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Baladas culturais: o que são as raves literárias, em alta no mundo

Elas reúnem pessoas para apreciar bons livros e fazer novos amigos, levando os clubes de leitura a um novo patamar

No bairro boêmio de Shimokita­zawa, em Tóquio, um grupo de cerca de setenta japoneses se junta na boate alternativa Spread para um evento peculiar. Nada de drinques, paquera e música eletrônica nas alturas. Na festa batizada de Jucy Book Rave, os convidados se aconchegam em almofadas e tapetes espalhados pelo chão para ler suas obras favoritas em boa companhia, ao som de uma playlist suave. Mais tarde, o volume sobe e os presentes se dividem entre a pista de dança e as discussões literárias que tomam conta do espaço. Tinha mais gente do que eu imaginava… Rolou um tempo para a troca de ideias, e cada um recomendava o que estava lendo, relatou um dos participantes da balada realizada no início deste mês.

Duas cenas de pessoas lendo em ambientes internos. À esquerda, um homem lê Deep Cuts em um café iluminado por abajures. À direita, um grupo de pessoas lê em um espaço mais escuro, com alguns sentados no chão e outros em cadeiras, alguns com bebidas.
VIRAL – Reading Rhythms (à esq.) e Jucy Book Rave (acima): eventos com muitas obras, conversa e música ambienteSpread/.

Com quatro horas de duração, o evento viralizou nas redes sociais, iluminando uma tendência que ganha fãs em todo o mundo: as chamadas raves literárias. Elas transformam os antigos e silenciosos clubes de leitura em experiências coletivas e atraentes para uma geração de leitores ávidos por conexão em um mundo cada vez mais digital e, ao mesmo tempo, solitário. Sucesso no Japão, encontros dessa natureza começaram a pipocar pouco depois nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália, tornando-se uma opção de socialização a quem quer sair de casa e conhecer pessoas com interesses em comum, mas não está disposto a encarar uma balada nos moldes tradicionais.

Pioneira do ramo, a Reading Rhythms surgiu de uma reunião de amigos em Nova York, em 2023, e completa neste ano 1000 encontros literários, com mais de 50000 ingressos vendidos entre Estados Unidos, Canadá e Itália. O negócio inspirou a Book Doof, na Austrália, que atua há cerca de um ano no país e reúne uma média de 250 a 300 pessoas em eventos mensais. No Brasil, iniciativas como a Rave Literária de Cuiabá e a Rave da Leitura, em São Paulo, bebem da mesma fonte, reunindo dezenas de pessoas em eventos ao ar livre, pautados pelo amor aos livros e pela interação social.

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Idealizados como experiências relaxantes, os encontros acontecem em casas de shows, restaurantes, bares, cafés e até mesmo em parques e praças. A essência é a mesma para todos, mas a dinâmica varia bastante: em alguns casos, as obras são escolhidas por curadores, enquanto outros deixam a seleção na mão dos próprios leitores. Na Reading Rhythms, por exemplo, cada pessoa leva seu livro, e a agenda é dividida em dois blocos de leitura silenciosa, seções livres de conversa e discussões coletivas, tudo embalado por uma playlist especial, que transita entre sons instrumentais leves e canções mais animadas. Nos eventos de Tóquio e Cuiabá, DJs comandam o clima com música ambiente, enquanto algumas edições da Book Doof contaram com atrações especiais ao vivo. Em 21 de novembro, o duo experimental Bing/Santospirito embala um encontro na Tasmânia com violino, piano, violoncelo, percussão e sintetizadores.

Grupo de jovens sentados na grama, sob a luz do sol, lendo livros e conversando. Dois homens em primeiro plano, um de boné e camiseta laranja, outro de camiseta rosa, segurando um livro. Ao fundo, mulheres e outras pessoas em um ambiente externo.
AO AR LIVRE- Encontro na Austrália: proposta mescla concentração e interação@bookdoof/Instagram
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Pano de fundo dos encontros, o som funciona como um climatizador, mas os verdadeiros protagonistas são os livros. Segundo Ben Bradbury, um dos fundadores da pioneira americana, cerca de 70% dos presentes levam obras físicas para os encontros, evitando distrações com o celular e e-books. A ideia é usar as páginas como uma forma de quebrar o gelo e conhecer pessoas novas no mundo real. É um mergulho na introspecção e, ao mesmo tempo, uma retomada do convívio em comunidade, conta ele, hoje à frente de uma equipe de 45 pessoas na produção dos eventos. Só para 2027 Bradbury projeta 400 novas raves. A leitura foi, por muito tempo, considerada um hábito solitário, mas há um desejo de conhecer outros leitores, socializar e conversar sobre as obras, mesmo entre os mais tímidos, diz Grant Krupp, idealizador da iniciativa australiana.

Abertos a todos os públicos, os encontros podem ser gratuitos ou pagos, com valores que variam de 20 a 30 dólares na Austrália e nos Estados Unidos. Embora um levantamento da Reading Rhythms revele que cerca de três quartos dos presentes são mulheres e a faixa etária principal vai dos 18 aos 44 anos, a diversidade está no DNA da proposta. Me lembro de um pai que levou o filho que não devia ter nem 10 anos e também de uma senhora chamada Judith, de 87 anos. Ela se mudou para Manhattan para ficar mais perto dos netos e veio ler com a gente, relata Bradbury, ressaltando a abrangência dos convidados. De fato, da infância à maturidade, a leitura pode ser uma festa.

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Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019

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Fonte: veja.abril.com.br

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