Estudo que lista 17 grandes riscos à saúde e à sobrevivência humana para os próximos 75 anos será apresentado Cúpula Mundial da Saúde, em Berlim
Uma nova avaliação de risco global apontou que a humanidade enfrenta ameaça real de extinção até o ano de 2100, impulsionada pelo uso malicioso de inteligência artificial (IA) ou por possíveis conflitos nucleares. O estudo, divulgado no sábado 10, foi elaborado por uma comissão de 35 especialistas internacionais vinculados à revista The Lancet e será apresentado na Cúpula Mundial da Saúde, em Berlim, na Alemanha.
O relatório lista 17 grandes ameaças à saúde e sobrevivência humana para os próximos 75 anos. Além dos riscos de extinção, a lista inclui a crise climática, a desnutrição infantil, o aumento da resistência antimicrobiana, a poluição do ar e os recentes cortes na ajuda humanitária promovidos por países ricos. Todas as ameaças catalogadas possuem soluções viáveis, segundo os especialistas.
Pior cenário
De acordo com os pesquisadores, o uso de IA para o desenvolvimento de armas biológicas e o eventual surgimento de um conflito nuclear representam os cenários mais severos para os próximos 75 anos. Apesar da probabilidade individual desses eventos ser considerada baixa, o impacto potencial poderia ser devastador. Um editorial da revista The Lancet, publicado juntamente com o relatório, alerta: A escala dos danos, caso se concretizem, infligiria um apocalipse à humanidade.
Para mensurar a gravidade dos problemas, os cientistas utilizaram o indicador DALY (acrônimo em inglês para “anos de vida ajustados por incapacidade”), que calcula os anos de vida saudável perdidos por doenças ou morte prematura. Entre os fatores com potencial de causar mais de 1 bilhão de DALYs acumulados estão o envelhecimento não saudável, a obesidade, problemas de saúde mental, o tabagismo, o consumo excessivo de álcool e a hipertensão.
Desigualdade regional
A pesquisa destaca que o impacto das ameaças varia profundamente conforme a renda de cada região. Enquanto países ricos enfrentam desafios focados em doenças não transmissíveis e saúde mental, as nações em desenvolvimento sofrem com a falta de escolaridade e a desnutrição.
Os especialistas também chamam atenção para os recentes cortes na ajuda humanitária promovidos por doadores como Estados Unidos e Reino Unido. A redução drástica do financiamento à saúde internacional pode acarretar a perda de até 1,5 bilhão de anos de vida saudável, atingindo desproporcionalmente a África Subsaariana, que concentra cerca de 70% desses impactos e a maior parcela da fome infantil.
No campo ambiental, o estudo aponta que medidas para conter o aquecimento global em 1,8°C em vez de permitir que atinja 4,4°C evitariam a perda de 1,89 bilhão de anos de vida saudável.
Esperança
Apesar do cenário alarmante, os autores do relatório reforçam que as ameaças interagem entre si e que existe um caminho realista para a prevenção.
O professor Christopher Murray, diretor do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde da Universidade de Washington e copresidente da comissão, enfatizou a responsabilidade dos governantes. Murray afirmou que as escolhas feitas hoje moldarão o bem-estar das futuras gerações e cobrou a alocação urgente de recursos financeiros e humanos na antecipação e controle dessas crises.
O epidemiologista Ibrahim Abubakar, professor da UCL e membro da comissão, ressaltou que o objetivo do trabalho não é disseminar o pânico, mas oferecer aos formuladores de políticas públicas um diagnóstico preciso para guiar decisões eficazes. O relatório será atualizado anualmente para incorporar novos dados e monitorar riscos emergentes.
Fonte: veja.abril.com.br