Autoridades dos dois países temem saques e confusão generalizada durante as manifestações e Paris decreta novo toque de recolher
A onda de protestos que atinge a Europa promete se expandir para a Alemanha e se reacender na França neste sábado, 31, motivada por insatisfações com o elevado custo de vida, aluguéis nas alturas, mudanças climáticas e serviços públicos sucateados. Temendo saques e confusão generalizada durante as manifestações, autoridades de segurança de ambos os países convocaram reforço policial para monitorar as ruas durante o fim de semana.
Na Alemanha, o movimento “Gen Z regelt” (algo como “a Geração Z dá jeito”, em tradução livre) convocou atos em mais de 30 cidades para exigir novos investimentos em educação, habitação e proteção do meio ambiente, além de rejeitar os planos, sugeridos pelo governo, de reativar o serviço militar obrigatório. Mais de 160 mil pessoas já se cadastraram no site oficial do evento, onde o grupo fez postagens pedindo para que os manifestantes ajam de forma pacífica durante os protestos.
Só na capital, Berlim, cerca de 10 mil manifestantes são esperados no Portão de Brandemburgo na tarde de sábado. Segundo a chefe de polícia da cidade, Barbara Slowik Meisel, não há motivos ou provas concretas para acreditar que pessoas ou propriedades serão atacadas durante os protestos. Meisel, no entanto, quis convocar mais 1.500 policiais adicionais para a capital de forma preventiva.
As mobilizações também geraram debates políticos na Alemanha. Enquanto Alexander Throm, do partido conservador União Democrata Cristã (CDU), diz que “cenas como as da França devem ser evitadas a todo custo”, o co-líder do Partido Verde, Felix Banaszak, alerta contra a criminalização antecipada dos jovens.
A retórica (da CDU), que busca criminalizar esses protestos preventivamente e apresentá-los como obra de gangues saqueadoras, pode até levar as pessoas à radicalização, disse Banaszak ao grupo de mídia RND.
Controle nas ruas
Na França, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, classificou este sábado como um dia de “muito alto risco”, mobilizando 70 mil policiais em todo o território nacional. Na noite de quinta-feira 29, ele afirmou que grupos radicais haviam incitado supostos encontros violentos de Halloween por meio das redes sociais e que a maior ameaça à ordem pública provavelmente ocorreria após o término oficial dos protestos moderados contra o aumento do custo de vida.
“Estamos vendo muitos apelos do movimento operário, da extrema esquerda radicalizada e de certos membros radicalizados dos coletes amarelos, incitando as pessoas a participarem de manifestações em vias públicas a partir das 20h em diversas cidades da França, afirmou o ministro.
Nuñez também disse que as medidas introduzidas no último fim de semana para proteger as lojas seriam reforçadas e, embora as manifestações pacíficas fossem autorizadas, a maioria não seria permitida “nos centros das cidades, onde há risco de desordem pública”. A polícia de Paris anunciou nesta sexta um toque de recolher em duas áreas do centro da capital francesa durante as noites de sábado e domingo (entre 23h00 e 6h00) contra possíveis casos de “alteração da ordem pública” e proibiu as manifestações pelo centro da cidade devido à presença “de inúmeras delegacias de polícia, agências bancárias e comércios”, embora tenha autorizado atos na periferia.
Em resposta, a Unef, o principal sindicato estudantil francês, denunciou uma tentativa de “amordaçar a voz dos jovens” e anunciou que tentará se manifestar no centro de Paris apesar da proibição. A organização estudantil Fage anunciou, por sua vez, que recorrerá à Justiça para impugnar uma decisão que “coloca em perigo a segurança”.
No último sábado, 410 mil pessoas marcharam pelo país, quando uma forte presença policial impediu, em grande parte, a repetição da violência generalizada e dos saques que assolaram as cidades francesas durante a primeira onda de protestos em massa em 17 de outubro.
Os sindicatos e o movimento dos coletes amarelos, que protestam contra os baixos salários, o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos, juntaram-se aos estudantes do ensino fundamental, médio e universitário que reivindicam melhores condições de aprendizagem, com uma greve nacional convocada para 5 de novembro.
Fonte: veja.abril.com.br