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As pressões que tornam mais crítica a decisão do Copom sobre os juros

Piora das expectativas de inflação, dólar valorizado e dúvidas fiscais reduzem o espaço para novos cortes da Selic

A primeira decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nesta quarta-feira, 4, ocorre com menos espaço para a continuidade da redução dos juros. A piora das expectativas de inflação e a desvalorização do real aumentaram os obstáculos para um novo corte da Selic, atualmente em 13,75% ao ano. Ao mesmo tempo, manter o crédito caro prolonga as dificuldades de consumidores e empresas para financiar gastos e investimentos.

A manutenção da Selic em 13,75% aparece como o cenário mais provável para a reunião de hoje, embora um corte de 0,25 ponto percentual ainda seja uma possibilidade, afirma Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest.

A reunião coloca o Banco Central diante de sinais que apontam em direções diferentes. A prévia da inflação desacelerou em outubro, mas as projeções do mercado para os próximos anos subiram. O crescimento esperado para a economia também perdeu força, ampliando o custo de prolongar uma política monetária restritiva, aquela que procura conter a demanda por meio de juros elevados.

Expectativas mais distantes da meta

O boletim Focus divulgado na terça-feira, 3, mostrou uma revisão da inflação esperada para 2027 de 4,34% para 4,76%. A estimativa ultrapassa o limite superior de tolerância da meta, de 4,5%. Para 2026, a projeção passou de 5,19% para 5,22%. São previsões das instituições consultadas pelo Banco Central, e não da própria autoridade monetária.

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Essas expectativas importam porque influenciam decisões tomadas antes de a inflação se concretizar. Empresas consideram os custos futuros ao definir preços e contratos, enquanto trabalhadores procuram preservar o poder de compra nas negociações salariais. Quanto mais persistente a previsão de aumentos acima da meta, maior a dificuldade de interromper essa dinâmica.

O dado mais recente de preços trouxe algum alívio no ritmo mensal. O IPCA-15, considerado uma prévia da inflação oficial, avançou 0,32% em outubro, depois de subir 0,70% em setembro. Ainda assim, o acumulado em 12 meses chegou a 4,62%. A queda da energia elétrica ajudou a desaceleração, enquanto alimentação e bebidas exerceram a maior pressão de alta no mês.

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O peso das contas públicas

A incerteza fiscal interfere na eficácia da política monetária. Quando investidores passam a exigir uma remuneração maior para financiar o governo, o custo de captação do Tesouro sobe. Esse movimento pode alcançar também o crédito privado, mesmo sem uma alteração imediata da taxa básica.

Quando existem dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas, o prêmio de risco do país aumenta, o câmbio pode sofrer pressão e as expectativas de inflação ficam mais difíceis de controlar, afirma Patrus.

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O prêmio de risco é a remuneração adicional exigida pelo investidor para aplicar em um ativo que considera menos seguro. Sua elevação dificulta a transmissão de um eventual corte da Selic para as taxas cobradas em empréstimos de prazo mais longo.

O dólar chega aos custos

Na véspera da decisão, o dólar comercial fechou a R$ 5,486, em alta de 0,74%. O valor é o encerramento da sessão de terça-feira, 3.

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O dólar também merece atenção, porque movimentos de desvalorização do real podem encarecer produtos importados e insumos, criando pressões adicionais sobre os preços, afirma Patrus.

O repasse não é automático nem igual entre os setores. Depende da concorrência, dos estoques, dos contratos e da capacidade das empresas de absorver o custo em suas margens. Para o Copom, porém, a possibilidade de que parte dessa alta ainda apareça nos preços exige olhar além dos indicadores já divulgados.

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A cobrança por crédito mais barato

Do outro lado da decisão está o enfraquecimento da atividade. No Focus, a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 caiu pela terceira semana consecutiva, passando de 1,80% para 1,76%. Para 2027, a estimativa recuou de 1,31% para 1,20%.

Juros elevados aumentam o custo das prestações, do capital de giro e dos projetos empresariais. Ao reduzir o consumo e o investimento, ajudam a conter a inflação, mas também limitam a expansão da economia.

Já as cobranças do governo por juros menores são compreensíveis diante da necessidade de estimular a atividade econômica, mas não podem se sobrepor aos fundamentos técnicos que orientam a política monetária. A credibilidade do Banco Central é fundamental para manter a confiança dos investidores, afirma Patrus.

O sinal sobre os próximos passos

A atenção ao comunicado vai além da escolha entre uma pausa e uma redução de 0,25 ponto percentual. O texto deverá mostrar como o comitê avalia a mudança do cenário e quais condições considera necessárias para suas próximas decisões.

As projeções já indicam uma trajetória mais lenta de queda dos juros. A mediana do Focus para a Selic no encerramento de 2026 passou de 13,25% para 13,50%. Entre as instituições que atualizaram suas estimativas nos últimos cinco dias úteis, ficou em 13,75%. Para o fim de 2027, a previsão agregada subiu de 11,75% para 12,50%.

Para os investidores e para setores que dependem de capital de longo prazo, como inovação e tecnologia, a previsibilidade é tão importante quanto o nível dos juros, afirma Patrus.

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Fonte: veja.abril.com.br

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