra Sandu. “Disse aos gerentes três vezes que não conseguia enxergar. Mas nenhum deles respondeu, diz ele. De acordo com a testemunha que procurou ajuda enquanto desembaraçava Sandu dos cabos com seu corpo queimado os gerentes fugiram, ao passo que Sandu se contorcia de dor no chão.

Trabalhadores se apressaram para levar Sandu para a ambulância. Quando os médicos o receberam no Grand Hôpital de Charleroi, ele foi colocado em coma induzido por cinco dias.

Registros hospitalares acessados pela Investigate Europe mostram que o choque havia queimado 12% do corpo de Sandu, com queimaduras de segundo grau no rosto e pescoço, além de queimaduras de terceiro grau no ombro direito e nos dedos. Fotografias mostram orelhas queimadas e lábios inchados e em carne viva, com o braço cheio de hematomas e pele coagulada.

Quando Sandu acordou na unidade de tratamento intensivo uma semana depois da cirurgia, sua mulher estava à beira de sua cama. Ele diz que todo o seu corpo parecia uma “bolha branca e escaldante Era tanta dor. O coração humano não consegue compreender”, relembra.

Dois dias após acordar do coma, representantes do Google, da irlandesa Dornan e de uma agência de recrutamento holandesa, a Wanted, vieram visitá-lo. Sandu diz que enquanto estava deitado em uma maca de hospital, enfaixado, Google e Dornan tomaram declarações dele sobre o acidente. Segundo Sandu, o funcionário do Google lhe disse que tinha sorte de estar vivo.

A descarga elétrica sofrida por Sandu foi brutal e assustadora. Até hoje, porém, não há registro de nenhuma multa ou sanção pelo incidente. Inspetores federais do trabalho na Bélgica encerraram sua investigação sobre o acidente no final de outubro e não encontraram irregularidades. Sandu diz que nunca foi entrevistado diretamente pelas autoridades trabalhistas.

Apesar de ter pedido o relatório sobre seu acidente à Wanted e ao Google, ele ainda não recebeu o documento. Um mês após o acidente, o recrutador enviou uma mensagem a Sandu perguntando como estava. E perguntaram: “[A empresa] está recrutando mais testadores (talvez você conheça pessoas?)”.

Um porta-voz do Google disse à Investigate Europe: “Nosso código de conduta de fornecedores e contratos exigem que todos os fornecedores cumpram as leis trabalhistas locais e mantenham condições de trabalho seguras e saudáveis. Mantemos diálogo ativo com líderes sindicais e grupos comerciais, e estamos comprometidos em fornecer informações transparentes sobre nosso local de trabalho.”

A Dornan informou ter apoiado autoridades belgas na investigação do caso. “Ficamos profundamente preocupados com esse incidente e apoiamos o indivíduo e sua família ao longo de sua recuperação. Estamos comprometidos em manter condições de trabalho seguras, cumprir as leis trabalhistas aplicáveis e aprender continuamente para ajudar a prevenir incidentes como este no futuro”, disse um porta-voz da empresa. 

Já a Wanted, agência de recrutamento holandesa, disse: “Como empregador, podemos, devemos e seremos fiscalizados pelas autoridades competentes. Embora concordemos que a liberdade de expressão e imprensa é um grande ativo, não podemos comentar sobre o conteúdo além do fato de que suas declarações ou alegações não estão corretas.”

Uma investigação de cinco meses liderada pela Investigate Europe, com organizações de jornalismo parceiras em nove países, sobre as condições de trabalho em data centers na Suécia, Noruega, Bélgica e Holanda revela que o caso de Sandu está longe de ser único.

Em entrevistas com trabalhadores imigrantes em locais emblemáticos onde grandes empresas de tecnologia dos EUA estão operando, repórteres encontraram evidências de lesões debilitantes, condições de vida precárias, um surto de doença não relatado, salários não pagos e práticas exploratórias de emprego.

Trabalhadores de projeto de grande porte da Microsoft descreveram uma cultura de medo e intimidação, na qual gerentes de construção “governam pelo terror mental”. Os testemunhos são apoiados por dezenas de registros médicos, recibos de salário, mensagens de telefone, fotografias e vídeos compartilhados com repórteres.

A investigação encontrou um padrão recorrente no qual empresas de tecnologia e muitos de seus parceiros de construção irlandeses incorporam práticas de trabalho no estilo norte-americano, frequentemente indo contra as normas de trabalho nos países onde estão.

Na Itália, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Bélgica, Holanda e Noruega, sindicatos disseram aos repórteres que tiveram dificuldade em acessar certas localidades para falar com trabalhadores e documentar condições. Um representante sindical na Dinamarca disse que alguns complexos de data centers são “mais fechados que uma prisão estatal”.

A indústria europeia de data centers está passando por um surto de infraestrutura que o continente não via há décadas, enviando dezenas de milhares de trabalhadores imigrantes para tornar realidade sua visão de soberania tecnológica.

Acordo às duas da manhã e consigo ouvir ratos comendo, se movimentando nas paredes. Esta casa está cheia de ratos.”
Trabalhador romeno em um projeto de data center da Microsoft na Suécia

Um local de construção de data center pode ter até 2 mil trabalhadores e dezenas de funcionários subcontratados. Há uma estimativa de que 250 mil pessoas trabalhem em localidades desse tipo na Europa todos os dias.

A indústria é marcada por grandes orçamentos e sigilos ainda maiores. Empresas de construção geralmente são obrigadas a manter seu cliente de tecnologia em segredo, enquanto terceirizados e intermediários também são tipicamente mantidos fora de vista.

Ao mesmo tempo, o setor de construção continua sendo o setor econômico mais perigoso da União Europeia (UE). De acordo com os dados mais recentes da Eurostat, agência oficial de estatística da UE, o setor registrou 776 mortes em 2024, representando quase um quarto de todos os acidentes de trabalho fatais na Europa.

Até 2030, a indústria prevê 100 bilhões de euros em investimentos em data centers europeus. Com mais de 2.300 instalações alterando rapidamente a paisagem física e energética da Europa, e centenas de unidades planejadas ou em construção, as prioridades da indústria parecem bem claras: onde construir, com que velocidade construir e quais empresas estão dispostas a construir com orçamento reduzido.

“Obrigado por trabalhar com segurança”

“Eu acordo às duas da manhã e consigo ouvir ratos comendo, se movimentando nas paredes. Esta casa está cheia de ratos. Quando coloco pizza no forno, eles estão correndo nas paredes perto de mim”, diz Adrian*, um trabalhador de 45 anos em uma obra de data center da Microsoft perto de Gävle, na Suécia.

Um vídeo que Adrian compartilhou com Investigate Europe mostra um rato grande correndo por um corredor e entrando em uma sala de armazenamento elétrico. Em uma série de mensagens de texto enviadas em agosto, Adrian suplicou ao gerente de alojamento para se livrar deles. A resposta volta: “Irmão, entendo. Mas preciso esperar que outras empresas venham e os removam, não consigo entrar sozinho e simplesmente puxá-los das paredes”

A noroeste de Gävle, uma cidade a duas horas de Estocolmo, passando por casarões de madeira e uma densa floresta de pinheiros, uma placa aponta para uma estrada suave construída especificamente para a Microsoft. A clareira remota é parte de um plano de expansão de 130 hectares a um custo de 3 bilhões de euros iniciado em junho de 2024, para expandir a infraestrutura de um data center de IA da Microsoft no país.

Placas que indicam a presença da Collen Construction estão alinhadas na entrada, com estandartes pendurados ao redor de grande perímetro. A Collen está entre as muitas empreiteiras irlandesas supervisionando construções de data centers no continente. Contratados por Big Techs para entregar projetos em um cronograma rigoroso, esses projetos englobam muitas empresas.

À distância, para além da cerca de segurança, um prédio imenso, parecido com um aeroporto, aparece na paisagem. Em primeiro plano, uma catraca vermelha brilhante recebe trabalhadores em letras brancas: “Obrigado por trabalhar com segurança”.

Um dos subempreiteiros da Collen, a empresa de construção irlandesa Benbau, emprega centenas de trabalhadores na Europa, incluindo na Suécia, em tarefas como gerenciamento de obras, concreto e carpintaria. Os trabalhadores estão alojados a 20 minutos do local de trabalho em moradias modulares, gerenciadas pela Benbau.

Por meses, Adrian e seus colegas trabalhando para Benbau sentiram crescente indignação. Eles denunciaram infestações de pragas, sistemas de ventilação quebrados e falta de aquecimento durante o inverno congelante da Suécia. Alegam que os problemas permanecem sem solução.

Um trabalhador romeno de 50 anos, diabético, compartilhou imagens dos dedos dos pés que perderam circulação após vestir botas de trabalho de má qualidade providenciadas pela Benbau. Ele acabou tendo que amputar o dedo do pé.

Adrian diz que há meses denunciou pela primeira vez a infestação de ratos. Os roedores se multiplicaram dentro da unidade de moradia, que possui 40 quartos. Outro vídeo de Adrian mostra um corredor estreito que leva a uma cozinha compartilhada e uma sala com câmeras de segurança nos cantos.

Dentro dos alojamentos lotados, trabalhadores dizem que o estresse é alto: 24 pessoas para uma cozinha, 14 homens para um único banheiro, com um buraco tapado com madeira por onde os ratos passaram e uma janela do banheiro lacrada, que não abre.

Espaços lotados podem aumentar a chance de transmissão de doenças. Em fevereiro deste ano, após várias idas ao hospital, foi confirmado que um trabalhador romeno tinha tuberculose. A Investigate Europe teve acesso ao seu prontuário médico, confirmando o diagnóstico. Logo depois, outros apresentaram sintomas similares.

Após o primeiro trabalhador que contraiu a doença ter ido ao hospital, outros colegas na acomodação ficaram preocupados que também pudessem ter pegado tuberculose.

Um deles, que havia se mudado recentemente para um novo quarto, disse: “Comprei roupa de cama sozinho, lavei o colchão com cloro, esfreguei as paredes, deixei a janela aberta por muito tempo, e estava muito frio.”

A Benbau inicialmente informou apenas alguns dos homens que compartilhavam alojamentos próximos com o primeiro trabalhador infectado, e disse que testes eram opcionais, de acordo com sete trabalhadores que falaram com o Investigate Europe. Mas solicitações de acesso à informação às autoridades de trabalho da Suécia e à Agência de Saúde Pública revelaram que a empresa não reportou nenhum surto.

Na Suécia, tuberculose é uma doença de notificação obrigatória que está sujeita a rastreamento de contatos, algo que trabalhadores alegam não ter acontecido.

Oito trabalhadores da Benbau vivendo na mesma moradia e representantes sindicais disseram aos repórteres que acreditavam que pelo menos 10 a 12 homens também contraíram a doença infecciosa.

Mihai*, um trabalhador de 60 anos, também testou positivo para tuberculose latente, revelaram registros hospitalares compartilhados com Investigate Europe. Ele diz que a Benbau se ofereceu para transferi-lo para outro prédio da Microsoft na Dinamarca, junto com outros que também teriam sido infectados. Considerando sua idade, Mihai decidiu não viajar.

Então, em maio de 2026, testemunhas que viviam na moradia onde foram confirmados alguns casos positivos de tuberculose latente disseram que uma carreata de vans chegou para realocar trabalhadores para o prédio da Dinamarca.

Duas testemunhas disseram que muitos dos que partiram naquele dia haviam testado positivo para tuberculose. Alguns homens foram diagnosticados com tuberculose latente, mas disseram aos repórteres que tiveram sintomas semanas antes.

Outros que partiram naquele dia, incluindo uma equipe inteira que trabalhou com concreto para a Benbau, relataram sintomas de tuberculose. No total, aproximadamente 40 homens foram para a Dinamarca naquele dia, de acordo com testemunhas.

Segundo o sindicato de construção dinamarquês 3F Byggegruppen, aproximadamente 45 trabalhadores chegaram às instalações da Microsoft em Høje Taastrup nessa época. Nenhum outro registro do que aconteceu com qualquer dos homens está disponível.

“Eles governam pelo terror mental”

Trabalhadores dizem que, no começo, o ambiente de trabalho na Collen e na Benbau não era muito difícil. Mas, nos últimos dois anos, com a aceleração do desenvolvimento de infraestrutura de IA, o clima mudou.

“Agora parece que estamos no serviço militar”, disse um trabalhador romeno à Investigate Europe em uma chamada de vídeo. “Eles governam pelo terror, terror mental.”

Trabalhadores alegam que são regularmente sujeitos a assédio e regras que mudam o tempo todo. Muitos dizem que a barreira linguística cria problemas recorrentes. Para monitorar a segurança do trabalho, a empreiteira principal, a Collen, introduziu um sistema de violação no estilo de futebol. Essas ordens, implementadas pela Benbau, consistem em “cartões amarelos” e “cartões vermelhos” para infrações percebidas.

Trabalhadores que receberam os “cartões” disseram ter sido interrogados por gerentes durante horas e depois forçados a escrever cartas admitindo culpa em incidentes de trabalho, mesmo que considerassem não ter feito nada errado.

“Somos forçados a nos sentar em uma sala e confessar coisas que não fizemos”, alega um trabalhador. Depois de uma violação, eles são então enviados para participar de treinamento de “reinserção” em inglês, e não em seu romeno nativo.

Sob outro programa, chamado “Good Save”, os trabalhadores são obrigados a reportar problemas com o local de trabalho ou outros funcionários duas vezes por semana. O não cumprimento disso resulta em ameaças de deduções de salário adicionais e treinamento extra, segundo mensagens de textos vistas pela Investigate Europe.

“Estes são mecanismos de controle”, diz um dos trabalhadores.

“Na sexta-feira, vem a primeira mensagem: ‘Você tem até meio-dia para terminar seu [relatório]’. Depois das 12h as ameaças começam: ‘Você precisa fazer seu [relatório], quer trabalhar no sábado?’ Então a última ameaça é: ‘Vamos cortar o [relatório faltante] de seu salário.'”

O Investigate Europe não encontrou evidências de que a Collen sabia da alegada prática de descontar salários de trabalhadores.

Um ex-gerente romeno que trabalhou para a Benbau, que tinha moradia mais decente e trouxe esposa e filho pequeno ao local, contou à Investigate Europe que “se recusou a participar das sessões de interrogação” como tradutor. Ele acredita que as confissões escritas foram “projetadas para humilhar” outros colegas.

“Naquela atmosfera, não conseguia continuar vendo pessoas trabalharem assim”, diz. “Não queria ter medo de alguém que estava forçando outros homens a trabalharem 13 horas por dia. Conversei com minha mulher e disse: ‘Este é o momento em que precisamos voltar para nosso país.'”

Sindicalismo europeu encontra Big Tech norte-americana

As condições de vida e clima de trabalho são apenas parte da história. Mais de 30 trabalhadores compartilharam centenas de recibos de salário com a Investigate Europe, muitos dos quais mostram jornadas de trabalho de até 60 horas por semana sem pagamento de horas extras, em aparente violação da lei de trabalho sueca. Alguns trabalhadores alegam que não receberam férias remuneradas, conforme exigido pela lei sueca.

Solidariska byggare (Trabalhadores em Solidariedade), um grupo sindical, tentou recuperar anos de salários atrasados para trabalhadores imigrantes no site de Gävle, que o sindicato alega terem sido pagos até 30% menos que seus colegas suecos.

Historicamente, a Suécia operou sob um sistema de mercado de trabalho autorregulado, sob o qual sindicatos de classe e organizações de empregadores estabelecem salários e condições de trabalho através de acordos coletivos, em vez de leis forçadas pelo estado. Sindicatos agora dizem que, ao longo dos anos, este modelo começou a entrar em colapso.

À medida que prédios de data center se espalham, a cadeia cada vez mais ampla de trabalhadores subcontratados se torna mais desafiadora de rastrear.

Documentos obtidos a partir de um pedido de informação à Autoridade de Ambiente de Trabalho sueca revelam um emaranhado de 148 empresas trabalhando sob a Collen no site de Gävle, incluindo 28 empresas terceirizadas as quais podem ter mais de uma dúzia de empresas sob elas.

Com a entrada acelerada de multinacionais dos EUA construindo na Europa, muitas empresas contratadas por elas estão dispostas a deixar de lado acordos coletivos, alertam os sindicatos. 

Com trabalhadores estrangeiros que desconhecem as leis locais, e empreiteiros estabelecendo os termos do contrato, desigualdades podem surgir rapidamente.

“É um quadro muito claro”, diz Pelle Sunvisson, líder sindical na Solidariska byggare. Ele descreve o que vê ao distribuir panfletos fora do site da Microsoft em Gävle.

“Às 16h há uma onda de trabalhadores suecos. São eletricistas trabalhando com empresas suecas que têm acordos coletivos suecos. Se você esperar uma hora, aparece então um grupo menor de trabalhadores de escritório irlandeses saindo, e depois, por volta das 18h, você vê alguns trabalhadores poloneses, romenos, sérvios. Depois, às 19h ou 20h, todos os trabalhadores [de fora da Europa].”

Dados obtidos via pedido de de informação à Autoridade de Ambiente de Trabalho Sueca mostram que a empresa irlandesa Winthrop foi multada 12 vezes nos últimos anos por não cumprir requisitos importantes em relatórios sobre trabalhadores estrangeiros em seus data centers na Suécia.

A Winthrop disse que seus terceirizados são responsáveis pelo não cumprimento e reembolsaram a empresa. As multas estavam relacionadas a “45 trabalhadores, de um total de aproximadamente 8 mil durante o período”, disse um porta-voz da Winthrop.

Em uma inspeção não anunciada em 2021, autoridades anotaram 15 nacionalidades diferentes trabalhando na Winthrop no site da Microsoft em Sandviken.

De 2021 a 2026, a Autoridade de Ambiente de Trabalho abriu 50 inquéritos em prédios de data centers envolvendo a Microsoft e diversas empresas de construção irlandesas. Os registros, indicam vários riscos, incluindo sério perigo de trabalhadores serem atropelados por veículos em passagem e risco de queda de máquinas em escavações.

Em outubro de 2021, um empilhadeira passou por cima do pé de um supervisor trabalhando para a Collen em Gävle. O trabalhador precisou de cirurgia. Um relatório de incidente enviado pela Collen às autoridades de trabalho constatou que uma máquina errada tinha sido usada e que o motorista não tinha certificação formal para operá-la. Ainda assim, a operação foi autorizada. Em um relatório de acidente, a empresa terceirizada listou ambos, o homem ferido e o motorista, como empregados autônomos. A Autoridade de Ambiente de Trabalho não viu motivos para denunciar o empregador aos promotores.

Quando questionada, a Collen se recusou a tratar de questões específicas levantadas, mas um porta-voz disse que as alegações eram “totalmente inconsistentes aos valores, políticas e padrões da Collen aos quais nós e aqueles com quem trabalhamos aderimos.”

“Estamos comprometidos em garantir que cada sírio da Collen seja um lugar seguro, saudável e respeitoso para trabalhar, onde todos sejam tratados com dignidade e seus direitos humanos fundamentais sejam protegidos”, acrescentou o porta-voz. “Esperamos o mesmo em toda a nossa cadeia de suprimentos e temos tolerância zero para qualquer conduta inconsistente com estes princípios.”

“Além deste portão, não é a Holanda”

Não é apenas na Suécia que trabalhadores relataram problemas. Pyotr Zaitsev*, um gerente de engenharia, trabalhou em prédios de data centers para outra empresa de construção irlandesa na Alemanha até 2019.

Pyotr era experiente e suas tarefas diárias envolviam gerenciar instalações elétricas enquanto supervisionava grupos terceirizados. Mas, segundo ele, trabalhava frequentemente além de suas horas contratadas. Ele possuía “um contrato para 40 horas por semana no papel”, mas na realidade, “estava realmente trabalhando 60 horas no mínimo, até 80 horas de vez em quando.”

Ao ouvir que as condições de trabalho eram melhores na Holanda, ele foi trabalhar em projetos de data center para a empresa de construção irlandesa Winthrop Technologies.

Após 18 meses, porém, a pressão na Winthrop começou a equivaler à de seu antigo empregador, diz ele, acrescentando que teve “burnout severo”.

Um dia, em 2021, após trabalhar um turno completo, Pyotr diz que desmaiou no prédio por exaustão. Em um email enviado ao departamento de RH da Winthrop na semana seguinte, ele informou à empresa que tinha ido ao hospital, sem especificar o motivo.

A Winthrop disse que não tinha registro de tal incidente. “É política da empresa que todos os eventos adversos devem ser reportados, investigados e registrados de forma compreensiva.”

Pyotr também disse que tinha preocupações com a segurança do trabalho. Houve certa vez um incidente sério com um terceirizado romeno, conta: “Havia uma [plataforma de trabalho elevada móvel]… o [trabalhador] estava distraído e estava usando o controle remoto e dirigiu sobre sua própria [perna].”

A Winthrop disse ter conduzido uma análise e que o funcionário retornou ao trabalho no dia seguinte, acrescentando que aderiu a todas as leis aplicáveis. “A Winthrop está comprometida em manter os mais altos padrões de saúde e segurança em seus projetos, garantindo que nossos funcionários, parceiros e clientes possam operar em um ambiente seguro e solidário”, um porta-voz disse. “Colocamos segurança no coração da entrega de projeto.”

Pyotr está em licença médica da empresa desde 2023. Em maio de 2025, um órgão do governo holandês ordenou extensão da licença médica remunerada até maio de 2026, após considerar que a empresa não tinha cumprido suas obrigações para ajudá-lo a retornar ao trabalho. A Winthrop deixou de pagá-lo em setembro de 2025.

Um porta-voz da Winthrop disse: “Apesar de esforços repetidos para reintegrar o funcionário desde que saiu em 2023 após um acidente não relacionado ao trabalho fora do local de trabalho, nenhum progresso foi feito em termos de o funcionário retomar o trabalho.”

Acessar locais de data centers para inspecionar condições de trabalho pode ser desafiador, de acordo com FNV, o maior sindicato dos Países Baixos.

Seus representantes alegam que tentaram acessar o sítio da Winthrop em Schiphol-Rijk em setembro para falar com trabalhadores. No portão, um funcionário Winthrop recusou a entrada, alegadamente dizendo a eles, “Além deste portão, não é a Holanda Não sou autorizado a deixá-los entrar pela gerência superior.”

A FNV alega que fez várias tentativas mal-sucedidas, incluindo uma solicitação por email em meados de 2026, para visitar as instalações da Winthrop-Microsoft.

Um porta-voz da Winthrop disse que representantes sindicais recebem acesso através de “protocolos pré-combinados”em seus data centers. “Qualquer alegação de que sindicatos têm acesso negado aos sítios é falsa e enganosa”, disse.

A grande maioria das empresas de construção holandesas está vinculada a um acordo coletivo de trabalho que permite acesso de sindicatos aos canteiros de obras. Empresas estrangeiras não são automaticamente cobertas por esses acordos.

“Sítios mais fechados que uma prisão estatal”

Sindicatos belgas, suecos, dinamarqueses, finlandeses e italianos disseram à reportagem que tiveram dificuldade em acessar data centers ou foram inteiramente deixados de fora.

Lotta Sjölander, um representante no sindicato de comércio nacional Byggnads, na Suécia, o maior do país, diz que seus representantes não conseguiram acessar as instalações da Microsoft em Gävle e em Sandviken “desde o início”.

Jussi Sakari, do sindicato finlandês Rakennuslliitto, diz que sua organização é normalmente capaz de obter acesso aos canteiros de obras, mas, com empreiteiras que começaram a operar apenas recentemente na Finlândia, tem levado mais tempo. “As coisas foram mais difíceis com a Winthrop no começo”, diz Sakari.

O sindicato tem visto diversos problemas relacionados a prédios de data centers em toda a Finlândia. “Além de roubo de salário, emprego autônomo forçado ou falso surgiu como uma questão maior nos últimos anos”, diz.

Um padrão semelhante pode ser encontrado em toda a Europa, diz James McCabe, um representante regional para Unite the Union, um sindicato irlando-britânico com mais de 1,2 milhão de trabalhadores. “Sempre que encontramos empreiteiros de data centers irlandeses em sites de data centers de gigantes de tecnologia, aprendemos sobre falta de acesso normal e significativo de sindicatos, dificuldades em acessar informações, assim como sérias preocupações de crimes trabalhistas e exploração de trabalhadores. Em todo lugar.”

Em Pero, nos arredores de Milão, um data center da Amazon está sendo construído. A construção é dividida entre dois terrenos e envolve duas empreiteiras principais. Em um deles, sindicatos nunca foram autorizados a ter acesso para falar com trabalhadores. O Investigate Europe esteve presente em uma destas tentativas em setembro.

De acordo com Carlo Rioldi, da Confederação Italiana de Sindicatos de Trabalhadores, muitos trabalhadores têm medo de falar com os sindicatos sobre suas experiências em sítios de data center. “Trabalhadores não contam aos sindicatos sobre seus problemas por medo de represálias e porque frequentemente não conhecem seus direitos.”

Um porta-voz da Amazon disse: “Esperamos que fornecedores de bens e serviços para a Amazon cumpram com nossos padrões de cadeia de suprimentos…. formado por padrões e estruturas internacionais líderes desenvolvidas pelas Nações Unidas e pela Organização Internacional do Trabalho.”

Os locais de construção de data centers europeu expõem uma grande lacuna de fiscalização. Com menos de 140 funcionários em 2025 para fiscalizar o cumprimento das leis de trabalho por toda a União Europeia, a Autoridade de Trabalho Europeia permanece sobrecarregada e incapaz de enfrentar problemas do tipo.

Em uma resposta ao Investigate Europe, a agência reconheceu não ter “poderes independentes de inspeção ou aplicação de regras”, além de ser incapaz de “entrar em locais de trabalho para coletar evidências, investigar casos ou impor sanções”.

Diversos acidentes fatais foram reportados em instalações de data centers recentemente, incluindo no Reino Unido, onde um funcionário terceirizado morreu durante o trabalho em Londres no ano passado. Outra fatalidade foi reportada em 2024 em uma subestação elétrica sendo construída para um data center da Microsoft na capital. Acidentes sérios também foram registrados este ano em projetos na Suécia, Noruega e Bélgica. Práticas de trabalho exploratórias também foram registradas em projetos em outros países, inclusive no Brasil.

Regulando um problema europeu

Em resposta a essas questões, a Comissão Europeia vai propor em breve uma legislação abrangente chamada Quality Jobs Act, com o objetivo de melhorar as proteções de trabalhadores e garantir melhor conformidade com regras de cadeia de suprimentos. A proposta de lei cria uma responsabilidade conjunta por toda a cadeia de terceirizados, ao mesmo tempo que tenta promover contratações diretas.

Um porta-voz da Microsoft disse: “Microsoft está comprometida em garantir que todos que trabalham em seu nome sejam tratados justamente, de acordo com a lei de trabalho sueca e nosso Código de Conduta de Fornecedor. Em nossa construção de data centers, trabalhamos com empreiteiros e fornecedores, com quem estabelecemos requisitos claros de saúde e segurança, condições de trabalho, e liberdade de associação e direito de negociação coletiva.”

Dias antes da publicação desta investigação, o Solidariska byggare, sindicato representando os 78 trabalhadores romenos no sítio da Microsoft em Gävle, negociou um histórico acordo de 15 milhões de coroas suecas (R$ 8 milhões) com a Benbau.

“Este será o primeiro acordo coletivo na história da Suécia por, e de trabalhadores imigrantes”, Sunvisson contou ao Investigate Europe. Trabalhadores receberão milhões em salários atrasados e indenizações, segundo o líder sindical, e agora têm “salários assegurados bem acima da média sueca”.

O acordo também permite acesso sindical a todas as obras de data centers nas quais a Benbau trabalha. “A empresa também não pode mais realizar encontros separados com trabalhadores sem um representante sindical presente”, disse Sunvisson. Ao ouvir a notícia, ele disse ter presenciado uma atmosfera de alegria e alívio entre os homens. “Ninguém tem mais medo.”

Um porta-voz da Benbau disse que a empresa “leva todas as preocupações sobre o bem-estar, saúde e segurança de nossos funcionários muito a sério” e tem “procedimentos rigorosos para reportar, investigar e tratar de questões de trabalho”.

A empresa acrescentou: “Cuidar de nossos funcionários é uma responsabilidade que levamos muito a sério. Investimos em seu bem-estar e colocamos valor considerável para reter nosso time”.

Enquanto isso, após seu acidente no sítio do Google na Bélgica, Sandu está confinado em sua casa no sudeste da Romênia. Ele é constantemente perturbado por ruídos e desenvolveu intolerância à luz solar. Sofre de ansiedade e tem memórias do incidente. Passou por numerosos enxertos de pele, e seu corpo é tão sensível que mal consegue ser tocado. Médicos dizem que ele pode recuperar apenas 70% do uso de sua mão e braço direito.

Ele se preocupa com o futuro e como proverá para sua jovem família. Embora a Dornan tenha pagado por voos e hotéis de Sandu, sua empresa de recrutamento ainda não o reembolsou por despesas conforme inicialmente prometido, deixando-o com prejuízo na casa dos milhares de euros, diz ele. Ainda não apto o bastante para trabalhar, ele luta para pagar a escola de seu filho de seis anos: “Há tantas coisas que muitas pessoas não entendem.”

“Acho que é preciso pensar sobre estas pessoas trabalhando nesses sítios não apenas como trabalhadores, mas como seres humanos”, diz Sjölander, do sindicato sueco Byggnads. “Como pessoa, você tem que decidir: como você quer seus dados baseados em dignidade ou construído às custas de vidas humanas?”.

Fonte: apublica.org

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