É nisso que aposta Maria Paola de Salvo, fundadora da EasyTelling, plataforma que usa IA para buscar na ciência respostas para desafios de negócios
Em algum lugar do mundo deve haver resposta para o problema que sua empresa tenta, sem sucesso, resolver há muito tempo. Talvez a ideia tenha passado pela sua cabeça e ficado por isso mesmo, porém passou pela mente inquieta da empreendedora Maria Paola de Salvo e virou uma ideia de negócio interessante. Trata-se da startup EasyTelling, que usa inteligência artificial para conectar organizações e cientistas.
Funciona assim: clientes corporativos chegam com um desafio real, e Paola põe em ação uma plataforma própria que busca em mais de 200 milhões de artigos, 160 milhões de patentes e bases regulatórias. Em minutos, mostra caminhos possíveis, a força da evidência de cada estudo, quão perto estão de virar produto e o próximo passo, tudo ligado à fonte. É como conversar 24 horas por dia com o melhor cientista da sua área, diz a empresária, que diz ter ouvido isso de um freguês satisfeito.
Tomei um café com Paola para entender melhor como funciona, e assim nasceu a entrevista abaixo.
VEJA: Quem procura vocês hoje e quais são os pedidos mais comuns?
Maria Paola de Salvo: Equipes de P&D da indústria de alimentos, papel e celulose, agricultura e mineração, com clientes como Ajinomoto, Suzano e Vale. As perguntas são concretas: por que esta formulação não funciona? Que alternativa vale testar? Do outro lado, governos e universidades nos procuram para saber onde suas pesquisas podem ser aplicadas e quais têm chance de virar patente.
A empresa começou como consultoria. Como era esse trabalho antes da inteligência artificial?
Artesanal. Fundei a EasyTelling em 2019 como uma consultoria de tradução do conhecimento, área em que fui a segunda brasileira certificada pela Universidade de Toronto. Eu lia dezenas de artigos de um grupo de pesquisa, descobria em que aquilo podia se transformar e para quem servia, e reescrevia tudo na língua de empresas e gestores. Funcionava. Mas o limite era o relógio.
Em que momento você percebeu que a IA poderia mudar o negócio?
Em 2023, quando vi do que os novos modelos eram capazes. Pensei: vou ensinar a máquina a ler o artigo e fazer o que eu fazia, com o meu método. Juntei-me ao Lucas Miranda, doutor em Estatística pela USP, que sabia construir IA. Começamos pela pergunta: partimos do desafio real de uma empresa e buscamos na ciência quem o resolve. Depois fizemos o caminho inverso e já transformamos quase 300 mil pesquisas em fichas que mostram suas aplicações.
Qual foi o primeiro teste que mostrou que a ideia funcionava?
Testei a IA contra o meu próprio trabalho. Um relatório que tinha me custado três meses e mais de 60 pesquisas, que ela refez em minutos, e mais completo. Depois comparamos o filtro dela com revisões sistemáticas de um especialista, e ela chegou aos mesmos estudos em segundos. O teste final foi com os próprios autores: enviamos as fichas a dezenas de pesquisadores, e todos aprovaram o conteúdo sobre o próprio trabalho.
Você se lembra de uma situação que fez pensar que havia uma pesquisa útil, mas ninguém estava aproveitando aquele conhecimento?
Sim, e lembro até da frase. Em 2013, eu coordenava o Grand Challenges da Fundação Gates no Brasil, e um pesquisador da USP tinha comprovado três biomarcadores do risco de parto prematuro, base para um teste diagnóstico inédito no mundo. Ele me disse: Preciso transformar isso em produto e fazer chegar a quem precisa. A ciência estava pronta; faltava a ponte. E não é um problema só do Brasil: na saúde, uma descoberta leva em média 17 anos para chegar à prática clínica, e só 14% chegam aos pacientes.
O que parecia simples e deu mais trabalho do que você imaginava?
Ensinar a IA a dizer não sei e não é bem assim. As IAs generalistas foram feitas para agradar quem pergunta, e não existe nada mais anticientífico do que isso. Um resultado em camundongos não vale automaticamente para humanos; uma lacuna tem de continuar sendo lacuna. Para quem vai investir meses de laboratório, saber onde a ciência ainda não chegou vale tanto quanto saber onde ela já chegou.
Conta um caso, do pedido inicial até o resultado. O que vocês encontraram e o que aconteceu depois?
Uma equipe de P&D de um cliente passou um ano tentando entender por que um produto se alterava e já tinha quase desistido. A plataforma identificou o ingrediente responsável e mostrou como resolver o problema com base num estudo de bioquímica publicado na Nature, uma área onde ninguém da equipe teria procurado. A empresa jamais imaginaria encontrar a resposta ali, e os autores jamais imaginariam que seu estudo resolveria um problema industrial. Somando só três casos, nossos clientes já economizaram R$ 1 milhão em experimentos.
Não tem empresa que pensa que é mais fácil pedir ao ChatGPT uma resposta com fontes científicas, em vez de recorrer à EasyTelling?
Achar um artigo é fácil. Difícil é saber se ele é confiável, se vale para o seu problema e o que fazer com ele. Um gerente de P&D de uma indústria de alimentos que comparou as duas ferramentas resumiu: Na IA genérica, tudo é possível. Quando você vai para a bancada, percebe que muita coisa não funciona. Para uma equipe de P&D, uma resposta errada com cara de certa é pior do que nenhuma resposta: vira meses de experimento no caminho errado.
Como vocês avaliam se uma pesquisa é confiável e se a IA interpretou os resultados corretamente?
Fazemos duas perguntas: o estudo é robusto? Ele serve para este problema? O prestígio da revista, sozinho, não responde a nenhuma das duas. Usamos critérios de revisão sistemática, classificamos cada evidência como forte, moderada ou fraca e ligamos cada afirmação à fonte original. Quando não há evidência suficiente, a plataforma diz.
Que problema você ainda quer resolver com a EasyTelling e hoje não consegue?
Quero fechar o ciclo. Por trás de cada uma das nossas quase 300 mil fichas há um pesquisador, e queremos conectá-lo às empresas que precisam do que ele sabe e remunerá-lo quando sua pesquisa resolver um problema. A ambição maior é analisar todo o conhecimento publicado numa área para apontar descobertas que ainda não aconteceram. Meu sonho é que nenhum pesquisador precise repetir o que ouvi em 2013, preciso fazer isso chegar a quem precisa, sem ter a quem recorrer.
Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda
Fonte: veja.abril.com.br