O bom desempenho reforça uma impressão que já existia sobre o potencial do governador para um voo nacional
A reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao governo de São Paulo no primeiro turno, com quase 63% dos votos, foi uma vitória maiúscula da direita. Em uma só rodada, a frente encabeçada por ele superou nas urnas uma quadra de ex-ministros escalada por Lula: Fernando Haddad, candidato ao governo; Márcio França, a vice; e Simone Tebet e Marina Silva, que perderam as vagas no Senado para Guilherme Derrite e André do Prado, aliados do governador. Além dos dois senadores, a coligação de dez partidos liderada por Tarcísio fez a maioria dos deputados federais e estaduais (veja o quadro ao lado). Com 14,5 milhões de votos, ele triunfou em 99% dos municípios e cravou a maior votação de um primeiro turno na história do estado. O triunfo, mais do que ampliar sua envergadura política, o coloca de vez como personagem incontornável do xadrez eleitoral no tabuleiro presidencial de 2030.
O bom desempenho reforça uma impressão que já existia sobre o potencial de Tarcísio para um voo nacional. Em 2025, seu nome circulou fortemente nos meios empresariais, no mercado financeiro e no eleitorado (pontuava bem nas pesquisas) como a melhor alternativa para enfrentar Lula. Mas acabou preterido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL -RJ), indicado pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que lançou o governador na política. Pressionado, Tarcísio decidiu disputar a reeleição, mas ele não terá essa opção daqui a quatro anos, o que eleva a especulação sobre, enfim, tentar o Palácio do Planalto. Mas a questão não é simples, porque no caminho estará um fortalecido Flávio Bolsonaro.
Há dois horizontes para Tarcísio ao final de seu governo. Se Flávio perder a eleição para Lula, o governador cresce na bolsa de apostas para saber quem será o candidato da direita em 2030, embora o peso do sobrenome Bolsonaro não possa ser descartado mesmo eventualmente derrotado, Flávio pode ter apoio suficiente para tentar de novo em 2030. Se o senador do PL vencer a eleição, fica mais difícil para Tarcísio. Se Flávio chegar com alta popularidade a 2030, será natural que seu nome esteja à frente da fila, a despeito de ele próprio ter dito que não vai disputar a reeleição. Eu sou o único candidato que assumiu o compromisso pelo fim da reeleição porque eu só preciso de um mandato, disse logo após o primeiro turno. Flávio chegou a apresentar em fevereiro uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) acabando com a reeleição, o que foi visto como um aceno a Tarcísio na pré-campanha.

Há um risco para o governador nessa projeção de futuro, que é tentar traçá-lo sem o bolsonarismo. São fartos os exemplos de gente que tentou se desvencilhar da tutela bolsonarista e foi abandonada pelo eleitor de direita. Apesar disso, a boa vitória ajuda a consolidar o que pode ser um embrião de seu grupo político, já que boa parte desses deputados e os dois senadores devem cerrar fileiras com o governador em futuros projetos. Diante do caminho delicado até a próxima eleição, porém, aliados preferem não cravar que o próximo passo de Tarcísio seja a disputa presidencial. O resultado mostra a força política que o governador tem, mas não faz sentido antecipar uma disputa que só acontecerá daqui quatro anos, diz Rosana Valle (PL-SP), deputada federal reeleita.

Uma tese que ganha força é que o tempo poderá dizer se Tarcísio e os Bolsonaro são um projeto político só. Até aqui, o governador navegou entre o discurso técnico, que agrada ao eleitor de centro, e o apoio calculado às pautas mais radicais do PL, como o impeachment de ministros do Supremo e a anistia aos condenados por tentativa de golpe de Estado endosso, por vezes, considerado modesto demais pelo clã Bolsonaro. Caso almeje um voo presidencial, Tarcísio vai se deparar com a escolha entre abraçar a agenda bolsonarista ou lançar-se como terceira via. Tarcísio deve sua popularidade aos Bolsonaro, mas agora ganha projeção como líder de direita sem se apoiar no mesmo radicalismo ideológico. Há uma diferença entre lealdade ao padrinho e fidelidade canina, avalia Rubens Figueiredo, cientista político e diretor do Centro de Pesquisa e Comunicação (Cepac).

Entre os formadores de opinião no ambiente econômico, Tarcísio é visto como um integrante da direita disposto a dialogar e sem propostas extremistas. Foi com essa visão que o empresariado paulista já contava com ele na disputa presidencial contra Lula neste ano. Tarcísio é visto como um novo tucano, substituto do PSDB liberal em terra paulista. Aliás, ao derrotar o PSDB, que governava o estado há três décadas, Tarcísio herdou também boa parte de seu eleitorado. Neste cenário, um deputado estadual próximo ao governador não descarta um voo solo de Tarcísio para se tornar uma terceira via. Se o governador teve uma votação expressiva foi graças ao seu trabalho, avalia esse aliado.

Parte dessa identificação do antigo eleitorado de centro-direita do período pré-bolsonarismo, que encontrava abrigo nos candidatos do PSDB, vem também da agenda e do estilo político de Tarcísio. Uma preocupação permanente dele é se apresentar como técnico, focado na melhoria da eficiência do Estado. Não à toa, um dos pilares de sua gestão foram as privatizações, que consolidaram sua popularidade junto ao setor privado. Sob seu comando, o Executivo leiloou a companhia de saneamento Sabesp, expandiu as concessões nas linhas metropolitanas de trem e terceirizou a área administrativa em mais de 170 escolas medidas que há longa data compõem a agenda liberal e que aproximam seu perfil de gestões tucanas. O apagar das luzes do PSDB deixou um espólio muito disputado, e Tarcísio conseguiu incorporar essas pautas e convencer as hostes bolsonaristas com um discurso mais técnico. O eleitor viúvo dos tucanos apostou nele em 2022 e se fidelizou agora, avalia o cientista político Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos.

Além disso, Tarcísio também focou na questão da segurança pública, mas muito além de uma agenda punitivista, como é cara ao bolsonarismo. Apesar de também ter feito uso da força o que lhe gerou críticas , ele focou o trabalho também em intervenções para recuperar notórios espaços de proliferação de criminosos, especialmente no centro degradado de São Paulo, para onde pretende levar a sede do governo, hoje no Morumbi. Na vitrine, exibiu como sucessos a demolição da Favela do Moinho e o desmonte da Cracolândia, polo do uso de drogas a céu aberto, desarticulando uma teia criminosa que sustentava todo tipo de atividade ilegal no coração da capital do estado e que há três décadas resistia às intervenções estatais.
Enquanto reforçava o papel de gestor, Tarcísio também pôs em xeque o mito de que tem pouco traquejo político. Na eleição, tirou candidaturas rivais do caminho, como a do próprio PSDB, e construiu uma frente que tinha onze partidos, incluindo toda a direita e o Centrão. Também realizou uma jogada decisiva ao tirar do páreo ao Senado o ex-ministro Ricardo Salles (Novo), que pontuava bem e ameaçava a eleição de seus candidatos. Por fim, conduziu a campanha no fio da navalha entre acenos ao bolsonarismo raiz e à pregação mais técnica. O deputado estadual Tenente Coimbra (PL), que vai para o terceiro mandato, classifica Tarcísio como um político de alto nível de articulação. Tenho certeza que ele será presidenciável algum dia, afirma. Um indicativo sobre as aspirações de Tarcísio virá na eleição de 2028, quando enfrentará o dilema de priorizar nomes de sua base ou embarcar em candidaturas apadrinhadas pelo bolsonarismo. As eleições municipais serão um divisor de águas para Tarcísio, que terá de escolher entre formar uma conjuntura própria ou seguir como coadjuvante, diz o cientista político Elias Tavares.

Por ora, os primeiros movimentos de Tarcísio após ser reeleito foram direcionados a ajudar Flávio Bolsonaro na caminha do segundo turno. Ele deverá viajar com o aliado pelo Brasil, em roteiro que, claro, inclui São Paulo, o maior colégio eleitoral do país e onde ainda está a chave para a vitória final. Uma das metas é atrair o eleitor que não compareceu às urnas no primeiro turno: a abstenção paulista foi de 22,5% (7,6 milhões de eleitores), número suficiente para mudar o rumo da corrida ao Palácio do Planalto. Reeleito, Tarcísio já poderá ir sentindo como é participar desse jogo.
Publicado em VEJA de 9 de outubro de 2026, edição nº 3016
Fonte: veja.abril.com.br