Alta dos títulos de longo prazo nos Estados Unidos e na Europa reflete preocupações fiscais e inflacionárias, em cenário que exige maior remuneração dos investidores e reduz margem de manobra dos bancos centrais
O aumento do endividamento público, a persistência das pressões inflacionárias e a alta dos preços de energia têm elevado os juros nos mercados internacionais e ampliado os desafios para as economias desenvolvidas e emergentes.
Nos Estados Unidos e na Europa, a combinação entre déficits fiscais elevados, maior necessidade de financiamento dos governos e incertezas sobre a trajetória da inflação tem levado investidores a exigir uma remuneração maior para manter títulos de dívida de longo prazo.
O movimento pressiona as condições financeiras globais, reduz a margem de atuação dos bancos centrais e afeta países como o Brasil, que dependem, em parte, do diferencial de juros para atrair capital estrangeiro.
Além das circunstâncias
A escalada dos rendimentos dos títulos públicos norte-americanos e europeus evidencia que a preocupação do mercado vai além dos efeitos imediatos dos conflitos geopolíticos sobre os preços de energia.
O cenário também reflete questões estruturais, como a expansão dos gastos públicos desde a pandemia de Covid-19, a deterioração das perspectivas fiscais e o aumento da oferta de títulos soberanos e corporativos.
Em entrevista ao CNN Money, o head de renda fixa da Tivio Capital, Huang Seen, avaliou que a alta dos juros globais reflete “fundamentalmente os desafios fiscais que a maioria dos países tem enfrentado nos últimos anos”.
Segundo ele, a necessidade de emitir mais títulos, tanto para refinanciar dívidas existentes quanto para financiar novas despesas, aumenta a pressão sobre as taxas de juros.
A alta do petróleo, impulsionada pelo escalada do conflito no Oriente Médio, acrescentou uma camada de preocupação inflacionária a um movimento que já estava em curso.
Nos Estados Unidos, a pressão também é reforçada pela demanda por financiamento do setor privado, especialmente diante dos investimentos em infraestrutura relacionados com a inteligência artificial.
Com o governo e as empresas recorrendo ao mercado de capitais, a oferta de títulos aumenta e os investidores passam a exigir condições de remuneração mais atrativas.
Juros longos
O movimento nos mercados de títulos norte-americanos demonstra a dimensão das preocupações dos investidores. Os rendimentos dos papéis de 10 anos chegaram a 5,11%, o maior patamar desde 2007, antes de recuarem para 5,31%. Já os títulos de 30 anos alcançaram 5,4%.
Para os governos, a persistência de juros elevados representa um custo maior de financiamento, especialmente na emissão de novas dívidas e na rolagem de compromissos existentes.
Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, destacou que a pressão não está concentrada apenas nos títulos norte-americanos de 10 anos, mas também alcança os vencimentos de 20 e 30 anos, indicando uma mudança na remuneração exigida pelo mercado para assumir riscos por períodos mais longos.
“A gente tem uma sequência de fatores que mostram que qualitativamente o mercado está exigindo mais prêmio de risco”, afirmou ao CNN Money.
Entre os fatores que sustentam essa exigência, a economista apontou a inflação ainda persistente, a resiliência da atividade econômica norte-americana, o custo elevado da energia e as incertezas fiscais.
Com o petróleo acima de US$ 100 por barril no cenário descrito pela economista, o risco de novas pressões inflacionárias se soma às dúvidas sobre o endividamento dos EUA. O estoque da dívida estadunidense atingiu o patamar de US$ 40 trilhões e despesas anuais com juros próximas de US$ 1 trilhão.
“O mercado olha e fala: eu preciso de um nível de remuneração maior para emprestar dinheiro para o governo americano”, explicou.
O mecanismo se retroalimenta, pois, quanto maior a percepção de endividamento e de risco fiscal, ainda maior tende a ser o ganho exigido pelos investidores. Com juros mais elevados, o custo de financiamento da própria dívida também aumenta, ampliando o desafio para as contas públicas.
Apesar disso, Huang Seen afastou a possibilidade de uma crise imediata de credibilidade dos títulos norte-americanos que resulte em risco de inadimplência.
Para ele, o movimento está mais relacionado ao prêmio de risco exigido pelos investidores, sobretudo nos vencimentos mais longos, embora reconheça preocupações com a sustentabilidade fiscal no médio e longo prazo caso os déficits persistam.
“Pelo menos no curto prazo, não existe uma crise necessariamente de credibilidade, no sentido de um risco de default”, afirmou.
França expõe fragilidade fiscal europeia
Na Europa, a alta dos juros também evidencia as dificuldades dos governos para conciliar a necessidade de financiamento com o controle das contas públicas. O rendimento dos títulos franceses de 10 anos chegou a 4,88%, próximo do maior nível registrado desde 2002, enquanto os papéis britânicos alcançaram 5,45%.
A sequência de desvalorizações dos títulos franceses acendeu alertas sobre a situação fiscal do país e seus desdobramentos para a economia global.
Em entrevista ao CNN Money, Rachel de Sá, estrategista de investimentos da XP, avaliou que o episódio representa uma mudança importante no debate econômico internacional, no qual a sustentabilidade da dívida deixou de ser uma preocupação restrita às economias emergentes.
“Essas discussões fiscais estão deixando de ser uma questão muito de país emergente e estão hoje no centro do debate dos países desenvolvidos”, afirmou.
No caso europeu, a estrategista destacou uma fragilidade estrutural da União Europeia. A política monetária do bloco não é sempre integrada equivalentemente ao manejo das contas públicas de cada país. Embora existam limites para os déficits públicos das nações do bloco, esses parâmetros nem sempre são respeitados.
“A União Europeia é uma união monetária, mas ela não é uma união fiscal”, explicou.
A França exemplifica esse impasse. Segundo Rachel de Sá, o país ultrapassou suas próprias metas de déficit nos últimos quatro anos consecutivos e enfrenta dificuldades políticas para aprovar um orçamento capaz de demonstrar maior controle das contas públicas.
De um lado, o governo não teria força suficiente no Congresso para avançar com medidas de ajuste fiscal. De outro, a população se mobiliza contra cortes de gastos que, segundo a estrategista, nem sequer foram efetivados.
“A gente tem esse verdadeiro xadrez que a União Europeia se encontra”, disse.
A dificuldade de promover ajustes em um ambiente de resistência política amplia as incertezas sobre a trajetória fiscal francesa e contribui para a pressão sobre os juros. O problema não se limita ao custo de financiamento do governo.
Segundo Rachel de Sá, a elevação das taxas também pressiona o euro. Uma moeda europeia mais desvalorizada, por sua vez, pode elevar a inflação na Zona do Euro e criar um desafio adicional para o BCE (Banco Central Europeu).
A situação francesa, portanto, demonstra como os problemas fiscais podem ultrapassar as fronteiras nacionais e atingir outras economias por meio dos mercados financeiros, das moedas e das condições de financiamento.
Gastos pós-pandemia e defesa ampliam os desafios fiscais pelo mundo
A deterioração das perspectivas fiscais nos países desenvolvidos também está relacionada com as mudanças na estrutura dos gastos públicos desde a pandemia.
De acordo com a estrategista da XP, a expansão fiscal promovida naquele período deveria ser temporária, mas os gastos adicionais não retornaram aos níveis anteriores na maioria das economias desenvolvidas.
“Quando a gente olha desde a pandemia, o gasto público mudou de patamar”, afirmou.
A manutenção de despesas mais elevadas se soma a outros fatores que pressionam as contas públicas e complicam o combate à inflação. Na Europa, o aumento dos gastos com defesa ocorre em um contexto conflitos geopolíticos.
Ao mesmo tempo, a instabilidade política dificulta a construção de consensos em torno de medidas de ajuste.
Esse conjunto de fatores torna mais complexo o trabalho dos bancos centrais. A necessidade de financiar déficits elevados aumenta a oferta de títulos públicos, enquanto os choques de energia podem pressionar os preços e dificultar a convergência da inflação para as metas estabelecidas pelas autoridades monetárias.
Para Rachel de Sá, o cenário reúne vulnerabilidades fiscais e pressões conjunturais que, combinadas, aumentam a instabilidade dos mercados.
“Tudo acaba se encaixando”, resumiu a estrategista, ao descrever o que chamou de um “grande barril de pólvora” aceso pelo choque de oferta recente.
Huang Seen também chamou atenção para a influência dos investimentos privados na dinâmica dos juros. Nos Estados Unidos, a expansão da infraestrutura ligada à inteligência artificial aumenta a necessidade de financiamento das empresas, que recorrem com mais frequência ao mercado de capitais. A emissão de títulos corporativos passa, assim, a disputar espaço com os papéis públicos na busca por recursos dos investidores.
Na Zona do Euro e no Japão, a retomada mais consistente do crescimento econômico também contribui para o ambiente de pressão altista sobre os juros.
A combinação de maior necessidade de financiamento público e privado, gastos estruturais elevados e inflação pressionada por choques de oferta ajudam a explicar por que a alta dos rendimentos não se restringe a um único país ou mercado.
Fed adota cautela diante dos riscos inflacionários
As preocupações com a inflação influenciam as perspectivas para a política monetária dos bancos centrais. Na berlinda, o Federal Reserve dos Estados Unidos.
A ata da última reunião do Fed revelou divergências entre os dirigentes sobre a necessidade de elevar os juros, com alguns participantes considerando um novo aumento necessário para conter os efeitos dos choques nos preços de energia e de outros itens.
Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos, avaliou, ao CNN Money, que a principal incerteza está na possibilidade de uma nova alta no início de 2027.
Na concepção de Kautz, a perspectiva de aperto monetário tem caráter preventivo. O objetivo seria reduzir o risco de uma aceleração futura dos preços, e não necessariamente reagir a uma inflação já fora de controle.
“Eles não estão vendo que a inflação já está muito preocupante ou fora de controle, eles estão vendo que talvez lá na frente tenha algum risco dela acelerar ainda mais e por isso começar a fazer esses ajustes”, afirmou.
A postura reflete a preocupação de evitar uma desancoragem das expectativas inflacionárias após anos em que a inflação permaneceu consistentemente acima da meta.
Nesse contexto, o Fed busca manter uma posição cautelosa, sem necessariamente sinalizar aumentos consecutivos dos juros, e condiciona as decisões aos dados econômicos de cada reunião.
Segundo Kautz, a maioria dos participantes do comitê considerou que outro aumento da taxa básica provavelmente seria apropriado até o final do ano. A possibilidade de uma nova elevação no início de 2027, porém, dependeria da evolução dos indicadores de inflação e atividade.
Os dados divulgados após a reunião trouxeram alguns sinais de alívio. O índice PCE (preços de despesas de consumo pessoal) – medida de inflação preferida pelo Fed – subiu abaixo das expectativas, enquanto a geração de vagas de trabalho em setembro ficou aquém do esperado.
Na avaliação do economista, entretanto, os dados do mercado de trabalho precisam ser interpretados com cautela. A redução das vagas se concentrou no setor público, especialmente nos governos locais, sem necessariamente indicar uma desaceleração mais intensa da economia norte-americana.
“Quando a gente exclui isso daí, a geração de vagas no setor privado americano continua ali mais ou menos próximo do que seria o valor que manteria a taxa de desemprego estável”, explicou.
Kautz também destacou a melhora recente das medidas de núcleo do PCE, observada nos três meses anteriores. Esse comportamento reduz a pressão imediata por uma elevação dos juros e permite ao banco central aguardar novos dados antes de tomar uma decisão.
O cenário descrito pelo economista apontava para uma taxa de juros norte-americana próxima do intervalo entre 4,25% e 4,5%, dependendo da evolução da inflação até o final do ano e no início de 2027.
A dificuldade para o Fed está em equilibrar os sinais de moderação da inflação no curto prazo com os riscos associados aos preços de energia e às expectativas futuras.
Uma postura excessivamente branda poderia permitir que as pressões inflacionárias voltassem a ganhar força, enquanto um aperto maior poderia restringir ainda mais as condições financeiras.
Huang Seen, da Tivio, também avaliou que a autoridade monetária norte-americana foi levada a adotar uma postura mais restritiva, mesmo diante de dados de inflação mais favoráveis no curto prazo, justamente para evitar que as expectativas de inflação se desvinculassem após um período prolongado de preços acima da meta.
Petróleo adiciona pressão à inflação e aos juros
A energia ocupa um papel central na atual combinação de riscos fiscais e inflacionários. A alta do petróleo associada ao conflito no Oriente Médio aumenta a preocupação com os preços e dificulta a atuação dos bancos centrais, que precisam avaliar se os choques serão temporários ou se poderão contaminar outras medidas de inflação.
O problema é particularmente relevante porque o aumento dos juros não decorre apenas da expectativa de que a inflação permaneça elevada, mas também da necessidade de compensar a incerteza sobre sua trajetória futura.
Para Kautz, essa preocupação explica o caráter preventivo da discussão sobre novas altas de juros nos Estados Unidos. Já para Huang Seen, o choque de energia intensificou uma pressão sobre as taxas que já existia em razão dos desafios fiscais e das necessidades de financiamento dos governos e das empresas.
A eventual resolução do conflito no Oriente Médio poderia aliviar parte dessas tensões. Segundo Huang, o primeiro efeito seria uma redução das expectativas de inflação, sobretudo em razão da perspectiva de queda da pressão sobre os preços de energia.
“Você traria um alívio nas expectativas de inflação, principalmente na parte de energia”, afirmou.
O especialista ponderou, porém, que a normalização da oferta de derivados, como diesel e nafta, poderia demorar mais tempo. Ainda assim, uma redução das pressões sobre os preços seria bem recebida pelos bancos centrais, pois poderia diminuir a necessidade de elevações mais intensas dos juros.
O efeito sobre os mercados de títulos dependeria da evolução do conflito, da normalização da oferta de energia e da maneira como essas mudanças se refletiriam nas expectativas inflacionárias.
Mesmo com um eventual alívio no curto prazo, os desafios fiscais permaneceriam. A necessidade de financiar dívidas elevadas, os gastos públicos estruturalmente maiores e a emissão de títulos para atender às necessidades de governos e empresas continuariam influenciando as taxas de longo prazo.
Cenário aponta para condições financeiras mais restritivas
Apesar das preocupações com o aumento dos juros, Rachel de Sá afirmou não identificar sinais de uma crise de solvência do sistema financeiro global como um todo. Segundo a analista, as métricas permanecem sólidas, embora o ambiente econômico esteja se tornando mais desafiador.
Essa avaliação não elimina os riscos associados à elevação dos custos de financiamento. Com juros mais altos por períodos prolongados, governos, empresas e investidores passam a operar em condições financeiras mais restritivas, o que pode afetar decisões de investimento, a sustentabilidade das dívidas e o desempenho dos mercados.
“A gente está vivendo, vai viver um período de condições financeiras mais apertadas, certamente”, concluiu a estrategista.
Para acompanhar a evolução desse cenário, Rachel de Sá apontou os juros longos dos Estados Unidos como um dos principais indicadores a observar. A volatilidade desses papéis reflete o nível de incerteza dos mercados e ajuda a compreender como os investidores avaliam os riscos fiscais e inflacionários.
A reação dos bancos centrais aos choques simultâneos de curto e longo prazo também será determinante. Enquanto os preços de energia influenciam as perspectivas de inflação, a trajetória das contas públicas condiciona a oferta de títulos e a remuneração exigida pelos investidores.
Fonte: www.cnnbrasil.com.br