Acordo prevê maior integração comercial, cooperação em IA, segurança e acesso a supercomputadores europeus
O Canadá e a União Europeia anunciaram nesta sexta-feira, 30, uma nova aliança estratégica para ampliar a cooperação econômica, tecnológica e política em meio às incertezas da ordem internacional. Batizada de Aliança para o Futuro, a iniciativa foi apresentada ao fim de uma cúpula de dois dias em Montreal e pretende aproximar os dois lados em áreas como comércio, defesa e inteligência artificial. O acordo também abre caminho para uma relação institucional inédita, que poderá dar ao Canadá um status de associado ao bloco europeu.
A aproximação ocorre em um momento de tensão nas relações de Ottawa e de Bruxelas com Washington. A guerra comercial com os Estados Unidos, somada à preocupação com a dependência canadense de empresas americanas em setores estratégicos, levou o primeiro-ministro Mark Carney a buscar novos parceiros. A intenção é fortalecer a autonomia do país e reduzir a exposição a decisões de governos ou companhias estrangeiras.
Tecnologia e defesa
A dependência de empresas americanas na área de tecnologia e defesa tornou-se uma preocupação crescente em ambos lados do Atlântico. Em outubro, a redução do acesso ao Starlink na Ucrânia afetou operações militares e de defesa do país, evidenciando os riscos de depender de infraestrutura controlada por empresas privadas. A rede de satélites pertence à SpaceX, de Elon Musk, que tem dupla cidadania canadense e é crítico do Partido Liberal de Carney
O premiê canadense tem alertado que tecnologias essenciais à segurança nacional não podem ficar sujeitas aos interesses de empresários ou atores políticos estrangeiros. Nesse contexto, citou a fusão planejada entre a canadense Cohere, especializada em inteligência artificial (IA), e a alemã Aleph Alpha como um passo para reduzir a dependência das grandes empresas americanas do setor. A nova companhia deverá ter sedes em Toronto e Berlim. O governo canadense anunciou uma participação na Cohere avaliada em até 1,6 bilhão de dólares canadenses (R$ 6,24 bilhões, na cotação atual).
Não estamos esperando que o futuro da IA seja decidido em outro lugar por pessoas que não conhecemos ou em quem não confiamos, afirmou Carney na quinta-feira, 29.
Nesta sexta, Ottawa e Bruxelas também anunciaram um acordo para integrar o Canadá à rede europeia de supercomputadores. A medida permitirá que pesquisadores e empresas canadenses utilizem máquinas do bloco para treinar modelos de IA, ampliando a cooperação tecnológica.
Comércio e segurança econômica
Além da tecnologia, a aliança prevê a redução de barreiras comerciais e de restrições a viagens, novas oportunidades em educação e a construção de um mercado mais integrado, com potencial de movimentar dezenas de bilhões de dólares. Os líderes também defenderam uma colaboração mais estreita para proteger cadeias de suprimentos e diminuir a vulnerabilidade a choques externos.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a instabilidade no comércio internacional tem consequências diretas para a população.
Quando o comércio se torna uma ferramenta de pressão econômica, são as famílias que pagam o preço, desde as prateleiras do supermercado até o custo de um carro novo, disse ela, que também alertou para o fato de fornecedores de energia e minerais críticos, antes considerados confiáveis, serem cada vez mais usados como instrumentos de pressão.
Carney, por sua vez, destacou que a aproximação com a Europa pode ampliar a competitividade e as mercadorias disponíveis para consumidores e empresas. Mais concorrência, mais opções, resumiu. Para o premiê, a cooperação entre os dois lados pode tornar as cadeias de suprimentos mais seguras e ajudá-los a enfrentar crises em conjunto.
‘Membro associado’
Um dos pontos mais ambiciosos das conversas é a possibilidade de o Canadá receber um status de associado à União Europeia. A proposta ainda não tem formato definido e representa um caminho institucional inédito para o bloco. Von der Leyen afirmou que a modalidade precisará ser construída em conjunto. Temos a ambição, a confiança e a criatividade para moldá-la juntos, declarou.
A presidente da Comissão Europeia ressaltou que a iniciativa não é uma aliança ofensiva, mas em defesa dos interesses compartilhados. Esta associação é uma parceria não contra ninguém, mas para nossa força comum, afirmou.
Os líderes concordaram em avançar na discussão — os contornos da nova modalidade deverão ser definidos em uma cúpula prevista para 2027. A ideia, porém, não é consensual entre os integrantes da União Europeia. Alguns governos reagiram com ressalvas à possibilidade de conceder ao Canadá uma designação sem significado jurídico claro, temendo que isso crie confusão entre países que buscam ingressar formalmente no bloco.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, defendeu a aproximação e classificou o Canadá como de longe o mais europeu dos países não europeus. Segundo ele, as duas partes buscam construir a associação mais estreita, mais profunda e mais forte de sempre entre a União Europeia e um país não europeu.
Atrito político em Quebec
Apesar do discurso de aproximação internacional, a realização da cúpula também provocou tensões internas no Canadá. O primeiro-ministro de Quebec, Paul St-Pierre Plamondon, não participou do encontro depois que o governo federal se recusou a permitir que ele discursasse publicamente. A província é governada por uma administração minoritária do Parti Québécois, uma sigla separatista.
Em uma publicação nas redes sociais no início da semana, Plamondon criticou o tratamento dado à província por Ottawa. Ele ironizou o fato de Quebec ter sido autorizado a servir coquetéis de camarão em uma recepção, mas não a participar de forma mais efetiva das discussões.
O líder provincial afirmou que o convite para se sentar à mesa principal equivalia a pedir que Quebec voltasse à linha, em troca de melhores lugares para assistir à festa. A disputa expõe um dos desafios políticos da iniciativa: enquanto Carney tenta projetar uma parceria internacional mais ampla, o governo federal também precisa lidar com as reivindicações de autonomia dentro do próprio país.
Fonte: veja.abril.com.br