Debate entre petista e bolsonarista só reforçou convicções na polarização, sendo desértico em ideias ao eleitor não engajado
O debate da Band, o primeiro em que Flávio Bolsonaro e Lula aceitaram participar, foi árido nas ideias sobre o futuro do país e fértil em ataques e provocações.
Não parecia um duelo de dois presidenciáveis, mas sim uma espécie de propaganda dessas empresas picaretas que prometem limpar na hora o nome de quem está devendo na praça. Em diferentes momentos, Flávio e Lula soaram como aquele locutor que fica na calçada tentando atrair interessados com uma série de promessas boas demais para serem verdadeiras.
Lula disse que iria literalmente dar dinheiro ao eleitor microempreendedor. Além de oferecer perdão de dívidas, distribuição de bolsas de toda sorte e transporte gratuito aos fins de semana.
Flávio, com seu Ministério da Prosperidade, ofereceu ao eleitorado o mesmo pacote de bondades, com perdão de dívidas e dinheiro com muito tempo para pagar, entre outras benesses.
A lógica vista no debate foi a do quem dá mais. Um esforço perigoso para comprar o apoio do eleitor. A ideia de um debate com propostas sérias para o futuro do país, com bons argumentos na economia, na segurança, na saúde e na educação sempre questões sensíveis ao eleitor — e uma disputa pelo convencimento — e não pela compra direta do voto — passaram muito longe dos estúdios da Band.
Em diferentes momentos, no embate direto entre Lula e Flávio, o mar de lama que domina a campanha na TV e nas redes prevaleceu. Mentiroso, corrupto, condenado, miliciano, quadrilheiro foram termos usados de lado a lado.
Se a ideia era oferecer à militância o conteúdo tramontina os famosos cortes rápidos para redes sociais –, Flávio Bolsonaro saiu-se melhor do que Lula, que mostrou-se em vários momentos cansado e sem reação ao variado leque de provocações do adversário. Com investigações tão complicadas quanto as que rondam o petista, Flávio também apanhou ao ser lembrado de casos controversos do passado e as relações não explicadas com o advogado Willer Tomaz — metido com a máfia do INSS — e com o próprio dono do Banco Master.
A sorte de Flávio foi que Lula estava realmente mal treinado por seu marqueteiro, mais nervoso no estúdio do que o próprio presidenciável, e com discurso cheirando a mofo. Em dado momento, Lula disse que a economia verde virou uma “coqueluche” nesse país — nada mais antiquado.
O petista passou boa parte do programa irritado, sem estratégia para se comunicar com os eleitores indecisos e desprevenido ao abordar temas complexos que ele sabia que estariam no duelo, como as investigações contra Lulinha, as revelações de VEJA sobre Daniel Vorcaro e a entrevista de Roberta Luchsinger.
Arrogante, o petista não se deixou treinar. Acreditou que enfrentaria aquele Flávio Bolsonaro que passou mal num debate da Globo anos atrás e não um candidato devidamente ensaiado para o desafio presidencial.
Em vez de entrar na mente do adversário, como fez em debates de outras disputas eleitorais, o petista foi claramente dominado pelas provocações. A cereja do bolo foi a fala final em que disse que o país iria acabar em seu possível quarto mandato.
Flávio saiu-se melhor porque o clima nessa campanha pende para a mudança e para o desgaste material de um projeto político que já governar o país por quase vinte anos. Resta pouca esperança no eleitorado que não é petista nem bolsonarista. É difícil acreditar que Lula, fazendo tudo igual por tantos anos são os métodos de aparelhamento, desvios e gastança de sempre –, entregará algo diferente num novo mandato. Da mesma forma, é complexo acreditar que Flávio fará algo melhor.
A lógica no debate foi, portanto, explorar ao máximo o voto de punição e o instinto de eleitor em se vingar do atual sistema, que recolhe muitos impostos, devolve péssimos serviços públicos ao país e se esbalda em festas de ricaços e em contratos milionários de consultoria enquanto a maioria dos brasileiros não consegue sequer comprar a picanha prometida no mercado.
Fonte: veja.abril.com.br