Região combina oferta abundante de energia renovável com demanda crescente por processamento de dados
Com alta demanda do setor e oferta abundante de energia renovável, o Nordeste segue avançando como um forte polo de data centers no país, ampliando a presença do setor para além do eixo Rio-São Paulo.
A região deve liderar o crescimento da economia brasileira na próxima década, com o PIB avançando 3,3% ao ano entre 2028 e 2035, bem acima dos 2,4% projetados para o país, segundo uma projeção da Tendências Consultoria divulgada em junho.
Como mostrou a CNN, o Brasil deve dobrar a capacidade de seu mercado de data centers até 2030, com boa parte da nova capacidade já contratada antes mesmo de ficar pronta. Ao todo, dos 660 MW (megawatts) que estão em construção no país, 56% estão pré-locados.
O Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), nova lei que prevê um programa de incentivos para o setor no país, foi sancionado em setembro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e deve estimular a instalação e ampliação dos centros de dados no país.
O cenário é reflexo da atividade industrial e dos investimentos em infraestrutura, como ocorre em data centers.
Entre agosto de 2025 e julho deste ano a região registrou crescimento de 2,5%, liderando o desempenho entre as regiões ao lado do Sul.
O resultado supera a média nacional, de 1,5%, e reforça o dinamismo da economia nordestina, segundo análise do Etene (Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste), do Banco do Nordeste (BNB).
Segundo projeção da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o Nordeste deve seguir no centro do debate energético nacional e deve atrair quase 30% dos novos investimentos em data centers de grande porte.
Na energia, o país parte de uma posição diferenciada pela elevada participação de fontes renováveis em sua matriz energética, com destaque para a geração eólica e solar, e deve seguir ampliando a produção.
O avanço acompanha o crescimento econômico, a eletrificação e as transformações tecnológicas. As informações fazem parte do Plano Decenal de Expansão de Energia 2036.
Fortaleza abriga maior data center do Nordeste
Na capital cearense, o avanço do setor tem entre seus exemplos o TFOR3, da Tecto Data Centers, plataforma de data centers controlada pelo BTG Pactual e ligada à V.tal, que atualmente é o maior centro de dados em operação da região.
Conhecido como “Mega Lobster”, o empreendimento fica na Praia do Futuro, e foi inaugurado em outubro do ano passado. Ao todo, a capacidade final é de 20 MW (megawatts), com a expansão ocorren em etapas, acompanhando a demanda dos clientes.
A previsão da empresa é de aumentar a capacidade inicial de 4 MW para 8 MW até o começo de 2027,
Segundo a companhia, o ativo foi projetado para atender aplicações de alta demanda, como inteligência artificial, cloud e distribuição de conteúdo, combinando escala e baixa latência em um dos principais hubs de conectividade do país.
O empreendimento conta com três andares, sistema de resfriamento próprio, além de geradores de energia e baterias, que permitem que os dez data halls, nome dado ao espaço onde ficam localizados os servidores dos clientes, continuem operando em caso de pane ou falha na distribuição elétrica.
Além do TFOR3, a empresa possui mais dois data centers na capital cearense, um no Rio de Janeiro e três em Barranquilla, na Colômbia.
O plano de investimentos da companhia é estimado em US$ 2 bilhões, previstos entre 2026 e 2028, para acelerar a expansão na América Latina.
Também no Ceará, no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, a Omnia desenvolve um data center para atender à ByteDance, dona do TikTok, e que prevê uma primeira fase de 200 MW de capacidade e operação prevista para começar no ano que vem.
Geradoras veem janela favorável
Mesmo com o crescimento constante, o setor de data centers ainda enfrenta desafios significativos de infraestrutura, regulação e impacto ambiental.
Para o setor de geração, diante do gargalo, a expansão dos data centers representa uma oportunidade de ampliar a demanda por eletricidade.
À CNN, o CEO da Engeform Gilberto Feldman, defendeu que os empreendimentos renováveis podem ajudar a absorver a sobra de energia no sistema, que resultam nos cortes de geração impostos pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e afetam as usinas eólicas e solares.
Hoje nós temos uma sobra de energia no país, que inclusive contribui muito para os cortes, e a vinda dos data centers deve contribuir para a redução dos cortes, afirmou.
Segundo Feldman, o crescimento do consumo de energia beneficia os geradores, além de afirmar que a abundância de recursos naturais permite ao Brasil oferecer aos data centers eletricidade a preços competitivos e de fontes limpas e renováveis.
Os cortes de energia impostos pelo ONS ocorrem para preservar a segurança e a confiabilidade do sistema elétrico.
Entre os motivos estão: a falta de infraestrutura de transmissão, como linhas danificadas ou atrasadas; quando as linhas de transmissão atingem o limite de capacidade e a energia não pode ser escoada; e o excesso de oferta em relação à demanda. Nos dois últimos casos, não há direito a compensação.
O executivo vê no Nordeste um potencial para atrair atividades de processamento de dados com base na disponibilidade de fontes renováveis.
Entretanto, o executivo ressalta que a infraestrutura de transmissão precisa acompanhar a expansão para permitir o escoamento da energia.
Sobre possíveis impactos na conta de luz, Feldman avalia que os efeitos dependem da regulação do setor e defende a proteção dos pequenos consumidores.
É importante que o governo tenha também essa visão para que o pequeno consumidor se proteja de um eventual impacto na tarifa, ponderou.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br