Com eleição de Flávio Bolsonaro, cientista político enxerga aproximação com Washington em segurança, minerais críticos e tecnologia
Uma eventual chegada de Flávio Bolsonaro ao Planalto produziria uma guinada rápida do Brasil em direção aos Estados Unidos de Donald Trump em áreas que vão da segurança pública aos minerais críticos. É a avaliação do cientista político Ian Bremmer em sua mais recente carta sobre riscos políticos e geopolíticos globais.
Na segurança, Bremmer prevê a mudança mais imediata. Segundo ele, o Brasil passaria a integrar o Escudo das Américas, iniciativa liderada pelos Estados Unidos para coordenar o combate ao crime organizado e ao narcotráfico no continente, com compartilhamento de inteligência, sanções e possibilidade de operações coordenadas entre os países participantes. A ofensiva americana já incluiu PCC e Comando Vermelho entre os grupos tratados por Washington como organizações ligadas ao narcoterrorismo.
Na leitura de Bremmer, Flávio também classificaria organizações criminosas como terroristas e apoiaria operações conjuntas no Brasil e no mar com participação da inteligência e das Forças Armadas americanas. É uma mudança de patamar em relação à atual posição brasileira, que tem resistido a aderir à estratégia de segurança desenhada por Washington.
Outro ponto sensível seria o dos minerais críticos, insumos essenciais para semicondutores, baterias, veículos elétricos, equipamentos militares e data centers. Bremmer acredita que Flávio desmontaria parte relevante da política nacional construída por Lula para o setor e passaria a coordenar a estratégia brasileira com os Estados Unidos, que tentam formar cadeias de fornecimento menos dependentes da China.
A previsão ganha peso porque Lula sancionou há menos de três semanas a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A nova legislação prioriza beneficiamento e transformação dos minérios no próprio país, transferência de tecnologia e agregação de valor, além de criar instrumentos de controle sobre mudanças societárias e participação estrangeira em ativos considerados estratégicos.
Trata-se justamente de uma das disputas centrais entre Washington e Pequim. O governo Trump busca ampliar o acesso americano às reservas brasileiras de terras raras e reduzir a influência chinesa sobre essas cadeias de produção.
Bremmer também enxerga espaço para maior aproximação com Washington em tecnologia e inteligência artificial. Ele avalia que o Brasil vem ficando para trás nessas áreas e acredita que a atenção de Flávio ao setor, somada à proximidade com a administração Trump, poderia mudar essa trajetória.
A guinada, porém, teria um limite importante: a China.
Apesar da retórica historicamente crítica dos Bolsonaro em relação ao regime chinês, Bremmer não acredita que um eventual governo Flávio consiga ou pretenda promover uma ruptura econômica com Pequim. A China continuaria, em sua avaliação, como parceiro comercial e tecnológico fundamental para o Brasil.
Os números ajudam a explicar esse pragmatismo. Entre janeiro e agosto deste ano, a China recebeu 30,7% de todas as exportações brasileiras, ante 9,6% destinadas aos Estados Unidos. Também liderou a origem das importações brasileiras em agosto, com participação de 25,7%.
Na economia doméstica, Bremmer acrescenta ainda uma quarta frente de mudança. Ele espera que um eventual governo Flávio coloque no centro da agenda uma reforma fiscal ampla, com o objetivo de permitir juros menores e melhorar o ambiente para investimentos.
O desenho que emerge da carta, portanto, é menos o de um Brasil rompendo com a China e mais o de um país tentando mudar seu eixo estratégico para Washington sem abrir mão da dependência econômica de Pequim.
Fonte: veja.abril.com.br