Intervenção no Ueno Bank foi motivada pela deterioração de seus indicadores financeiros
A intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras privadas do país, desencadeou uma crise que ultrapassou o setor bancário e passou a pressionar o governo do presidente Santiago Peña. A deterioração da situação financeira da instituição levou à abertura de um processo de resolução, à mobilização do fundo garantidor de depósitos e à renúncia de Carlos Carvallo, presidente da autoridade monetária. O episódio também provocou questionamentos sobre as relações entre os controladores do banco e integrantes do governo paraguaio.
O que aconteceu com o banco?
Na terça-feira, 3, o Banco Central paraguaio anunciou a intervenção no Ueno Bank depois de identificar uma grave insuficiência em seu índice de solvência. O indicador, que mede a capacidade de uma instituição financeira de honrar suas obrigações, ficou abaixo de 50% do patamar mínimo exigido pela regulamentação do país. A deterioração foi identificada após ajustes nas demonstrações financeiras do banco.
A instituição pertence ao Grupo Vázquez, conglomerado empresarial paraguaio, e possui aproximadamente 3 milhões de clientes. Em junho de 2026, seu patrimônio líquido era de 400 milhões de dólares, o quinto maior entre os bancos privados do país. Além de sua atuação no segmento digital, o Ueno é o principal emissor de cartões de crédito do Paraguai.
Diante da insuficiência identificada no índice de solvência, o Banco Central iniciou um procedimento para lidar com instituições financeiras em situação crítica. A Superintendência de Bancos deverá designar interventores para examinar a situação patrimonial da instituição, preservar seus ativos e conduzir o processo. A medida busca proteger os depositantes e evitar que as dificuldades do banco comprometam a estabilidade do sistema financeiro paraguaio.
O que acontece com o dinheiro dos clientes?
A intervenção provocou apreensão entre os correntistas, especialmente porque algumas agências bancárias estavam fechadas e clientes encontraram dificuldades para acessar seus recursos. Entre os afetados estão aposentados que recebem benefícios públicos por meio da instituição.
Pelas regras paraguaias, os depósitos bancários contam com cobertura do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) de até 75 salários mínimos por pessoa física ou jurídica em cada instituição financeira. Na data do anúncio da intervenção, o limite correspondia a 228 milhões de guaranis, aproximadamente 210 mil reais. A cobertura é calculada por depositante e instituição, independentemente da quantidade de contas mantidas pelo cliente.
Para os valores que ultrapassarem esse limite, o Banco Central informou que recorrerá aos mecanismos previstos na legislação para ampliar a proteção dos recursos. Paralelamente, o presidente Santiago Peña anunciou um acordo com lideranças do Congresso para acelerar a tramitação de um projeto de lei destinado a viabilizar os pagamentos aos depositantes.
Quais são as suspeitas envolvendo o banco?
Além da deterioração de seus indicadores financeiros, o Ueno vinha sendo alvo de questionamentos sobre suas operações de crédito. Nos últimos meses, o banco passou a enfrentar maior escrutínio regulatório em razão de suspeitas de concessão excessiva de empréstimos a empresas vinculadas ao Grupo Vázquez, seu controlador.
A situação levou o Ministério Público a solicitar a abertura de uma investigação criminal sobre as operações do banco. O órgão também determinou a prisão de oito pessoas ligadas à instituição. As apurações buscam esclarecer eventuais responsabilidades pelas irregularidades identificadas. Até o momento, as suspeitas não representam uma conclusão judicial sobre a ocorrência de crimes.
Por que a crise atingiu o governo paraguaio?
O episódio ganhou dimensão política em razão dos vínculos entre o grupo controlador do Ueno e o presidente Santiago Peña. Antes de assumir a Presidência, Peña foi sócio do conglomerado proprietário da instituição financeira, participação que manteve até março de 2025.
Outro personagem central da crise é Carlos Carvallo. Antes de assumir o comando do Banco Central, em agosto de 2023, ele havia presidido o próprio Ueno. A passagem pelo banco e as relações entre a instituição, seus controladores e integrantes do governo alimentaram críticas de parlamentares à atuação da autoridade monetária.
Sob pressão, Peña solicitou a saída de Carvallo, que apresentou sua renúncia na terça-feira. O dirigente afirmou que seu afastamento ajudaria a reduzir a controvérsia em torno do Banco Central e permitiria que os órgãos responsáveis pela fiscalização conduzissem o processo sem a interferência das disputas políticas. Ele também informou que permaneceria no cargo durante o procedimento de resolução.
A crise ainda ameaça a imagem do Paraguai como destino de investimentos estrangeiros. Os títulos de dívida do Ueno denominados em dólares, com vencimento em 2031, foram pressionados, assim como os papéis soberanos do país. O banco administra aproximadamente 850 milhões de dólares em recursos públicos, incluindo valores relacionados ao Instituto de Seguridade Social (IPS) e a outros fundos previdenciários estatais, o que amplia a preocupação com os desdobramentos do caso.
Peña procurou minimizar o risco de contágio para o restante do setor financeiro e afirmou que a situação é específica da instituição. O Banco Central também sustentou que os problemas do Ueno não representam uma deterioração generalizada do sistema bancário paraguaio.
Fonte: veja.abril.com.br