Vendas externas somam 34,4 bilhões de dólares em setembro
O comércio exterior brasileiro mostrou força em setembro, mesmo sob o impacto das tarifas impostas pelos Estados Unidos.
As exportações somaram 34 bilhões de dólares no mês, alta de 13% em relação a setembro de 2025, enquanto as importações recuaram 2,4%, para 26 bilhões de dólares.
Com isso, o Brasil registrou superávit comercial de 7,7 bilhões de dólares, 150% acima do resultado de um ano antes.
O resultado, porém, esconde movimentos distintos entre os principais parceiros comerciais.
As vendas para os Estados Unidos cresceram quase 32% em setembro, mas ainda acumulam queda de 6,5% no ano.
Já as exportações para a China recuaram 7,6% no mês, embora permaneçam 12% acima das registradas nos nove primeiros meses de 2025.
A combinação mostra que o tarifaço americano não provocou uma interrupção generalizada das exportações brasileiras, mas alterou o ritmo e a composição dos fluxos comerciais.
Ao mesmo tempo, a China continua sendo, com larga vantagem, o principal destino dos produtos brasileiros.
Um mês forte, mas com efeitos de comparação
As exportações brasileiras chegaram a 285 bilhões de dólares entre janeiro e setembro, crescimento de 10% sobre o mesmo período do ano passado. As importações avançaram 5%, para 222 bilhões de dólares.
O saldo acumulado da balança comercial chegou a 62 bilhões de dólares, alta de 35%. A corrente de comércio, que soma exportações e importações, alcançou 506 bilhões de dólares no período, crescimento de 8%.
O desempenho levou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) a manter uma expectativa de saldo comercial elevado para o ano.
Ainda assim, a nova estimativa representa alta de cerca de 24% em relação ao resultado de 2025, de 68 bilhões de dólares.
O resultado de setembro também precisa ser lido com cuidado.
A forte alta das vendas para os Estados Unidos ocorreu sobre uma base de comparação afetada pelas tarifas que estavam em vigor no ano passado para alguns produtos importantes.
O tarifaço ainda aparece no acumulado
As exportações brasileiras para os Estados Unidos alcançaram 3,5 bilhões de dólares em setembro, crescimento de 32% em um ano.
À primeira vista, o número sugere que o tarifaço americano perdeu força. No acumulado de janeiro a setembro, porém, o quadro é diferente: as vendas brasileiras aos Estados Unidos somaram 28 bilhões de dólares, queda de 6,5%.
Parte da alta de setembro decorre justamente de uma mudança nas tarifas aplicadas no período de comparação.
Em setembro de 2025, carne bovina e café ainda estavam sujeitos a sobretaxas que foram suspensas posteriormente. A retirada dessas tarifas ajuda a explicar o salto das exportações desses produtos.
As vendas de carne bovina aos americanos cresceram 524% em setembro na comparação anual, enquanto as de café avançaram 108%. Também houve aumento nas exportações de máquinas e equipamentos elétricos, ferro-gusa e aeronaves.
Ou seja, o crescimento mensal não significa que o impacto das barreiras comerciais tenha desaparecido. O acumulado do ano ainda mostra uma redução importante das vendas para o mercado americano.
China continua sendo o principal mercado
Enquanto os Estados Unidos registraram uma recuperação pontual em setembro, a China apresentou movimento inverso.
As exportações brasileiras para o país asiático caíram 7,6% no mês, para US$ 8 bilhões. A queda foi associada principalmente à redução das vendas de carne bovina, soja e farelo de soja.
Mesmo assim, a China continua muito à frente dos demais parceiros.
Entre janeiro e setembro, o Brasil exportou US$ 85 bilhões para os chineses, alta de 12%. As importações provenientes do país também cresceram: foram US$ 58 bilhões no período, avanço de 10%.
A China respondeu por 23% de todas as exportações brasileiras em setembro.
A diferença de escala ajuda a dimensionar a importância da relação.
Mesmo com a queda mensal, o mercado chinês continua responsável por quase um quarto das vendas externas brasileiras e por uma parcela ainda maior do superávit comercial do país.
Petróleo ganha espaço na pauta
A composição das exportações ajuda a explicar a força do resultado.
O petróleo bruto foi o principal produto vendido pelo Brasil ao exterior em setembro, com US$ 6,5 bilhões.
Na sequência apareceram soja, com US$ 3,5 bilhões, minério de ferro, com US$ 2 bilhões, café, com US$ 1,3 bilhão, milho, com US$ 1,2 bilhão, e carne bovina, também com US$ 1,2 bilhão.
A pauta reforça uma característica estrutural do comércio brasileiro: o país continua fortemente dependente de produtos básicos e de commodities para gerar receitas externas.
Isso também ajuda a explicar por que o desempenho brasileiro não pode ser interpretado apenas pelo comportamento das tarifas americanas.
Petróleo, soja, minério, café e carnes têm mercados espalhados por diferentes países e podem compensar parcialmente perdas em destinos específicos.
Comércio com vizinhos perde força
Nem todos os mercados apresentaram o mesmo desempenho.
As exportações brasileiras para o Mercosul recuaram 16,3% em setembro. Para a Argentina, a queda foi ainda maior, de 25%, com as vendas passando de US$ 1,8 bilhão para US$ 1,3 bilhão.
Também houve retração de 4,8% nas vendas para o Oriente Médio.
O resultado argentino chama atenção porque o país é um dos principais mercados para produtos manufaturados brasileiros, especialmente aqueles ligados à indústria. Uma redução das vendas para o vizinho pode ter impacto diferente daquele provocado por uma queda nas exportações de commodities para China ou Estados Unidos.
Um comércio exterior mais concentrado em commodities
Os números de setembro revelam, portanto, dois movimentos simultâneos.
De um lado, o Brasil continua ampliando suas exportações e acumulando um superávit elevado, mesmo diante de uma política comercial americana mais protecionista. De outro, o desempenho depende fortemente de poucos produtos e grandes mercados.
Petróleo, soja, minério de ferro, café, milho e carne bovina estão entre os principais responsáveis pelas receitas externas. Ao mesmo tempo, China e Estados Unidos continuam concentrando uma parcela relevante das vendas brasileiras.
A recuperação das exportações aos Estados Unidos em setembro também precisa ser relativizada pelo efeito da base de comparação. No acumulado do ano, o mercado americano ainda compra menos produtos brasileiros do que em 2025.
Por enquanto, os dados mostram uma balança comercial robusta.
Mas também deixam claro que a resistência do comércio exterior brasileiro continua apoiada, em grande medida, na capacidade do país de vender grandes volumes de produtos básicos para seus principais mercados.
Fonte: veja.abril.com.br