No Dia das Crianças, ídola do Santos recorda brincadeiras nas ruas de Santa Catarina e destaca a relação com mini torcedores das Sereias da Vila
Antes de se tornar uma das principais referências da história do Santos, Ketlen Wiggers era uma menina que passava as tardes jogando bola na rua, andando de bicicleta e dividindo as brincadeiras com as amigas em Rio Fortuna, município do interior de Santa Catarina. Aos 34 anos, a atacante das Sereias da Vila guarda lembranças de uma infância marcada pela liberdade de ocupar os espaços da cidade, praticar diferentes esportes e construir amizades. Neste Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, ela revisita essas memórias e reflete sobre as diferenças entre a infância que viveu e aquela que deseja proporcionar ao filho Lucca.
Em entrevista, a jogadora falou sobre a importância de crescer em uma cidade pequena, onde conhecia praticamente todos os moradores e podia brincar nas ruas com tranquilidade. Uma realidade diferente da que encontra atualmente em Santos, onde vive com o marido e o filho, mas que continua servindo de referência para pensar sobre as experiências que deseja compartilhar com o menino.
“Eu acho que era bem diferente, sim, porque eu vim de uma cidade muito pequenininha, uma cidade de 4 mil habitantes só. Então, lá eu conhecia todo mundo. As minhas amigas que eu cresci, que eu nasci do lado, a gente viveu a infância, viveu a juventude, tudo junto até eu sair de lá. Mas eu tenho contato até hoje com elas”, relembrou, em entrevista exclusiva à VEJA.
O futebol já fazia parte da rotina, mas estava longe de ser a única atividade. Entre as brincadeiras na rua, os encontros no ginásio e os passeios de bicicleta, Ketlen recorda um cotidiano em que o esporte era também uma forma de convivência.
“Foi uma infância muito gostosa, onde a gente era muito tranquila para brincar na rua, para sair de casa, jogar bola. Eu passei a infância toda jogando bola com elas na rua, no ginásio, praticando esporte, andando de bicicleta.”
Hoje, a atacante reconhece que as condições de uma cidade maior trazem outras preocupações, especialmente em relação à segurança e à autonomia das crianças. Ainda assim, espera que Lucca tenha oportunidades de brincar, experimentar atividades e construir suas próprias lembranças.
“Com certeza era muito mais tranquilo do que eu acredito que o Lucca vai viver aqui, porque é uma cidade maior. Então, com certeza tem essa preocupação maior de eu poder liberar ele para sair de casa, mas ele vai ter a infância mais feliz possível que eu puder dar para ele. Quero que ele possa desfrutar disso, assim como desfrutei de uma infância muito feliz com a minha família.”
Depois de retornar aos gramados nesta temporada, a atacante pôde compartilhar com Lucca um momento especial na Vila Belmiro. O menino acompanhou do camarote uma partida contra o Juventude, na qual a mãe marcou um gol. Para a santista, a possibilidade de dividir o ambiente de trabalho com o filho e, futuramente, transformar o estádio e os treinos em espaços de convivência familiar é uma das experiências que mais deseja preservar.
“Eu queria muito que ele aproveitasse da forma como ele deseja, ele sonha. Queria muito que ele jogasse futebol comigo ainda. Não sei se é isso que ele vai desejar para ele no futuro, mas eu quero poder aproveitar isso.”
Ketlen também observa essa relação na convivência com Suzane, companheira de Santos, e o filho da jogadora, Galter, de sete anos. A atacante conta que costuma ver os dois brincando e jogando bola juntos, uma experiência que espera viver com Luca nos próximos anos.
“A Suzane (Pires), que joga no Santos, tem o filhinho dela que é um pouquinho mais velho, o Gauther, que tem sete anos. Ela está sempre brincando com ele, jogando bola com ele. Eu quero ter isso com ele, poder aproveitar o máximo com ele e, se Deus quiser, ainda jogando aqui no Santos, levando ele para os treinos, levando para os jogos ali na Vila, podendo estar com ele no pós-jogo.”

Das brincadeiras na rua às primeiras experiências com a Seleção
A relação de Ketlen com o futebol começou ainda na infância e ganhou novos espaços quando a atacante passou a integrar as categorias de base da Seleção Brasileira. Entre as lembranças desse período estão as amizades construídas nas concentrações e competições internacionais, algumas preservadas até hoje dentro do próprio elenco santista.
É o caso de Thaisinha, companheira que conhece desde os tempos da Seleção Sub-17 – as duas dividiram experiências em uma geração que também contou com nomes como Bia Zaneratto.
“Desse elenco atual, a que eu conheço há mais tempo é a Thaisinha, que eu conheci na Seleção Sub-17 ainda. A gente jogou junto a base toda da Seleção. Então, a gente passou uma parte da juventude juntas, aprontamos muito na Seleção”, contou, com bom humor.
Ketlen também recordou a participação no primeiro Mundial Feminino Sub-17, realizado em 2008, na Nova Zelândia. Na época, ainda atuava como lateral, posição diferente daquela em que se destacaria posteriormente no profissional.
“Eu ainda era lateral, não era nem atacante ainda. Foi muito gostoso, minha primeira experiência internacional. Tinha um elenco absurdo, Bia Zaneratto, Thaisinha, algumas jogadoras que participaram daquele Mundial e que estão hoje na Seleção e em grandes clubes também”, conta.
Referência para crianças e jovens das Sereias da Vila
Aos 34 anos, Ketlen ocupa um papel diferente daquele que encontrou quando chegou ao Santos, em 2007. Na ocasião, ainda adolescente, passou a dividir o ambiente profissional com jogadoras experientes, incluindo Marta, que já acumulava participações em grandes competições internacionais.
A atacante lembra que não havia uma estrutura de categorias de base como a que existe atualmente no clube. O aprendizado acontecia diretamente no elenco principal, na convivência diária com atletas que já tinham experiência em Olimpíadas e Copas do Mundo.
“Eu pude ter essa experiência quando cheguei. Eu não era da base porque não existia base, mas, quando cheguei, tinha jogadoras muito experientes, jogadoras de Seleção que tinham disputado Olimpíada, Mundial. Então, eu aprendi muito com elas. Com a Marta, poxa, eu tinha a Marta do meu lado podendo aprender com ela.”
Agora, é Ketlen quem compartilha o campo com atletas que estão começando a participar das atividades profissionais. Para ela, compreender o nervosismo das mais jovens e ajudá-las na adaptação ao ambiente é uma maneira de contribuir também com o trabalho de formação do Santos.
“Quando você sobe para o profissional, tem um treino no profissional, claro que fica nervosa, é normal, porque você está com jogadoras mais velhas, jogadoras que têm nome no clube. Então, o nervosismo é normal, mas eu poder passar essa experiência para elas, contribuir, ajudar, não ajuda só elas, mas ajuda o clube a formar atletas importantes.”
A relação com as novas gerações também acontece fora dos gramados: na Vila Belmiro, Ketlen observa a presença de famílias e crianças nas arquibancadas dos jogos das Sereias. Nas ruas de Santos, os encontros com pequenos torcedores se tornaram parte do cotidiano.
Um desses episódios aconteceu recentemente no prédio onde mora. Depois de encontrar uma figurinha da atacante no álbum do Brasileirão, um menino pediu à mãe que entrasse em contato com a jogadora para conseguir um autógrafo.
“Aqui no prédio onde eu moro mesmo, encontro vários menininhos que vêm tirar foto comigo. Esses dias, um bateu aqui, a mãe interfonou, porque me viu no álbum de figurinha do Brasileirão e me tirou na figurinha. Veio pedir autógrafo na figurinha. Então tirei foto, assinei camisa.”
Para Ketlen, esse reconhecimento demonstra como o futebol feminino passou a fazer parte das referências esportivas de crianças que acompanham o Santos. O contato com as atletas, segundo ela, também contribui para aproximar novas famílias do clube.
“É muito importante esse contato que a gente tem, esse reconhecimento das crianças hoje, poder ver a gente, poder ter esse contato. Com certeza é muito importante, não só para a gente sentir esse amor, esse carinho, mas também para o crescimento do futebol feminino e do clube, ter mais torcida, mais pessoas apoiando a gente dentro do estádio.”

De volta aos gols, Ketlen projeta o futuro do Santos
Além das reflexões sobre infância e maternidade, Ketlen vive um momento importante dentro de campo. Depois de um período afastada por conta da gravidez e do nascimento de Lucca, a atacante retornou ao Santos em 2026 e rapidamente voltou a contribuir ofensivamente.
Nos sete jogos registrados na temporada, entre Brasileiro e Paulistão F, a jogadora soma quatro gols em 320 minutos disputados. Três foram marcados no Brasileirão e um no estadual. Entre os adversários contra os quais balançou as redes estão Corinthians e Mirassol.
A atacante admite que sua primeira expectativa era simplesmente conseguir retornar aos gramados em boas condições, mas celebra a possibilidade de participar diretamente dos resultados da equipe. “Eu fico muito feliz, porque acho que a expectativa primeiro era poder voltar e voltar bem, mas não esperava que também fosse assim. Então, fico feliz de poder estar ajudando o time, de estar podendo contribuir com gols, que eu sempre gosto de fazer.”
Agora, as atenções estão voltadas ao Campeonato Paulista. O Santos terá pela frente o São Paulo, atual campeão brasileiro, em confrontos considerados decisivos para as pretensões de classificação das Sereias da Vila. Ketlen destaca o período de preparação da equipe e espera manter a boa fase ofensiva para ajudar o clube a alcançar novamente uma decisão estadual.
“A gente tem dois jogos bem difíceis agora contra o São Paulo. Quero poder continuar nessa fase, podendo ajudar com gols e assistências para que a gente possa passar para a próxima fase do Paulista.”
A competição tem um significado particular para a atacante, que disputa o torneio desde sua chegada ao Santos, em 2007. Depois de acompanhar diferentes momentos do clube, ela considera importante recolocar as Sereias entre as protagonistas do futebol paulista.
“É um campeonato muito importante que, desde 2007, quando cheguei ao Santos, eu jogo. É muito gostoso de jogar. Eu adoro jogar o Campeonato Paulista e faz um tempinho que a gente não chega nas finais. Gostaria muito de poder passar.”
“Primeiro passar pelo São Paulo, que é um time muito bom, que foi campeão brasileiro agora. Mas a gente está trabalhando bastante, teve praticamente dois meses de preparação até o jogo. Espero que a gente possa estar na final do Paulista e, se Deus quiser, levantando uma taça esse ano também.”
O planejamento para 2027 também entrou na conversa. Depois de conquistar o acesso à elite nacional na temporada anterior, o Santos conseguiu permanecer na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, mas não avançou à fase eliminatória. Para Ketlen, a permanência na Série A1 representa uma etapa importante, embora esteja distante das ambições que considera adequadas à história do clube. A atacante defende a formação de um elenco mais competitivo e capaz de disputar posições entre os primeiros colocados.
“Eu vejo o crescimento, passei altos e baixos e, claro, passei momentos muito difíceis aqui. Espero não voltar a ter esses momentos difíceis. Quero poder sorrir mais, ser mais feliz aqui.”
“Espero que ano que vem a gente possa ter um elenco mais forte, que possa vir forte para disputar campeonatos. Claro, esse ano a gente se manteve na primeira divisão, mas o que eu penso, na verdade, é que quero sempre brigar lá em cima, estar entre os oito, entre os quatro, poder brigar por título. Acho que é isso que o Santos merece, as Sereias da Vila merecem, por toda a história, por tudo que conquistaram.”
A atacante também citou o desejo de voltar a disputar a Libertadores Feminina, competição que conquistou duas vezes pelo Santos, em 2009 e 2010. Para ela, o crescimento do elenco precisa permitir que o clube volte a competir regularmente com as principais equipes do país.
“Espero que no ano que vem, nos próximos anos, a gente possa ter um crescimento maior do time, do elenco, e que possa estar sempre brigando lá em cima com as melhores equipes e, se Deus quiser, voltar para uma Libertadores.”
Apesar dos planos para o Santos, a permanência da jogadora ainda é incerta. Ketlen cita que seu contrato termina em dezembro e que ainda não sabe onde estará na próxima temporada. A indefinição também interfere nos planos para acompanhar a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil. A atacante gostaria de assistir a partidas da Seleção Brasileira e, principalmente, compartilhar a experiência com Lucca.
“Minha vida no ano que vem, na verdade, está um ponto de interrogação, porque meu contrato acaba agora em dezembro. Então, ainda não sei o que vou fazer, se vou permanecer, se vou sair. Mas, claro, se eu estiver no Brasil, vou querer acompanhar os jogos e, se Deus quiser, poder levar o Lucca também para assistir alguns jogos da Seleção.”

Fonte: veja.abril.com.br