Democratas conquistaram o controle do Congresso em um pleito marcado pelo descontentamento com Trump e pela preocupação com a economia
As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira, 3, impuseram uma derrota expressiva ao presidente Donald Trump e ao Partido Republicano, que perdeu o controle das duas Casas do Congresso após uma onda de vitórias democratas em diversos cantos do país.
Mais do que recuperar cadeiras em estados tradicionalmente competitivos, a oposição avançou em antigos redutos conservadores, conquistando ao menos sete assentos no Senado e mais de duas dezenas na Câmara dos Representantes, além de governos estaduais.
A dimensão do resultado superou as expectativas das pesquisas eleitorais e escancarou a insatisfação do eleitorado com os rumos do país, sobretudo com o aumento do custo de vida. Dois anos depois de voltar à Casa Branca, Trump viu parte da coalizão que o elegeu em 2024 se afastar de seu partido, enquanto candidatos que receberam seu apoio pessoal sofreram derrotas significativas.
Veja os seis principais recados deixados pelas urnas americanas:
1. Tsunami azul
A vitória dos democratas foi muito além dos estados considerados decisivos nas eleições americanas. No Texas, onde os republicanos dominavam as disputas para o Senado há 38 anos, James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton. Já no Kansas, Adam Hamilton tornou-se o primeiro democrata eleito senador desde 1932, enquanto, na Carolina do Sul, Annie Andrews encerrou um período de quase três décadas sem vitórias do partido para o cargo.
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O avanço democrata também tomou conta de Iowa, Carolina do Norte e Ohio, estados que haviam apoiado Trump nas eleições presidenciais de 2024. Na disputa pelos governos estaduais, os democratas conquistaram, entre outros, Texas, Geórgia e Ohio.
2. Insatisfação com a economia
Embora Trump tenha dedicado as últimas semanas de campanha a apresentar os democratas como radicais de esquerda que representariam uma ameaça aos Estados Unidos, foi a situação econômica que mais mobilizou os eleitores. Segundo pesquisas realizadas na saída das urnas, quase nove em cada dez americanos consideraram o custo de vida um fator importante ou decisivo para seu voto, enquanto aproximadamente dois terços responsabilizaram o presidente pela alta dos preços, segundo a agência de notícias Reuters.
Eleito em 2024 com a promessa de controlar a inflação, o presidente americano enfrentou o descontentamento provocado pelo encarecimento de produtos básicos, da gasolina e de outros gastos cotidianos. Sua política de tarifas sobre importações e a guerra contra o Irã também foram apontadas por grande parte do eleitorado como fatores de deterioração da economia.
3. Rejeição a Trump
Trump pediu que os americanos votassem como se ele estivesse na cédula, e eles fizeram exatamente isso. Acostumado a exercer influência decisiva sobre as candidaturas republicanas, o ocupante do Salão Oval viu alguns de seus principais aliados serem derrotados, inclusive em estados nos quais o partido esperava vencer.
O contraste entre o discurso do presidente antes e depois da votação também chamou atenção. Após a derrota, Trump procurou se distanciar do resultado, afirmando que não estava concorrendo e que teria vencido por uma margem larga caso estivesse na disputa.
Eu não estava na cédula eleitoral e, se estivesse, teríamos vencido POR UMA LAVADA! Obrigado pela atenção a este assunto”, disse o americano, em publicação na Truth Social.
4. O eleitorado latino
Um dos movimentos mais importantes da eleição ocorreu entre os eleitores latinos, grupo que havia contribuído para o retorno de Trump à Casa Branca em 2024. Na ocasião, o republicano conquistou cerca de 46% desses votos, ampliando significativamente seu apoio em relação a 2020. Dois anos depois, a proporção de latinos que votaram em candidatos republicanos caiu para aproximadamente um terço, segundo a Reuters.
A mudança foi particularmente visível no Texas, onde 4 em cada 10 pessoas são latinas, e em regiões de grande população hispânica na Flórida. O resultado também veio acompanhado de marcos históricos: Gina Hinojosa foi eleita a primeira governadora latina do Texas, enquanto Xavier Becerra se tornou o primeiro latino eleito para comandar a Califórnia. Além dos hispânicos, os republicanos registraram um recuo no apoio de eleitores jovens e homens negros, outros segmentos que haviam contribuído para a vitória presidencial de 2024.
5. Novos perfis políticos
As urnas também produziram resultados inéditos para a representatividade na política americana. Na Geórgia, a democrata Keisha Lance Bottoms tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora de um estado americano. Na vizinha Flórida, o republicano Byron Donalds fez história ao se tornar o primeiro governador negro eleito pelo Partido Republicano no país.
No Senado, Abdul El-Sayed, eleito pelo Michigan, será o primeiro muçulmano a ocupar uma cadeira na Casa, enquanto Peggy Flanagan, de Minnesota, se tornou a primeira mulher indígena americana eleita senadora. As conquistas, distribuídas entre diferentes regiões e correntes políticas, ampliam a diversidade de um sistema no qual mulheres e integrantes de minorias raciais e religiosas foram historicamente sub-representados.
6. Desejo de mudança
Com a retomada do controle da Câmara e do Senado, os democratas passam a dispor de instrumentos para barrar iniciativas legislativas da Casa Branca, rejeitar indicações presidenciais e ampliar investigações sobre o governo.
Isso não significa, porém, que os resultados representem uma aprovação irrestrita da oposição. Segundo uma pesquisa AP Voter Poll, apenas cerca de metade dos votantes tem uma avaliação favorável do Partido Democrata e aproximadamente dois em cada dez eleitores de seus candidatos possuíam uma imagem negativa da própria legenda. O resultado sugere que, para parte dos americanos, o voto foi motivado mais pelo desejo de mudança do que por uma identificação partidária.
O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama celebrou o resultado do partido Democrata nas eleições, afirmando que os norte-americanos enviaram uma mensagem clara do desejo de mudança.
A nova configuração do Congresso deve impor obstáculos à agenda de Trump nos dois anos finais de seu mandato, mas também transfere responsabilidades aos democratas, que precisarão demonstrar capacidade de responder às preocupações econômicas responsáveis por impulsionar suas vitórias. Afinal, embora a oposição tenha conquistado as duas Casas, o presidente continua com o poder de veto sobre os projetos de lei aprovados pelo Legislativo, abrindo caminho para novos impasses em Washington.
Após os primeiros resultados negativos para seu partido, Trump publicou a foto de um boné vermelho com a palavra veto. Dias antes, o presidente antecipou como agiria caso os democratas vencessem as eleições: “Acho que vou me tornar o Sr. Veto”, disse o ele ao podcast “Pod Force One”, do New York Post.
Fonte: veja.abril.com.br