Levantamento do Radar Econômico revela dimensão da crise doméstica; fabricante ainda precisa obter apoio adicional de credores para reestruturar dívidas
A recuperação extrajudicial de 1,52 bilhão de reais anunciada pela Aeris nesta semana expõe a dimensão da crise enfrentada pela indústria eólica brasileira. Um levantamento do Radar Econômico a partir dos demonstrativos financeiros da fabricante mostra que sua receita com a venda de pás para aerogeradores no mercado doméstico despencou 91,9% no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano passado. O faturamento caiu de 225 milhões para apenas 18,3 milhões de reais.
O contraste com o mercado internacional é significativo. Enquanto as receitas domésticas praticamente desapareceram, as vendas de pás para exportação cresceram 47,6% no primeiro semestre, alcançando 168,9 milhões de reais. Com isso, o exterior passou a responder por aproximadamente 90% do faturamento da companhia com a fabricação de pás eólicas, uma inversão que evidencia a dependência crescente de encomendas internacionais.
A deterioração também aparece nos custos financeiros. No segundo trimestre, a Aeris registrou resultado financeiro negativo de 115,7 milhões de reais, equivalente a quase 90% de toda a receita operacional líquida de 129,3 milhões de reais obtida no período. A companhia encerrou junho com prejuízo líquido de 152 milhões de reais e dívida líquida próxima de 1,94 bilhão de reais.
A nova tentativa de reestruturação ocorre depois de a empresa ter renegociado aproximadamente 90% de seu endividamento financeiro em maio de 2025. O acordo anterior, porém, não foi suficiente para estabilizar suas contas. Em agosto deste ano, a Aeris já havia recorrido à Justiça para obter proteção temporária contra medidas de cobrança e negociar com credores.
Agora, a fabricante apresentou um plano de recuperação extrajudicial com adesão de credores responsáveis por 42,18% dos créditos abrangidos. Pelos cálculos do Radar Econômico, faltam pouco mais de 119 milhões de reais em créditos representados por novas adesões para ultrapassar a metade exigida à homologação, considerada a base de 1,52 bilhão de reais informada pela empresa. O prazo é de 90 dias a partir do ajuizamento.
Apesar da gravidade do quadro, a companhia procura preservar sua capacidade industrial. Em agosto, informou possuir encomendas equivalentes a aproximadamente 2 gigawatts para entregas entre 2026 e 2027 e iniciou a reativação de quatro linhas de produção. O desafio será transformar essa recuperação operacional em geração de caixa suficiente para sustentar a atividade e viabilizar o novo acordo com os credores.
Fonte: veja.abril.com.br