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A insatisfação com Lula é institucional, não econômica, diz ex-secretário de Temer e Bolsonaro

Alexandre Manoel afirma que recomposição da arrecadação feita por Haddad será essencial à próxima gestão, mas ficou faltando ajuste nos gastos

Para o economista e ex-secretário do Ministério da Fazenda e da Economia Alexandre Manoel, a explicação para a dianteira assumida pelo senador Flávio Bolsonaro sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida eleitoral passa antes por uma insatisfação dos eleitores com a governança política ligada à gestão do petista, notoriamente na maneira como sua imagem colou à das instabilidades no Supremo Tribunal Federal, do que com a economia.

“A principal razão não é pela via econômica, mas pela institucional”, disse Manoel em conversa com VEJA NEGÓCIOS. “Há em um segundo plano uma demanda por todo o ajuste econômico que é necessário ser feito e a falta de disposição de Lula para faze-lo, mas não é o que definiu o voto.”

Manoel, hoje socio da consultoria Global Intelligence and Analytics (GIA) foi secretário de Planejamento, Energia e Loteria, braço ligado ao ministério da Fazenda e, depois, da Economia, de 2016, no governo de Michel Temer, até 2020, já com Jair Bolsonaro, além de também ter passado pela Fazenda de Lula em seus primeiros governos e vir de carreira no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Em sua avaliação, os esforços do ex-ministro da Fazenda de Lula, Fernando Haddad, em recompor a arrecadação foram importantes e serão essenciais para quem vier depois a enfrentar a missão de completar o ajuste. “Ele conseguiu fazer todo o trabalho que nós tentamos entre 2016 e 2022 e não conseguimos, (…) o que vai ajudar muito a próxima gestão”, diz. Ficou faltando, contudo, sequer um aceso para o lado das despesas.

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Veja a entrevista abaixo.

Na sua opinião, quais fatores econômicos podem explicar o avanço de Flávio Bolsonaro sobre Lula visto no primeiro turno?

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Eu acredito que a principal razão não é pela via econômica, mas pela institucional. A população deu um recado muito claro, não só no cenário presidencial, como também no Legislativo, em relação ao Supremo Tribunal Federal, depois da suspensão das investigações [relativas a Alexandre de Moraes] e também com toda aquela ciranda de decisões que terminou adiando o debate da Globo. É um conjunto de coisas que forçou o voto útil e também forçou uma maior renovação do Senado, com eleitores saindo do Centrão e indo para a direita. Isso mostra que a polarização ficou mais clara, mas com viés mais à direita. Não foi uma insatisfação apenas com a questão da economia.

A economia sempre foi um tradicional canal de aprovação ou reprovação dos eleitores aos governantes. O senhor acha que essas coisas se descolaram?

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Não houve descolamento. Mas o principal motivo não creio que seja a economia. Há em um segundo plano uma demanda por todo o ajuste econômico que é necessário ser feito e a falta de disposição de Lula para faze-lo. Isto pesa, mas não é o que definiu o voto. Hoje já há a notícia de que o Lula pode indicar o [vice-presidente] Geraldo Alckmin para ser o ministro da Fazenda, mas é tardio. Se ele tivesse tomado essa decisão antes, quando o [ex-ministro da Fazenda, Fernando] Haddad saiu, em março, poderia ter feito diferença. Até por que o Haddad não fez um trabalho ruim pelo lado da receita. Ele conseguiu fazer todo o trabalho que nós tentamos entre 2016 e 2022 e não conseguimos, e quem for assumir agora vai ter uma grande vantagem com isso.

A que tipos de ajustes na arrecadação você se refere, e que já tinham sido tentado antes?

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Os governos anteriores tentaram também taxar os fundos exclusivos, conter os subsídios tributários, fazer a reforma tributária. A arrecadação hoje está batendo recordes. Então esta gestão fez um bom trabalho, que vai ajudar muito a próxima. Mas o trabalho ficou pelo meio do caminho: pelo lado da receita foi bom, mas, pelo lado da despesa, foi muito ruim. E se, quando o Haddad saiu, o Lula já tivesse colocado o Alckmin e dado mais sinais para este lado, poderia estar melhor no lado econômico agora.

Mesmo que Flávio Bolsonaro se diga comprometido com uma agenda de ajuste fiscal, o senhor acredita que ele consegue implementa-la, caso eleito, dado que depende de enfrentar o Congresso e também alguma pressão popular?

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Ele tem uma excelente oportunidade de fazer um governo transformador e reformista. A situação que tínhamos entre 2016 e 2018 era muito pior. Tínhamos que fazer ao ajuste pelo lado da receita e da despesa, tinha muita política microeconômica desestruturada, como nos setores de óleo e gás e de energia, e o Congresso não estava tão maduro quanto está hoje para essas questões. Aquele foi um governo muito reformista, mas com poucos resultados. E há também boas pessoas em sua equipe econômica, como a Daniela Marques e o Adolfo Sachsida, que já conhecem e sabem lidar com a costura política. Não precisa trazer ninguém de mercado.

O senhor mencionou o descontentamento institucional com Lula, mas Flávio também tem as suas próprias acusações, caso do envolvimento com as milícias, das rachadinhas quando era deputado estadual no Rio de Janeiro e, mais recentemente, do episódio de Dark Horse e o envolvimento com Daniel Vorcaro. Isto não deveria pesar contra ele também?

As pessoas não estão votando no Flávio, não é Flávio contra Lula. O voto é na pauta. As pessoas querem uma resposta à questão institucional, uma resposta do Senado ao processo de impachment de ministros do STF e querem essa questão econômica e fiscal.

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Fonte: veja.abril.com.br

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