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Vitória de Lula sacode os mercados, abre incertezas e muda planos dos investidores

Renda fixa e diversificação no exterior se tornam bons caminhos para preservar o patrimônio

A vitória do senador Flávio Bolsonaro no primeiro turno causou euforia nos investidores, que passaram a vê-­lo como o favorito na disputa. No pregão de 5 de outubro, os juros futuros e o dólar recuaram com força. O Ibovespa, principal índice da B3, renovou seu recorde ao saltar quase 8%, para 206912 pontos. Depois que Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu a histórica virada na reta final do pleito, houve uma grande reação na direção contrária. Na segunda-feira 26, a bolsa afundou 14%, o dólar disparou 8% e os juros futuros voltaram a subir. O episódio ilustra a incerteza que pode nortear o mercado daqui para frente, a depender dos rumos que a gestão Lula 4 adotar na economia. Segundo especialistas, é quase certo que obter bons ganhos com os investimentos será mais complexo, mas não impossível, desde que tomadas precauções. O mais básico é não entrar em pânico nos momentos de forte oscilação, diz Fernando Ferrer, sócio da assessoria de investimentos Lifetime. Quem vendeu ações no dia seguinte ao segundo turno obteve preços piores.

Homem de camiseta azul segura um rolo gigante de papel branco em uma fábrica, com maquinário industrial verde e marrom ao redor
APOSTA -Fábrica da Suzano: exportações beneficiam a empresaLalo de Almeida/Folhapress/.

Após três mandatos, os investidores têm uma ideia formada do que esperar de mais quatro anos de Lula. Tendo se declarado avesso ao ajuste fiscal, é provável que o presidente siga distribuindo bondades que endividarão ainda mais o país. Mas não se pode descartar que Lula, alertado até pela reação inicial do mercado a sua vitória, se reapresente em nova versão, pragmática, como já fez no passado como presidente. Dario Durigan, seu ministro da Fazenda, disse que o chefe será mais comedido daqui por diante. A permanência de Durigan no cargo não é certa, mas alguns nomes que surgiram como cotados para substituí-lo na Fazenda podem ser bem acolhidos e indicar correções de rota, a começar pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. Apresentar uma estratégia fiscal crível será determinante para reconstruir a confiança, diz Elisa Machado, economista-chefe da KAT, outra assessoria de investimentos. Não basta, porém, que Lula tenha um bom plano econômico no papel. Será necessário ainda provar que reúne condições de implementá-lo. O que importa são as medidas propostas, a viabilidade de aprová-las no Congresso e a capacidade do governo para executá-las, diz Machado.

Infográfico A Gangorra do Mercado mostra o pessimismo dos investidores e a oscilação de ações em outubro. O Ibovespa caiu 7,7% em 5 de outubro e 13,9% em 26 de outubro. O dólar variou -4,7% e +0,3%. Magazine Luiza teve alta de 24,2% e queda de 58,3% nas datas, respectivamente

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Enquanto o rumo não ficar claro, os investidores exigirão prêmios de risco maiores para bancar o gasto público, forçando o Banco Central a manter a taxa básica de juro nas alturas. Diante disso, analistas e gestores afirmam que o mais prudente para a gestão das finanças pessoais é compor uma carteira de investimentos conservadora. Na renda variável, a perspectiva de juros altos por mais tempo tende a prejudicar as ações de empresas que dependem de crédito seja para capital de giro, seja para financiar clientes. Há quase um consenso entre os especialistas de que se devem evitar papéis do setor de varejo e da construção civil. Um dos exemplos dessa guinada do mercado é o da ação do Magazine Luiza, que caiu 58% no dia seguinte ao segundo turno, depois de ter subido 24% no pregão que repercutiu a vitória de Bolsonaro no primeiro turno.

A expectativa de que o dólar seguirá valorizado favorece as ações de exportadoras, como a fabricante de aeronaves Embraer e a empresa de papel e celulose Suzano. Também ganham destaque aquelas com receita recorrente protegida da inflação, como as concessionárias de saneamento e de energia. A regra geral é a mesma privilegiar negócios com solidez financeira. Prefira as companhias com geração consistente de caixa, baixo endividamento e capacidade de preservar margens, diz João Peixoto, presidente da gestora Ouro Preto.

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Homem de camisa azul e calça cinza caminha em ambiente da bolsa de valores com múltiplos monitores exibindo gráficos e logotipos de empresas como State Street, Citadel e NYSE
BOM MOMENTO -Bolsa de Nova York: ações americanas acumulam forte valorização neste anoANGELA WEISS/AFP

Na renda fixa, as atenções convergem para os títulos pós-fixados do Tesouro Direto, mais aptos a gerar bons ganhos em um cenário no qual os juros ficarão altos por mais tempo que o previsto. O mercado de juros futuros mostra o tamanho da reversão de expectativas. Os contratos com vencimento em novembro de 2027, que embutiam taxa de 12,9% ao ano na véspera do segundo turno, passaram a oferecer 14,3% após a vitória de Lula.

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O mesmo é visto para prazos mais longos. Papéis que vencerão daqui a cinco anos já pagam 15%. Os títulos pós-fixados oferecem um excelente retorno e sem volatilidade, afirma Laís Costa, chefe de renda fixa da casa de análises Empiricus. Outra frente são os títulos atrelados à inflação, como o Tesouro Direto IPCA+. Ao estimular o consumo sem oferecer contrapartidas adequadas para que as empresas invistam no aumento da produção, o atual governo tem gerado pressões inflacionárias. A situação é agravada pelas tensões geopolíticas, como a guerra Estados Unidos-Irã, que oneram os preços do petróleo e de outros insumos. Além de proteger o investimento, os títulos do Tesouro Direto IPCA+ também pagam juros que chegam a 8% ao ano atualmente.

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Homem branco de barba, vestindo terno azul e gravata marrom, fala ao microfone com a mão esquerda gesticulando. Ele está sentado em uma mesa, com um copo de água à frente, e o fundo é azul escuro.
SINAIS -Dario Durigan, ministro da Fazenda: promessa de rigor fiscalGustavo Moreno/STF

A reação inicial do dólar à vitória de Lula torna sensato também buscar investimentos atrelados ao mercado americano. Na média, o brasileiro tem menos de 1% da carteira exposta a ativos estrangeiros, afirma Bruno Mérola, sócio da Dylan Wealth, assessoria para investidores com patrimônio a partir de 10 milhões de reais. Recomendamos aos clientes que mantenham uma fatia de 10% a 40% no exterior. Um caminho são os exchange traded funds, conhecidos como fundos de índice, que replicam o comportamento dos principais índices das bolsas americanas, hoje em alta impulsionada por ações de empresas ligadas a tecnologia. O S&P 500 da Bolsa de Nova York acumula valorização de 13% neste ano, enquanto o Ibovespa sangra em praça pública após o segundo turno da eleição. Outra dica é abrir uma conta global para comprar ações diretamente nas bolsas americanas. A vantagem é ter acesso a papéis que não estão disponíveis na B3 na forma de Brazilian depositary receipts, um tipo de contrato que espelha o desempenho de ações estrangeiras. Diante da possibilidade de novas turbulências daqui para frente, a decisão mais prudente dos investidores será apostar na segurança de seu patrimônio.

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Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2026, edição nº 3019

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Fonte: veja.abril.com.br

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