Apoio ao ajuste das contas públicas ocorre horas após o presidente se reunir com economistas para traçar diagnóstico da situação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira, 5, que o Brasil precisa demonstrar “seriedade” com a condução da economia, se quiser atrair investimentos produtivos para continuar crescendo. Tal seriedade passaria, segundo Lula, pela responsabilidade fiscal. “É por isso que temos que ter responsabilidade jurídica e é por isso que temos que ter responsabilidade fiscal”, disse ao participar da reunião do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos. A manifestação favorável ao ajuste das contas públicas ocorreu poucas horas após o presidente se reunir com economistas convidados pelo governo para traçar um diagnóstico do Brasil e mapear possíveis medidas de contenção dos gastos.
Reeleito em 25 de outubro para seu quarto mandato presidencial, em uma virada histórica após permanecer atrás do senador Flávio Bolsonaro nas pesquisas durante praticamente toda a campanha do segundo turno, Lula acrescentou que, para atrair pessoas interessadas em investir no Brasil, “vamos ter que ter uma economia arrumada”. “Ninguém vai querer fazer investimento numa economia totalmente desordenada”, emendou.
As declarações em prol da responsabilidade fiscal contrastam com a gastança promovida por Lula neste terceiro mandato que caminha para o fim. Desde 2023, a dívida pública saltou do equivalente a 72% do produto interno bruto para 83%. Economistas já projetam que ela chegue a 87% do PIB no ano que vem e encerre a década próxima de 100%. O crescimento acelerado reflete a artimanha do governo Lula de excluir cada vez mais despesas do Orçamento que embasa os cálculos do resultado primário. Nos últimos anos, gastos com o pagamento dos precatórios, a indenização às vítimas da máfia do INSS e certas despesas com as Forças Armadas foram excluídos da contabilidade oficial, permitindo que, no papel, o resultado primário caísse de um déficit de 2% do PIB em 2023 para 0,4% neste ano.
A má vontade de Lula com o ajuste fiscal foi expressa sem meias palavras durante a campanha pela reeleição. Enquanto Sérgio Gabrielli, coordenador de sua campanha, classificava a crise fiscal de fake news e assessores próximos tachavam o acerto das contas de “austericídio fiscal”, o próprio presidente bombardeava a necessidade de sanear as finanças públicas. Em um evento em Curitiba realizado em setembro, vestindo o figurino de candidato, Lula declarou para quem quisesse ouvir que “é preciso parar com essa babaquice de fazer superávit primário, de ter controle fiscal”.
Tamanha hostilidade levou a uma previsível reação negativa do mercado à vitória de Lula. Na segunda-feira 26, primeiro pregão após o segundo turno, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, afundou quase 14%. O dólar disparou mais de 8% e os juros futuros subiram com força. As perdas no mercado continuaram nos dias seguintes, à medida que nem a equipe econômica, nem o próprio presidente indicavam ações concretas para conter a crescente asfixia do Orçamento, que dispõe atualmente de menos de 10% dos recursos para os gastos não obrigatórios. Trata-se do dinheiro que mantém em funcionamento a máquina pública e os investimentos federais. Muitos economistas afirmam que, sem um forte ajuste, o governo literalmente ficará paralisado a partir de 2027.
Ao deixar a reunião com os economistas na tarde de hoje, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, continuou colocando água na fervura causada pelas ofensas desferidas por seu chefe ao ajuste fiscal. Segundo o ministro, “não há fórmula mágica” para arrumar as despesas e o caminho é “a manutenção dos compromissos fiscais, o compromisso de seguir melhorando as contas públicas com a manutenção e o reforço do que precisa ser reforçado nas regras fiscais atuais”.
Fonte: veja.abril.com.br