Possibilidade de conversa entre os lideres aconteceria próximo do fim da trégua mais longa da guerra na região de Kherson
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, estaria disposto a atender uma eventual ligação do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, segundo um assessor do Kremlin. Em declaração à agência de notícias Interfax neste domingo, 1º, Yuri Ushakov afirmou que o líder russo nunca se recusou a manter conversas com o governo ucraniano.
Creio que ele atenderia, claro. Putin nunca se recusou a dialogar, disse Ushakov, de acordo com a Interfax.
A fala acontece em meio a proximidade do fim da trégua mais longa da guerra na Ucrânia, negociada pela primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, e limitada à região de Kherson. A trégua expira neste domingo, 1º, sem sinal de prorrogação.
Segundo um alto funcionário da Presidência ucraniana, o Ministério das Relações Exteriores do país apresentou “uma proposta para estender” o cessar-fogo. Mas “os russos não querem”, disse essa fonte à AFP.
A incomum pausa em mais de quatro anos e meio de combates, iniciada na madrugada de terça-feira, 27, permitiu a realização de uma missão humanitária à cidade de Oleshky, ocupada pela Rússia desde 2022.
Nenhum dos lados denunciou violações do cessar-fogo desde sua entrada em vigor, no que um parlamentar ucraniano descreveu como a maior desescalada desde 2022.
Para os moradores de Kherson, que vivem sob fogo cruzado dos dois lados, a suspensão das hostilidades representou um alívio.
Temos de aproveitar esse tempo para fazer as coisas, declarou Volodymyr Omeltchenko, jardineiro de 38 anos que podava roseiras para a chegada do inverno.
O conflito, desencadeado em 2022 pela invasão russa, devastou áreas do leste e do sul da Ucrânia, deixou centenas de milhares de mortos e forçou milhões de pessoas a abandonar suas casas.
Alguns desses deslocados aproveitaram a trégua para retornar a seus lares em Kherson. Foi o caso de Yulia Mayfeld, que não voltava à cidade desde que fugiu, há cinco anos, com os filhos para a região vizinha de Odessa.
Faz tanto tempo, tanto tempo, disse ela, entre lágrimas e sorrisos. Vim apenas para que as crianças pudessem voltar a sentir o que é um lar, essa sensação íntima de lar, o lugar onde nasceram.
As filhas gêmeas Sofiia e Viktoriia, de nove anos, não se lembram realmente de como era, explicou a mãe. Já o filho Pavlo recorda seu último aniversário na cidade, junto dos amigos de infância.
Sinto muitíssima falta desta cidade, afirmou o menino de 11 anos, que correu escada acima até seu quarto, ainda cheio de brinquedos.
Neste domingo, a família pretende retornar a Odessa e encerrar o capítulo de Kherson, segundo Yulia.
Um oficial militar ucraniano, que falou sob condição de anonimato, manifestou preocupação de que os combates possam ser piores do que antes quando a trégua terminar.
Segundo ele, as forças russas, posicionadas na outra margem do rio Dnipro, aproveitaram os últimos dias para concentrar novos efetivos, deslocar reservas de munição e coletar informações sobre posições ucranianas por meio de drones.
Ataques fora de Kherson
Fora de Kherson, os combates prosseguiram. A Rússia informou neste domingo que um drone atingiu durante a noite uma empresa industrial a leste de Moscou.
Veículos de comunicação ucranianos relataram um ataque contra a refinaria de petróleo de Kstovo, descrita como uma das maiores refinarias da Rússia, produtora de combustíveis e lubrificantes.
A Ucrânia tem atacado repetidamente instalações petrolíferas e de gás russas, argumentando que se trata de uma resposta legítima aos bombardeios contra sua infraestrutura energética.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pressiona Kiev a interromper esses ataques, por considerar que eles contribuem para a alta dos preços do diesel. Analistas atribuem esse aumento à guerra envolvendo o Irã.
O Ministério da Energia da Ucrânia anunciou neste domingo novos cortes no fornecimento de eletricidade em todo o país, incluindo Kiev, em consequência dos ataques russos.
Já as autoridades instaladas por Moscou em territórios ucranianos ocupados afirmaram que cinco pessoas morreram em ataques ucranianos desde a noite de sábado. Ambos os lados sustentam que seus ataques não têm civis como alvo.
A Rússia controla atualmente cerca de um quinto do território ucraniano. Os esforços diplomáticos liderados por Washington para pôr fim à invasão seguem paralisados por enquanto. Ainda assim, uma reunião trilateral entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia está prevista para novembro.
(Com informações da AFP)
Fonte: veja.abril.com.br